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Cia das Letras
UM ZOOLÓGICO NO MEU QUARTO
Jules Feiffer



CAPÍTULO 1

Tenho um jardim zoológico no meu quarto. E preciso dele, porque quando eu crescer vou ser veterinária, ou então vou cuidar dos animais no jardim zoológico.
Meu pai, minha mãe e minha irmã sabem que eu gosto de tudo quanto é bicho. Antes ainda de ter meu primeiro bichinho em casa, estávamos assistindo TV no quarto dos meus pais e vimos um anúncio de comida de cachorro. Daí eu falei: "Quero um cachorrinho!". Mas eu sabia que eles não iam deixar.
Meu pai falou: "Você ainda não tem idade para levar um cachorro para passear na rua. Sua mãe não gosta de cachorros, e sua irmã está com dezesseis anos e vai à escola, depois à aula de teatro e não tem tempo. Sendo assim, na hora de levar o cachorro para passear você acha que vai sobrar para quem?".
"Para você!", respondi. E ele falou: "Não. E sabe por quê? Eu já tive dois cachorros, e saía com eles para passear na rua a qualquer hora do dia e da noite, mas agora já estou muito velho para isso. Você pode ter um cãozinho quando tiver idade para levá-lo para passear, sozinha. E de vez em quando eu até posso ir junto com você".
Perguntei: "Quantos anos eu preciso ter?".
"Doze", disse meu pai.
"Onze", disse minha mãe.
"Onze e meio", disse meu pai.
"Dez!", falei.
"Onze", disse meu pai.
"Dez e meio!", disse eu.
Foi aí que eu tive uma boa idéia:
"Quando a gente tem gato, não precisa levar para passear, não é?".
Vi que era uma ótima idéia, pela cara que eles fizeram. Dava para contar até cem antes que algum deles respondesse alguma coisa.
Minha mãe foi quem falou primeiro: "Acho que agora não temos saída".
Meu pai falou: "Acho que alguém passou a perna em nós dois".
E assim entramos em acordo: um gato!


CAPÍTULO 2

O gato se chamava Timmy. Nós o pegamos em um abrigo para animais. Era apenas um filhotinho, um gatinho bem pequeno. E estava resfriado. E não queria comer nem beber nada, só ficava deitado, sem se mexer.
Tinha cor de tigre, mas sem as listras. Dava para ver no pêlo dele onde deveriam estar as listas, só que não estavam. O pêlo era curto e todo espetado, e quando eu fazia carinho nele, parecia que estava passando a mão numa vassoura de palha.
Segurei o gatinho no colo. Quis colocá-lo no meu travesseiro quando fui dormir, mas meus pais não deixaram. Ficaram com medo de que no dia seguinte eu acordasse e o encontrasse morto.
Nos primeiros dois dias, meu pai telefonava para o abrigo dos animais umas dez vezes por dia. E, a cada vez que desligava, parecia mais triste. "O que eles disseram?", eu perguntava, ou minha mãe perguntava, e todas as vezes meu pai dava a mesma resposta: "Disseram que não tem problema". Como se "não tem problema" fosse uma espécie de maldição - como se o Timmy já estivesse morto. Até me dava vontade de chorar.
Minha mãe me abraçou e ficou brava com meu pai. Daí falou: "O gatinho vai ficar bom, prometo!". Eu percebi, pelo jeito como ela olhava fixo para o meu pai, que agora era a vez dele. E foi batata: ele falou "Julie, o gatinho vai ficar bom. Dou minha palavra, e sua mãe também".
Vi que ele mesmo não acreditava nisso. Mas Timmy era o meu primeiro e único bichinho - por isso, eu sabia que eles não podiam deixá-lo morrer.
Meu pai, minha mãe e até minha irmã Halley se revezaram para dar de comer ao gatinho com o conta-gotas. Ele quase não se mexia. Ficava deitado no tapete o dia todo, sempre no mesmo lugar, ali onde o sol entrava pela janela. Minha mãe não queria saber de gato doente fazendo cocô por aí. Em qualquer lugar onde o gato estivesse deitado, ela pegava a caixinha de areia, colocava do lado dele, e apontava para a caixa, sorrindo: "Está vendo a caixinha, Timmy? Gatinho bonzinho, gatinho bonitinho!".
Eu não me importava com o lugar onde ele ia fazer cocô - só queria que ele melhorasse.
Demorou duas semanas e três visitas ao veterinário. Meu pai precisou enfiar os comprimidos à força pela garganta dele. Timmy cuspia todos. Meu pai enfiava de novo, segurava a boca do Timmy bem fechada e alisava a garganta dele, como o veterinário mostrou. Eu, minha mãe e a Halley ficávamos ali perto dizendo: "Timmy, seja bonzinho!". Não adiantava nada, ele cuspia todas as pílulas. Parecia que ele nem fazia questão de melhorar. Como se isso fosse importante só para nós.
Minha mãe e a Halley, mesmo sem gostar muito de animais, diziam a todo instante, com aquele jeitinho falso: "Ele está com uma carinha melhor, você não acha?".
E se elas não diziam, eu dizia. Nossa esperança era de que, repetindo essa mentira, ela passaria a ser verdade.
Até que um dia acordei e o Timmy parecia ter o dobro do tamanho do dia anterior, arranhava e arrebentava a perna do sofá - o sofá que minha mãe comprou quando a família mudou para cá, antes de eu nascer. A outra perna do sofá já estava estraçalhada.
Minha mãe começou a chorar: "Eu mato esse gato!". Mas o resto da família ficou feliz, e eu, a mais feliz de todos.

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