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Companhia das Letras
NA MULTIDÃO
Luiz Alfredo Garcia-Roza



1



Com uma das mãos, a mulher pressionava a bolsa contra o peito enquanto com a outra segurava um pedaço de papel que consultava repetidamente. O painel luminoso localizado acima dos guichês da agência da Caixa Econômica indicava dois números: um correspondia à senha e outro indicava o guichê de atendimento. Fazia mais de uma hora que ela estava sentada em meio a dezenas de outros aposentados e pensionistas esperando ser atendida. Sabia que se deixasse passar seu número teria que retirar nova senha (acontecera no mês anterior, quando se ausentara para ir ao banheiro). A dificuldade maior era manter a atenção no painel luminoso durante a longa espera; de tanto olhar para o número no painel e para o número impresso, ambos se transformavam em um conjunto de signos sem sentido. O burburinho das dezenas de pessoas em volta a perturbava, assim como as conversas próximas. Procurava sempre se sentar ao lado de alguém com menos idade, a quem pudesse pedir ajuda. Temia os idosos, pessoas solitárias que narravam com voz monocórdia seu abandono. Perturbavam sua concentração.
- Cento e setenta e dois - disse a mulher da cadeira ao lado, virando-se para ela.
Consultou o papel e levantou o braço. De nada adiantava gritar. Tampouco prestaram atenção em seu braço levantado. Saiu de onde estava e dirigiu-se apressada ao guichê onde o caixa repetia em voz alta o número do painel e se preparava para apertar o botão chamando um novo número, o que a condenaria à retirada de nova senha.
- É difícil chegar até aqui com tanta gente em volta - disse, esbaforida.
- Era só esperar perto do guichê quando o número anterior ao seu fosse anunciado - disse o caixa. - Seu cartão, por favor.
A outra razão de ela estar ali se esvaíra temporariamente. Abriu a bolsa e pôs-se a procurar o cartão da Previdência Social. Durante uma hora e meia estivera prestando atenção a números que se acendiam e se apagavam no painel e ao número que trazia escrito no pedacinho de papel que mantinha na mão. Descuidara-se do cartão.
- Da próxima vez, faça o favor de vir com ele na mão. A senhora está atrasando os outros.
- Quem vem aqui sabe que vai se atrasar... Sabe que vai perder a manhã ou a tarde.
- Então do que a senhora está reclamando?
- Não estou reclamando. Faz uma hora e meia que estou aqui dentro sem dizer nada. Aqui está o cartão.
- Vai retirar tudo?
- Vou.
Enquanto contava o dinheiro, olhava em volta como se temesse a aproximação de alguém. Uma centena de pessoas olhava para ela, mas nenhuma podia ouvir o que ela falava. Contou mais uma vez o dinheiro e devolveu-o ao caixa. Este por sua vez tornou a contar. Finalmente, retirou da gaveta mais algumas notas que anexou ao maço, entregando-o novamente a ela.
De volta a sua casa, ela não mudou de roupa. Preparou uma refeição leve e, enquanto comia, assistiu ao telejornal. Mais tarde, logo que o calor abrandasse, pretendia sair novamente para ir à farmácia e ao supermercado. Tinha ainda a intenção de passar na delegacia policial. Morava há mais de trinta anos na mesma rua, no mesmo prédio, distante apenas uma quadra da delegacia, e pela primeira vez considerou ter um motivo razoável para ir até lá.

Às cinco da tarde, depois de passar pela farmácia e pelo supermercado e ainda puxando o carrinho de compras, a pensionista atravessou o arco de entrada do prédio de dois pavimentos da 12a. DP em Copacabana e deparou com os dois ou três degraus que davam acesso à recepção. Ultrapassado o obstáculo dos degraus, entrou pela primeira vez numa delegacia policial, acompanhada de uma leve decepção. Esperava encontrar um ambiente intensamente movimentado e esfumaçado, cheiro de suor e de cigarro, policiais fardados entrando a todo momento com homens algemados, telefones tocando sem parar, pessoas falando aos gritos. Não viu ninguém fardado, nem gritando, nem algemado. Foi recebida por uma simpática mocinha num ambiente que mais lembrava uma agência dos Correios do que as delegacias policiais que vira nos filmes americanos.
- Pois não... - disse a atendente.
- É aqui a delegacia?
- Sim, senhora.
- Onde estão os policiais?
- Quase todos os que trabalham aqui são policiais, senhora. Deseja falar com alguém em particular?
- Gostaria de falar com o delegado.
- O delegado está em reunião.
- Vai demorar?
- É uma reunião com a equipe. Costuma demorar um pouco. A senhora não quer conversar com o detetive Welber, assistente dele?
- Não é a mesma coisa... Esse detetive é estrangeiro?
- Não senhora, é brasileiro.
- Welber...
- O nome parece estrangeiro, mas ele é brasileiro. A senhora vai gostar de conversar com ele.
- Não se trata de gostar de conversar com ele, minha filha, é que eu preferia falar com uma pessoa mais experiente.
- O detetive Welber é bastante experiente. Caso a senhora não o considere apto a escutar sua queixa, poderá falar com o delegado Espinosa quando a reunião terminar.
- Espinosa... Esse é o nome do delegado?
- Isso mesmo.
- Ele é judeu?
- Judeu? Não sei... Creio que não... Haveria algum problema?
- Não. Nenhum. É só curiosidade.
- E então? O que a senhora prefere, falar com o detetive ou esperar a reunião terminar?
- Já esperei muito tempo hoje de manhã na Caixa Econômica para receber minha pensão, já esperei agora à tarde na fila do supermercado para pagar as compras, esperei na farmácia... Moro a uma quadra daqui, vou até em casa deixar essas compras e depois volto para falar com o delegado.
- Como a senhora preferir. Qual é o seu nome?
- Laureta Sales Ribeiro.
- A senhora pode me procurar quando voltar, dona Laureta.
- Obrigada. Até já.


Eram quase sete da noite quando o delegado Espinosa deu por encerrada a reunião com a equipe de investigadores. Ainda não tinha saído da sala quando o policial de plantão entrou para comunicar que uma mulher fora morta a pouco mais de uma quadra da delegacia.
- Ela esteve aqui meia hora antes...
- Aqui na delegacia?
- Queria falar com o delegado.
- Ela me conhecia?
- Não senhor. Apenas queria falar com o delegado.
- Não tinha ninguém disponível?
- A atendente sugeriu o detetive Welber, mas ela queria falar com alguém que tivesse mais experiência.
- Como ela foi morta?
- Atropelada. Estava esperando o sinal de trânsito abrir para atravessar a rua quando deu um pulo para a frente. Na opinião de algumas pessoas, ela teria sido empurrada. Chegou a ser atendida pela ambulância do Corpo de Bombeiros, mas morreu a caminho do hospital.
- Tinha documentos?
- A bolsa dela foi recolhida com documentos, endereço, cartão de crédito, seguro saúde e dinheiro...
- Como ela se chamava?
- Laureta Sales Ribeiro.
- Tomaram algum depoimento?
- Os policiais que chegaram ao local ouviram as pessoas comentando umas com as outras, mas quando convocadas a prestar depoimento elas disseram que na verdade não tinham visto ninguém empurrar a atropelada, que apenas haviam tido a impressão de que ela fora lançada para a frente. Declarações vagas, a maioria feita por pessoas idosas que, em vez de informar o que de fato tinham visto, faziam longos discursos sobre a violência do trânsito, o medo de serem assaltadas, a guerra dos traficantes, a ausência da polícia. Quando solicitadas a falar sobre o atropelamento, já tinham esquecido a pergunta do policial. Ninguém se dispôs a vir à delegacia porque todos disseram ter visto apenas a mulher cair na frente do ônibus, e mesmo assim não sabiam dizer como ela tinha caído nem se tinha mesmo sido empurrada.
- E o motorista do ônibus?
- A única coisa que ele viu foi um vulto de cabelo branco e em seguida o baque de um corpo sendo atingido. Estava em estado de choque, repetindo o tempo todo que não tinha culpa.


O resto da tarde foi dedicado a refazer os passos de d. Laureta antes e depois de ela ter estado na delegacia. O acidente acontecera na hora mais movimentada da tarde, em uma das esquinas mais movimentadas de Copacabana, a poucos metros da portaria do prédio onde ela morava e a uma quadra da 12a. DP.
A atendente que conversara com d. Laureta repetiu inúmeras vezes o diálogo que tivera com ela. Espinosa queria que ela repetisse cada palavra e qual o estado de espírito da senhora: se parecia assustada, ansiosa, com medo...
- Ela não aparentava nada disso. Não estava assustada nem com medo. Parecia mais curiosa do que ansiosa. Não parecia ser nada muito urgente, tanto que deixou para voltar mais tarde. Não fez nenhum comentário sobre o motivo de ter procurado a delegacia.
- Ela pode ter presenciado algum crime, pode ter sabido de algum fato que incrimine alguém, pode ter sido ameaçada...
[...]