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Companhia das Letras
A BIBLIOTECA ESQUECIDA DE HITLER
Timothy W. Ryback



LIVRO 1

Leituras da linha de frente, 1915


O que o mundo do século XX acha mais fascinante na capital do Reich alemão não é exatamente a beleza de seus monumentos históricos ou de sua rica herança cultural.
Max Osborn, Berlim, volume 41 da série Locais Culturais Famosos publicada em Leipzig em 1909


Numa manhã sombria do final de novembro de 1915, Adolf Hitler, então cabo do 16o. Regimento de Infantaria de Reserva Bávaro,deixou seu alojamento numa casa de fazenda de dois andares na periferia de Fournes, pouco mais de três quilômetros atrás do front no norte da França, e, com seu casaco de trincheira bem fechado para se proteger do frio do outono e botas pregadas com tachas estrepitando nas pedras de cantaria úmidas, entrou na cidade para comprar um livro.
Para o soldado de linha de frente de 26 anos,a semana prometia ser calma,não diferente da anterior, cuja tranquilidade só havia sido rompida ocasionalmente por tiros de canhão do inimigo e a ameaça de ataques com gás. Na terça-feira anterior, quando a densa neblina se dissipara por um curto período, três biplanos britânicos haviam circulado pelo setor por várias horas.Sua aparição, seguida pelo clangor dos alarmes de gás, fez que os soldados da linha de frente procurassem suas máscaras de borracha e óculos protetores. Em novembro de 1915, o gás venenoso era uma novidade no front.
Algumas semanas antes, diversos "soldados negros", indianos pressionados a servir no exército britânico,haviam desertado para as linhas alemãs, prevenindo sobre um ataque iminente. Temendo essa nova arma silenciosa, os homens acenderam fogueiras e permaneceram em meio aos rolos de fumaça para testar aqueles instrumentos toscos. Naquela noite, observaram uma misteriosa nuvem amarela fluir para a terra de ninguém, pairar por ali ameaçadoramente e depois, com a mudança da brisa, retornar com a mesma calma às linhas britânicas.Vários alarmes de gás haviam soado desde então,mas sem nenhum incidente. Na terça-feira, 16 de novembro de 1915, o diário do regimento dizia: "alarme falso".
Na segunda-feira seguinte,quando Hitler comprou seu livro, o dia amanheceu cinzento e frio, com um denso nevoeiro junto ao solo que continuou impedindo os tiros de canhão, exceto alguns mais esporádicos.Quando a bruma se dissipou no final da manhã, a artilharia britânica salpicou o setor de 3,2 quilômetros do regimento com barragem de artilharia difusa,mirando nos postos de comando e espalhando estilhaços de bomba pelo Setor H. De seu "alojamento de descanso" em Fournes, Hitler teria ouvido o som abafado dos bombardeios ao longo do horizonte.
Como um Meldegänger, ou "mensageiro", designado para o quartel-general do regimento, Hitler costumava trabalhar em turno de revezamento: três dias na frente de combate e três descansando em Fournes.Dali,Hitler caminhava por uma estrada rural até a aldeia vizinha de Fromelles, onde se localizavam os postos de comando e de primeiros socorros da linha de frente, em meio aos prédios destruídos, e dali,por uma série de trincheiras de comunicação, para uma paisagem de pesadelo com campos cheios de crateras e aldeias em ruínas. Para facilitar os movimentos de tropas e ajudar a orientar os mensageiros, as aldeias francesas receberam nomes alemães.
Os nomes dos lugares refletiam a devastação: Knallhüte (Cabana Explodida), Backofen (Forno) e, em uma curva onde as trincheiras britânicas e alemãs quase se encontravam,Totes Schwein (Porco Morto). Uma aldeia foi batizada de Petzstadt por causa de Friedrich Petz, o comandante do regimento. No flanco esquerdo, limite entre o 16o. e o 17o. Regimentos de Infantaria de Reserva (RIR), uma fazenda arrasada havia sido apelidada de "Dachau", a pitoresca colônia de artistas ao norte de Munique que merecera duas estrelas nos guias Michelin da época,mas que adquiriria repercussão bem diferente nas décadas vindouras.
Embora as atribuições do Meldegänger costumassem ser triviais, o trabalho podia ser perigosíssimo. Quando o bombardeio destruía as linhas telefônicas,os mensageiros eram forçados a correr em meio aos estilhaços de bomba que voavam, enquanto a maioria dos soldados se encolhia nas casamatas subterrâneas. As mensagens deviam ter um código de prioridade - X para entrega normal, XX para maior importância, XXX para urgente -, mas os homens com frequência corriam riscos desnecessários."Repetidamente fui exposto ao fogo de artilharia pesada embora nada mais que um cartão-postal precisasse ser entregue", Hitler mais tarde recordou.No primeiro dia de combate na batalha de Wytschaete, no outono de 1914, a unidade de oito homens se viu reduzida à metade, com três homens mortos imediatamente e um ferido com gravidade. No outono de 1915,Hitler era o único membro original sobrevivente na unidade.
No início de outubro de 1915, durante uma batalha para desalojar as tropas britânicas de uma saliência conhecida como Hohenzollernwerk, os mensageiros receberam uma atribuição ainda mais perigosa quando foram pressionados a entregar braçadas de granadas ao front, à medida que os soldados da linha de frente iam expulsando os britânicos de suas trincheiras, metro após metro, à base de explosões, usando 1500 granadas de mão para limpar um trecho de 274 quilômetros de trincheiras e mais 2 mil para limpar outros 457 quilômetros. "A batalha pela Hohenzollernwerk demonstrou outra vez que a granada de mão é a arma mais terrível e eficaz para o combate cerrado", Petz informou após a batalha.
Em outubro, as chuvas paralisaram as ofensivas de outono, enquanto os soldados em ambos os lados da terra de ninguém passaram a lutar contra a lama, em vez de uns contra os outros. Entre os livros remanescentes de Hitler, encontrei a história de quinhentas páginas de seu regimento, Quatro anos da frente ocidental: História do Regimento List, RIR16; Memórias de um regimento alemão, primorosamente encadernada em couro marrom,em que a aflição e o desespero daquelas semanas estão vivamente preservados.
Quando a chuva incessante faz um rio transbordar, a água inunda as trincheiras do RIR 16 com consequências quase apocalípticas. "Duas das unidades de nossa companhia [...] foram pegas tão de surpresa pelo dilúvio que os homens na trincheira mal tiveram tempo de apanhar suas armas e equipamentos e abrigar-se no baluarte", registra a história do regimento."Eles permaneceram ali agachados, um atoleiro à sua frente e uma torrente enfurecida atrás,muitos expostos sem proteção à visão aberta do inimigo." Sua única salvação foi o fato de que os britânicos estavam igualmente ocupados tentando se salvar da enxurrada. A história do regimento calcula que,para cada soldado da linha de frente preparado para combater os britânicos, dez homens estavam batalhando contra o lodo.
O diário, agora no Arquivo de Guerra Bávaro em Munique, não apenas confirma a batalha desigual dos soldados da linha de frente contra as intempéries,mas também sua luta igualmente desigual com a tecnologia nas estações de bombeamento da linha de frente. Em 22 de novembro de 1915, o comandante do regimento registra um dia típico:


Bombas elétricas no Setor A 6-11 da noite falta de energia
11-11:30 da noite.Mangueira danificada
7:45 da manhã-12:30 da tarde falta de energia
No setor C 8-12 da manhã falta de energia


Nessas semanas ociosas devido à chuva, Hitler ficou aquartelado em Fournes, com atribuições apenas ocasionais. Em 21 de outubro, Petz despachou Hitler e outro mensageiro, Hans Lippert, à cidade de Valenciennes para requisitar um colchão novo. De acordo com a papeleta de requisição, Hitler e Lippert foram autorizados a pernoitar lá. Na viagem de volta, Hitler carregou o colchão por quase todo o caminho, já que Lippert era seu superior hierárquico.
Um mês e um dia depois, ainda ocioso devido às intempéries, Hitler foi andando até Fournes e adquiriu uma história arquitetônica de Berlim do célebre crítico Max Osborn.Apesar das trezentas páginas, Berlim, de Osborn,é um volume particularmente fino, pois coube com facilidade no bolso de um casaco de trincheira como se fosse a carteira de um turista cultural. Na capa verde-oliva impermeável, BERLIN está estampado em carmesim forte, complementado por um perfil do portão de Brandemburgo, cujas seis colunas dóricas são paralelas às letras precisamente espaçadas do título do livro. A certa altura naquele dia, Hitler retornou ao relativo conforto de seu alojamento na casa de fazenda de dois andares, abriu seu volume de capa dura e tomou posse do conteúdo com uma letra particularmente tímida, anotando seu nome, o local e a data no canto superior direito da contracapa, em um espaço não maior que o de um selo postal.
Oitenta anos depois,o livro de Osborn atesta o seu serviço na linha de frente.
Desgastados e escurecidos, os cantos se curvam para dentro como casca de limão seco.A lombada pende precariamente de tendões de linho desfiados, expondo os cadernos amarrados com fios. Uma mancha de lama oculta as letras finais de "novembro".Quando abri esse volume frágil na Sala de Leitura de Livros Raros da Biblioteca do Congresso,os sons abafados do tráfego matutino rompendo o silêncio,um arenito fino respingou de suas páginas.
[...]


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