Livro acessível
0
Carrinho
Títulos / Companhia das Letras / A ARTE DE PRODUZIR EFEITO SEM CAUSA
Companhia das Letras
A ARTE DE PRODUZIR EFEITO SEM CAUSA
Lourenço Mutarelli



Inventário


1

O metrô está vazio. Já passa das onze. Júnior carrega a expressão da desilusão e uma pequena mala. Respira com dificuldade pela boca. Seu rosto parece uma máscara. A máscara do desengano. Ou do engano? O maquinista ou uma gravação anuncia a próxima estação. Júnior nunca conseguiu descobrir quem anuncia as estações. Levanta com dificuldade e salta. Caminha de maneira letárgica, mecânica, como se algo o empurrasse, com esforço. Carrega uma pequena mala e quarenta e três anos mal-dormidos. As escadas rolantes já foram desligadas. Júnior escolhe a escada. A cada passo parece brotar um novo degrau. Júnior sobe metade da escadaria e desiste. Senta num degrau. Respira pela boca. Rapidamente surge um segurança e adverte que não é permitido sentar na escada. Júnior estende a mão. O homem, vestido de preto, o ajuda. Júnior termina a escalada com o auxílio do corrimão. Júnior se arrasta por uma rua deserta e mal iluminada. Três garotos surgem das sombras e caminham silenciosos atrás de seus passos. Disparam num repente, derrubando Júnior no meio-fio, e fogem levando a bagagem. Júnior caído na sarjeta, numa água empoçada, com o supercílio aberto. Júnior desata a chorar. Chora sem som e sem lágrima.
0270100424. Diodo negativo. Como se nada tivesse acontecido,
Júnior se levanta e segue. Na mesma rua, trezentos metros à frente, aperta um interfone preso no portão de um prédio.
- Quem?
- Seu José do 51.
- Quem devo anunciar?
- Júnior.
- Nuno?
- Júnior.
- Nuno?
- Não! Júnior!
- Bruno?
- Júnior! - Aguarda um momento.
- Nuno - resmunga com indignação. - Nuno. - Limpa o supercílio com a manga da camisa. Camisa de manga curta.
- O seu José disse que não conhece nenhum Nuno. O senhor espera que ele vai descer.
Júnior espera. Seu pai desce e o avista. Manda abrir o portão.
- É meu filho, porra!
- Foi o senhor que disse que não conhecia ele.
- Você falou Nuno. Nuno eu não conheço mesmo.
- Mas foi ele que falou que era Nuno.
O pai abraça o filho e percebe as roupas molhadas, o rosto que sangra. Não parece perturbado com o estado do filho. Ampara o primogênito até o elevador. Curiosamente não há câmera. Não é preciso sorrir. Descem no quinto. O pai é um homem forte, bronzeado e bem barbeado. Dá uns tapas nas costas do filho como se quisesse reanimá-lo ou ressuscitá-lo.
- Entra.
Ele entra.
- O que foi isso aí? Por que está todo molhado?
- Fui assaltado. Levaram minha mala e me jogaram no chão.
- Pensei que tivesse se metido em briga. Esses punguistas...
- Eu bobeei.
- Tinha algo de valor, algo importante?
- Eu não sei. Não fui eu quem fez a mala.
- Que merda, hein, filho? Então foi ela quem te botou pra fora. Que sinuca. Pra ela ter te botado pra fora, você deve ter aprontado alguma.
Júnior não responde. A única coisa que determina a idade do velho são certas expressões antiquadas.
- Vai tomar um banho, eu te arrumo um pijama. Não pode ficar assim molhado ou vai pegar uma pneumonia.
Júnior segue para o banheiro.
- Vai que eu vou pegar a toalha e a gilete. Não deve ficar com a barba assim por fazer. Isso te dá um aspecto de fracasso.
O importante é não demonstrar o fracasso. Júnior entra no pequeno banheiro de azulejos cor-de-rosa. Tranca a porta e se despe, deixando as roupas caídas no chão. O pai grita instruções do outro lado.
- Abre só um tiquinho o chuveiro e espera a água esquentar, depois você ajusta a temperatura, mas tem que esperar a água sair pelando. A toalha e o pijama vou colocar aqui num banquinho. Vê se não sai pelado, não se esqueça da moça.
Júnior não responde. Não consegue aquecer a água, acaba tomando banho frio. O cheiro do sabonete lhe traz a infância. O pai ainda usa Phebo odor de rosas. Isso o faz lembrar de Caio, seu filho. Um garoto de treze anos, rebelde como todos os de sua geração. Ele fica preocupado porque sabe que o filho toma banho e sai do banheiro sem blusa e descalço e agora não vai ter ninguém para alertá-lo. Essa lembrança desencadeia outra: Thiago, o melhor amigo do filho.
- Já comeu?
- Comi.
- Comeu, nada. Vou fazer uns ovos mexidos.
Júnior se seca com uma toalha que cheira a naftalina. Veste um pijama listrado. Penteia os cabelos e vai para a cozinha.
- Senta.
Júnior senta.
- No espelho da pia tem band-aid, pega lá que eu dou um ponto-falso nesse corte.
Por que ele mandou sentar e em seguida me manda buscar o band-aid no banheiro? Para ver se continuo adestrado? Isso é o que Júnior parece ter pensado, a julgar por seu olhar. Assusta-se quando ouve a porta da sala se abrindo.
- É a moça. Bruna, venha comer uns ovos mexidos.
Bruna entra cheia de cadernos e livros. Bruna é jovem, pálida e muito bonita. Usa óculos pretos e retangulares com grossas hastes de plástico.
- Oi.
- Oi.
- Esse é meu filho, Bruna.
- Oi.
- Oi.
- Ele vai ficar uns tempos aqui com a gente. Tá com fome?
- Não. Eu comi na facul. Vou pro meu quarto.
Júnior procura disfarçar a impressão que a moça causou. Sua beleza, sua jovialidade o desconcertam. Com ajuda de uma colher de pau, José despeja os ovos no prato do filho. Abre um saco pardo e tira um pãozinho. Acomoda um copo ao lado do prato e pega o saco de leite da geladeira.
- Vou te fazer companhia.
Júnior come de cabeça baixa.
- Foi hoje?
- O quê?
- Que ela te botou pra fora?
- Não. Foi ontem.
- O que foi que você aprontou? É mulher?
- Eu perdi o emprego.
- Caramba! Puta que la merda!
Júnior não perdeu o emprego. Júnior abandonou o posto.
- É assim. A desgraça é assim. Vem tudo de uma vez.
Júnior come. Já não há expressão alguma em seu rosto.
- Deve ser só uma crise. Você sabe que eu e a Márcia nunca nos bicamos, mas tem o Caio... Ele precisa de você.
- Ninguém precisa de mim, pai.
- Não baixa a guarda, não, filho.
Júnior balança a cabeça.
- Olha, filho, eu não quero saber o que aconteceu com vocês, mas, se quiser conversar, estarei por aqui. Casamento não é fácil. Eu e sua mãe só não nos separamos porque os tempos eram outros.
- Você pôs sal no ovo?
- Claro. Quer mais sal?
- Por favor.
- Você sabe que não se deve abusar do sal. Sênior passa um saleiro encardido. Dentro, em meio ao sal, há grãos de arroz mais encardidos ainda.
- Você deve estar chateado, ainda mais por ter perdido o emprego, mas eu te garanto que essa é só uma fase.
Júnior balança a cabeça.
- Eu conheço um monte de gente, logo você vai estar empregado de novo.
Júnior come de cabeça baixa.
- Vou separar um jogo de cama. Só não tem travesseiro, mas você pega uma almofada.
- Não se preocupe, pai.
- Come tudo, hein? Você precisa de energia.
Júnior ameaça dizer algo, mas desiste.
- Que foi?
- Nada.
- Você ia falar alguma coisa.
- O Caio disse que tem vergonha de mim.
- É assim mesmo. Na idade dele você também tinha vergonha da gente.
- Nunca tive vergonha do senhor, pai, nunca.
- O Caio é um adolescente, isso passa. Ele tem o gênio da mãe.
Júnior come de cabeça baixa.
- Vou ajeitar sua cama. Você precisa repousar. Comer bem e descansar, é isso que você precisa agora. Você vai ver, é só uma fase. Você não consegue ver isso porque está de cabeça quente. Espera a poeira baixar.
A cama de Júnior é o sofá da sala.
0261210030. Sensor de rotação. O apartamento é pequeno. Um amplo, mas nem tanto, quarto com opção para dois. É o que a maioria faz, divide. Põe uma divisória de madeira. Sênior foi mais inteligente: aproveitou a divisória como fundo de um armário embutido. A outra parte do quarto ele aluga. No momento, para Bruna. Há uma faculdade de artes na própria rua e isso traz jovens moças vindas do interior, desesperadas por um lugar na cidade.
O sofá é pequeno e malcheiroso. Guarda ainda a presença de Laika, a vira-lata que morreu de câncer faz mais de sete anos mas deixou vestígios em forma de nódoas. Deixou suas marcas. Talvez mijasse no sofá para que muito tempo depois Júnior não pudesse esquecê-la. Eu estive aqui, eu existi, dizia o mijo. Os lençóis cheiram a naftalina, a almofada foi impermeabilizada por uma camada de gordura humana. Sênior vai para o quarto, já passa da meia-noite.
- Boa noite, filho.
- Boa noite.
- Dorme com Deus.
Um bêbado grita na rua. Sirenes e buzinas. Um alarme anuncia que o veículo está sendo roubado e pede que liguem para um zero-oitocentos.

Grupo Companhia das Letras

Editora Schwarcz S.A. - São Paulo
Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32
04532-002 - São Paulo - SP
Telefone: 11 3707-3500
Fax: 11 3707-3501
Editora Schwarcz S.A. - Rio de Janeiro
Praça Floriano, 19, sala 3001
20031-050 - Rio de Janeiro - RJ
Telefone: 21 3993-7510
Todos os direitos reservados 2019