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Companhia das Letras
ANARQUISTAS, GRAÇAS A DEUS
Zélia Gattai



ALAMEDA SANTOS NÚMERO 8


Num casarão antigo, situado na alameda Santos número 8, nasci, cresci e passei parte de minha adolescência.
Ernesto Gattai, meu pai, alugara a casa por volta de 1910, casa espaçosa, porém desprovida de conforto. Teve muita sorte de encontrá-la, era exatamente o que procurava: residência ampla para a família em crescimento e, o mais importante, o fundamental, o que sobretudo lhe convinha era o enorme barracão ao lado, uma velha cocheira, ligada à casa, com entrada para duas ruas: alameda Santos e rua da Consolação. Ali instalaria sua primeira oficina mecânica. Impossível melhor localização!
Para quem vem do centro da cidade, a alameda Santos é a primeira rua paralela à avenida Paulista, onde residiam, na época, os ricaços, os graúdos, na maioria novos-ricos.
Da praça Olavo Bilac até o largo do Paraíso, era aquele desparrame de ostentação! Palacetes rodeados de parques e jardins, construídos, em geral, de acordo com a nacionalidade do proprietário: os de estilo mourisco, em sua maioria, pertenciam a árabes, claro! Os de varandas de altas colunas, que imitavam os palazzos romanos antigos, denunciavam - logicamente - moradores italianos. Não era, pois, difícil, pela fachada da casa, identificar a nacionalidade do dono.
O proprietário do imóvel que meu pai alugou era um velho italiano, do sul da Itália, Rocco Andretta, conhecido por seu Roque e ainda, para os mais íntimos, por tzi Ró (tio Roque). Dono de uma frota de carroças e burros para transportes em geral, fora intimado pela prefeitura a retirar seus animais dali; aquele bairro tornava-se elegante, já não comportava cocheiras e moscas. O velho Rocco fizera imposições ao candidato: reforma e limpeza do barracão, pinturas e consertos da casa por conta do inquilino.
Dona Angelina, minha mãe, assustou-se: gastariam muito dinheiro, um verdadeiro absurdo! Onde já se vira uma coisa daquelas? Velho explorador! Por que o marido não comprava um terreno em vez de gastar as magras economias em reformas de casa alheia? E o aluguel? Uma exorbitância! Como arranjar tanto dinheiro todos os meses? Onde? Como? Mas ela sabia que não adiantava discutir com o marido. Considerava-o teimoso e atrevido.
O vocabulário de dona Angelina era reduzido - tanto em português como em italiano, sua língua natal -, não sabia expressar-se corretamente; por isso deixava de empregar, muitas vezes, a palavra justa, adequada para cada situação. Usava o termo "atrevimento" para tudo: coragem, audácia, heroísmo, destemor, obstinação, irresponsabilidade e atrevimento mesmo. Somente conhecendo-a bem se poderia interpretar seu pensamento, saber de sua intenção, se elogiava ou ofendia. No caso da reforma em casa alheia, não havia a menor dúvida, ela queria mesmo desabafar, chamar o marido de irresponsável: "Um atrevido é o que ele é!", disse e repetiu.


O ATREVIDO COMPRA UM CARRO MOTOBLOC

Havia pouco, quando da compra do Motobloc, mamãe não lutara também? Emburrara, discutira. Adiantara alguma coisa? Tinha três filhos para sustentar, como ia comprar um carro amassado? Papai não se abalou com os argumentos da mulher, com seus emburros, não lhe deu atenção, não era louco de perder aquela oportunidade única.
O proprietário do Motobloc em questão andava desacorçoado, às voltas com as complicações do automóvel - comprado num momento de animação e insensatez - que ele não conseguia manejar. Não acertava a virar a manivela e já levara um contragolpe que quase lhe fraturara o braço. De outra feita, ficara encalhado, em plena escuridão da noite, mulher e filhos a tremer de medo e de frio naquele carro aberto, os faróis apagados por falta de carbureto, ele sem saber que rumo dar, quais as providências a tomar, nada entendendo do assunto. Seu desgosto culminou ao bater contra uma árvore. Atrapalhara-se na direção, não conseguira dominar nenhum dos dois travões, duros e emperrados; o choque fora inevitável. Quanto iria pagar pelo estrago? Sentiu-se aliviado quando o mecânico lhe propôs comprar o automóvel rebentado. Nem pensou em discutir preço, queria livrar-se daquele pesadelo. Vendeu-o por alguns vinténs e sentiu-se feliz. Mais feliz ainda ficou o habilidoso comprador, que, num abrir e fechar de olhos, botou o carro tinindo, novo, travões devidamente engraxados, aptos a brecar a máquina em qualquer emergência, as correntes de transmissão das rodas traseiras também deslizando de fazer gosto.
A paixão de seu Ernesto por automóveis começou quando seu pai, de sociedade com alguns amigos, importou da França um Dedion Boutton, o primeiro carro dessa marca a rodar nas ruas de São Paulo. Automóvel de três rodas, motor debaixo do assento. A regulagem da máquina era feita nas ladeiras: se subisse com três pessoas, estava em ordem.
Outros automóveis foram aparecendo, papai sempre a pardas novas marcas e dos novos tipos, procurando compreender e dissecar os estranhos motores a explosão, penetrar em seus mistérios.


A ORIGEM DOS TEMORES DE DONA ANGELINA

Os temores de dona Angelina tinham uma explicação: sempre levara uma vida de apertos; casara-se muito jovem, quase uma criança, apenas completara quinze anos e o noivo dezoito. O salário do inexperiente marido, empregado na oficina de seu pai, na rua Barão de Itapetininga (oficina de consertos de bicicletas, armas de fogo, máquinas de costura etc.), não era suficiente para o sustento da casa. Embora contra a vontade ele permitiu que sua mulher, após o casamento, continuasse na fábrica de tecidos, no Brás, onde trabalhava desde a idade de nove anos, ajudando nas despesas do lar paterno. Mesmo assim, com os dois parcos ordenados, levavam vida de sacrifícios.
Com os dois reduzidos salários viviam três pessoas, pois tia Dina, irmã mais nova de papai, passaria a morar com os recém-casados. órfã de mãe desde pequena, Dina aprendera a ter responsabilidades, esperta como ela só, cozinhando e cuidando da casa. Mamãe não poderia desejar coisa melhor, pois de arrumações não entendia nada e muito menos de cozinha.
Menina de doze anos, tia Dina era tão miúda que, para alcançar as panelas no fogão, necessitava subir num caixote. Emtroca exigia da cunhada que lhe contasse histórias: "Ou conta histórias ou não cozinho...". Mamãe se sujeitava com grande prazer à chantagem da cunhadinha. Mil vezes contar, inventar histórias do que se acabar no fogão e no maçante serviço da casa.
Dois anos depois nasceu-lhe Remo, o primeiro filho. Teve que abandonar a fábrica. Os ganhos diminuíram, aumentaram as despesas e as restrições aumentaram mais ainda.


MOTORISTA DIPLOMADO

A essa altura, papai já andava às voltas com automóveis, procurando mudar de vida.
Dirigiu um requerimento ao dr. Rudge Ramos, prefeito do município de São Paulo, solicitando um exame para a obtenção de um alvará de licença a fim de tornar-se um "conductor de carro automóvel".
Sua carta de "conductor" de automóvel lhe foi liberada pela Inspetoria de Viação Municipal, a 4 de abril de 1907. Carta registrada na página número 8 do livro número 1, de São Paulo.
Os jornais anunciavam a chegada de luxuoso carro, importado pela família Prado. Necessitavam de chofer competente.
Documento em punho, o jovem candidato ao cargo dirigiu-se para o elegante bairro de Higienópolis, esse sim, bairro dos ricos autênticos, com tradição e fidalguia. Bateu à porta da mansão dos Martinho Prado.
Passou no teste: devidamente habilitado, boa aparência, educado.
Fardado de branco, perneiras pretas reluzentes de graxa e escova, luvas brancas e boné, trabalhou seu Ernesto durantedois anos para a família Prado. Ocupava com a mulher e o filho um apartamento sobre a garagem, no jardim do palacete.
Todas as manhãs, bem cedo, sua primeira tarefa era lavar o espetacular automóvel preto e pintar de branco as faixas de suas rodas.
Remo era um ano mais novo que Caíto (Caio Prado Júnior, bisneto de dona Veridiana da Silva Prado, a patroa). Caíto, menino desenvolvido e forte, crescia rapidamente, perdendo também rapidamente as finas roupinhas, muitas vezes herdadas pelo filho do chofer.
Durante os anos que moraram em Higienópolis, conseguiram economizar algum dinheiro. Os gastos eram poucos, o ordenado bom.
Mas seu Ernesto não nascera para servir a patrões. Não era homem para andar de luvas, empertigar-se ao abrir portas de carros, permanecer imóvel como estátua enquanto os patrões subissem ou descessem do automóvel, receber ordens.
Positivamente não nascera para aquilo, aguentara demais. Deu um basta, deixou o emprego.
Levou alguns anos às voltas com automóveis, atendendo chamados, consertando aqui, quebrando a cabeça ali, às vezes ganhando muito, às vezes levando calote, sem pouso certo. Três filhos já haviam nascido, outros mais viriam. Era necessário estabilizar a vida, procuraria um barracão, abriria uma oficina mecânica.


OS MURAIS DE SEU ROQUE

Assinou o contrato com Rocco Andretta, assumiu todos os compromissos. Tinha o suficiente para começar vida nova. Agora era pôr mãos à obra, tocar o barco sem temor.
Havia ainda duas exigências do proprietário do imóvel: além do encargo da reforma do barracão e da pintura da casa, o inquilino devia conservar no telhado do barracão o cavalinho de alvenaria - escultura de cerca de um metro de altura - sobre um pedestal, peça de estimação do velho, seu orgulho, símbolo da cocheira desde o seu início.
- E se eu o substituir agora por um automóvel? - pilheriou papai.
Rocco Andretta não gostou da brincadeira, que não bulissem no cavalinho, coisa sagrada para ele.
Segunda exigência: manter os murais pintados no terraço lateral da casa, paisagens pintadas, havia tempos, pelo mestre Joaquim (Jaquina, no falar enrolado de seu Roque), mulato acaboclado, de meia-idade, um gigante, bom nos pincéis e nas tintas, dono de uma paciência infinita.
Nesse terraço havia duas portas e duas janelas e, entre cada uma delas, uma paisagem diferente.
Quem assistiu, contou: Rocco, munido de vários cartões-postais, compusera a paisagem dirigindo o artista na homenagem à terra distante - havia quantos anos saíra de Nápoles? Já perdera a conta. Escolheu a parte mais espaçosa da parede, a mais vista da rua, para ali colocar o Vesúvio, fumaça e labaredas evolando-se da cratera, céu azul, grandes pássaros - que, na interpretação nacionalista de Joaquim, viraram coloridos papagaios, araras e tucanos - voando e, embaixo, na base, algumas carrocinhas carregadas de verduras e frutas, outras de tijolos e materiais de construção, puxadas a burros. As carrocinhas e os burros estavam presentes em todas as paisagens. Quem sabe, no fundo, talvez fizessem parte da propaganda de sua "frota" de transportes. Com a mudança da cocheira para longe, seu Roque, pai de numerosa família, passou a responsabilidade da empresa aos filhos mais velhos, aposentou-se. Residindo na mesma rua, sua preocupação única, daí por diante, foi a de vigiar nossa casa, ou melhor dito, a pintura dos murais, a menina de seus olhos. Estavam descorando? Mãos à obra! Lá vinha o fiel vigilante do capolavoro arrastando atrás de si o cansado Joaquim que mal podia carregar a pesada escada de madeira e as latas de tintas.
Empoleirado no alto dos degraus, a postos, Joaquim aguardava as ordens do mestre:
- Carca essa fumaça no Vesúvio, Jaquina! Põe mais vermelho na boca do vurcão. Capricha na vampa! Questo é o mais grande e più belo vurcão du mondo! - ria orgulhoso.
O pintor também sorria. Conhecia demais o velho, havia tantos anos que lhe fazia as vontades, sem esperar grandes recompensas.
- Jaquina é uno artista! - bajulava o matreiro tzi Ró.
Eu adorava assistir aos trabalhos da restauração da obra de arte. Passava horas a fio, divertindo-me.


MAMÃE VENCE A BATALHA

Certa manhã, portão adentro, apareceu Rocco Andretta munido de enorme serrote.
- Quais são as novidades, tzi Ró? - perguntou-lhe mamãe, gentil.
- As novidade? As novidade é que esta árvore vai dar o fora daí.
Retirando o paletó, arregaçando as mangas da camisa, o velho mostrava-se disposto a começar o trabalho.
Mamãe se alarmou:
- Que é isso, seu Roque? Não estou entendendo nada! O senhor está querendo serrar nossa árvore? Como?
A árvore em questão era uma goiabeira, plantada por mamãe ao lado do terraço, crescendo de dar gosto, viçosa, seus primeiros frutos a amadurecer.
- É. É isso mesmo! Questa árvore vai cair fora daqui - repetiu, insolente.
Apanhou o serrote que havia largado no chão, disposto a não dar mais satisfações.
- Me desculpe, seu Roque - gritou-lhe mamãe, com toda a energia -, o senhor não vai serrar a goiabeira coisíssima nenhuma! Que mal esta planta lhe faz? Que mal ela faz à sua casa? Me responda, por favor!
- Como que mal? - respondeu Rocco bufando. - E as paisagem? Questa árvore aí esconde o meu vurcão... daqui a poco ninguém vai vê mais nada da rua! Arranco logo questa porcaria! - Estava apoplético diante da barreira encontrada, da afronta da inquilina a querer lhe embargar os passos; a língua cada vez mais enrolada, misturando napolitano com português.
O bate-boca esquentou: corta, não corta... chegou papai vindo da garagem, atraído pela discussão, limpando as mãos sujas de graxa numa estopa; que berreiro era aquele? De um lado Rocco de serrote em punho querendo serrar, de outro mamãe, encostada ao tronco da goiabeira em atitude heroica de defesa à vítima. Ao inteirar-se do assunto, voz serena e firme, cara fechada, em poucas palavras seu Ernesto liquidou a questão:
- Rocco Andretta - começou, duro -, enquanto eu pagar o aluguel desta casa, faço nela o que quiser e bem entender. Aqui quem manda sou eu, não me venha mais com prepotências, porque aqui o senhor não corta árvore nenhuma. Aqui, não! - Deu as costas, voltou para o seu trabalho.
Numa tentativa de desfazer o clima desagradável, mamãe ainda quis argumentar e, delicadamente, disse:
- Se o senhor tem amor às suas pinturas, tzi Ró, eu tenho amor às minhas plantas, não acha?
Tzi Ró não achava nada. Nem quis ouvir o que ela dizia.
Furioso com a derrota, tornou a vestir o paletó, apanhou o serrote e saiu resmungando frases que ninguém entendeu. Desde então desinteressou-se dos murais. Aos poucos eles foram desaparecendo, nunca mais vimos Jaquina e, um belo dia, papai mandou pintar as paredes de amarelo.
O cavalo de alvenaria permaneceu em seu pedestal até o fim. Esse cavalo foi o orgulho de minha infância. Eu era a única menina na rua a morar numa casa com um cavalinho no topo da cumeeira. Minha esperança era montá-lo um dia, como faziam meu irmão Tito e seus camaradas que, burlando a vigilância dos mais velhos, escalavam o altíssimo telhado, partindo telhas, arriscando a vida.
[...]