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Companhia das Letras
AS MENINAS
Lygia Fagundes Telles



1

Sentei na cama. Era cedo para tomar banho. Tombei para trás, abracei o travesseiro e pensei em M.N., a melhor coisa do mundo não é beber água de coco verde e depois mijar no mar, o tio da Lião disse isso mas ele não sabe, a melhor coisa mesmo é ficar imaginando o que M.N. vai dizer e fazer quando cair meu último véu. O último véu! escreveria Lião, ela fica sublime quando escreve, começou o romance dizendo que em dezembro a cidade cheira a pêssego. Imagine, pêssego. Dezembro é tempo de pêssego, está certo, às vezes a gente encontra as carroças de frutas nas esquinas com o cheiro de pomar em redor mas concluir daí que a cidade inteira fica perfumada, já é sublimar demais. Dedicou a história a Guevara com um pensamento importantíssimo sobre a vida e a morte, tudo em latim. Imagine se entra latim no esquema guevariano. Ou entra? E se ele gostava de latim. Eu não gosto? Nas horas nobres deitava no chão, cruzava as mãos debaixo da cabeça e ficava olhando as nuvens e latinando, a morte combina muito com latim, não tem coisa que combine tanto com latim como a morte. Mas aceitar que esta cidade cheira a pêssego, exorbita. ¿Qué ciudad será esa? ele perguntaria na maior perplexidade. ¿Tercer Mundo? Terceiro Mundo. ¿Y huele a durazno? Na opinião de Lia de Melo Schultz, cheira. Ele então fecharia os olhos onde eram os olhos e sorriria um sorriso onde era a boca. Estoy bien listo con esas mis discípulas. Enfim, problema dela, o meu é M.N. nu em pelo, muito mais em pelo do que eu, ele é peludo à beça, assim na base do macaco. Mas um macaco lindo, a cara tão intelectual, tão rara, o olho direito um pouco menor do que o esquerdo e tão triste, todo um lado da sua cara é infinitamente mais triste do que o outro. Infinitamente. Eu poderia ficar repetindo infinitamente infinitamente. Uma simples palavra que se estende por rios, montes, vales infinitamente compridos como os braços de Deus. As palavras. Os gestos se renovando como a pele da cobra rompendo lisa sob a pele velha. E não é viscosa, toquei nela na fazenda, era verde e espessa mas não viscosa. O gesto de M.N. também novo, não é verdade que tudo será como das outras vezes, ele virá de pele limpa, inventando o inventado nas suas minúcias. Se Deus está no pormenor, o gozo mais agudo também está na miudeza, ouviu isto, M.N.? Ana Clara contou que tinha um namorado que endoidava quando ela tirava os cílios postiços, a cena do biquíni não tinha a menor importância mas assim que começava a tirar os cílios, era a glória. Os olhos nus. Em verdade vos digo que chegará o dia em que a nudez dos olhos será mais excitante do que a do sexo. Pura convenção achar o sexo obsceno. E a boca? Inquietante a boca mordendo, mastigando, mordendo. Mordendo um pêssego, lembra? Se eu escrevesse começaria uma história com esse nome, "O Homem do Pêssego". Assisti de uma esquina enquanto tomava um copo de leite: um homem completamente banal com um pêssego na mão. Fiquei olhando o pêssego maduro que ele rodava e apalpava entre os dedos, fechando um pouco os olhos como se quisesse decorar-lhe o contorno. Tinha traços duros e a barba por fazer acentuava seus vincos como riscos de carvão mastoda a dureza se diluía quando cheirava o pêssego. Fiquei fascinada. Alisou a penugem da casca com os lábios e com os lábios ainda foi percorrendo toda sua superfície como fizera com as pontas dos dedos. As narinas dilatadas, os olhos estrábicos. Eu queria que tudo acabasse de uma vez mas ele parecia não ter nenhuma pressa: com raiva quase, esfregou o pêssego no queixo enquanto com a ponta da língua, rodando-o nos dedos, procurou o bico. Achou? Eu estava encarapitada no balcão do café mas via como num telescópio: achou o bico rosado e começou a acariciá-lo com a ponta da língua num movimento circular, intenso. Pude ver que a ponta da língua era do mesmo rosado do bico do pêssego, pude ver que passou a lambê-lo com uma expressão que já era sofrimento. Quando abriu o bocão e deu o bote, que fez espirrar longe o sumo, quase engasguei no meu leite. Ainda me contraio inteira quando lembro, oh, Lorena Vaz Leme, não tem vergonha?
"Não", diz em voz alta o Anjo Sedutor. Acendo depressa um tablete de incenso, oh, mente pervertida. Queria ser santa. Pura como esse perfume de rosas que se enrola em mim e me dá sono. Astronauta também sentia sono quando eu acendia o incenso. E se espreguiçava como me espreguiço, foi com ele que aprendi a me espreguiçar. Gato à toa, por onde você anda. Hein? Dava aulas diárias de preguiça e luxúria mas nunca repetia os movimentos, todo bailarino devia ter um gato. A astúcia. Ao mesmo tempo, o abandono. O desprezo pelas coisas realmente desprezíveis. E aquele cálculo e fixação. Todo feito de delicadezas perigosas o meu gato. Ou Demônio? Nas pausas das lições ficava me olhando, tão mais consciente do que eu na minha inconsciência, como é que eu podia saber? Ainda nem conhecia M.N., não ficava horas e horas minhocando como tenho minhocado, ai meu Pai. Só Jesus compreende e perdoa, só Ele que já curtiu como nós, Jesus, Jesus, como eu te amo! Vou pôr um disco em sua homenagem, espera, ofereço música assim como Abel oferecia ovelhas, é lógico que ovelha é muito mais importante mas Jesus sabe que tenho horror de sangue, minhas oferendas só podem ser musicais. Jimi Hendrix? Escuta, meu amado, escuta esta última musiquinha que ele fez antes de morrer, morreu drogado o pobrezinho, todos eles morrem drogados, mas ouça e sei que você vai baixar a mão até sua carapinha cheia de suor e poeira, dear Jimi!
Num salto elástico, Lorena se atirou na cama de ferro dourado, da cor do papel da parede. Ensaiou alguns passos de dança, levantou a perna até tocar com o pé descalço na barra de ferro e saltou para cair na estreita listra azul do tapete de juta. Aprumou-se, sacudiu a cabeleira para trás e olhando em frente foi se equilibrando na listra até chegar ao toca-discos.
- Jimi, Jimi, onde você está? - perguntou ela examinando a pilha dos discos na prateleira da estante. Vestia um leve pijama branco com florinhas amarelas e tinha no pescoço uma corrente com um coraçãozinho de ouro. Segurou o disco nas pontas dos dedos. - E você, Rômulo? Onde agora?
Apertou os olhos úmidos e colocou o disco no prato. Mansamente levantou a agulha e a conduziu como o bico de um pássaro cego até a vasilha d'água. Deixou-a tombar.


- Lorena!
A voz vinha do jardim. Rapidamente ela arrepanhou a cabeleira, torceu-a na nuca e pôs-se nas pontas dos pés. Abriu os braços. Foi andando na listra em caracol do tapete, tensa como uma equilibrista num fio de arame.
- Lorena, bota a cabeça na janela, quero falar com você!
Ela vacilou perigosamente, o pé direito plantado na listra, o esquerdo em suspenso no ar. Descontraiu-se quando conseguiu pousar o esquerdo na frente do outro sem perder o equilíbrio: chegara ao fm da travessia. Inclinou-se para os lados numa profunda reverência, os braços em arco para trás, as mãos se tocando como pontas de asas entreabertas. Agradeceu recuando um pouco, o sorriso modesto posto no chão. Mas empolgou-se ao colher uma for no ar, beijou-a,atirou-a triunfante para as galerias e voltou rodopiando à janela. Acenou para a jovem que esperava de braços cruzados no meio da alameda. Levou as mãos ao lado esquerdo do peito e suspirou com ênfase:
- Minha amada, seja bem-vinda. Veja que dia! É primavera, Lião, primavera. Vera, é verdade, prima naturalmente primeira, a verdade primeira. Hum? Numa manhã assim tenho que me segurar senão saio voando, olha as margaridinhas, abriram todas! - apontou o canteiro embaixo da janela. - Coisa mais joia. Bom dia, minhas margaridinhas!
- Lorena, será que você podia me dar um pouco de atenção?
- Fala, Lia de Melo Schultz, fala.
Com um movimento brusco, Lia puxou as grossas meias brancas até os joelhos. A sacola de couro resvalou para o chão mas ela se concentrava nas meias, atenta como se esperasse vê-las escorregar em seguida. Apanhou a sacola.
- Será que amanhã sua mãe podia me emprestar o carro? Depois do jantar. Digamos às nove, entende?
Lorena debruçou-se na janela. Sorriu.
- Suas meias estão caindo.
- Ou enforcam os joelhos ou ficam desabando. Olha aí. No começo, este elástico apertava de deixar a perna roxa.
- Mas que ideia, querida, usar meia com este calor. E sapatões de alpinista, por que não calçou a sandália? Aquela marrom combina com a sacola.
- Hoje tenho que camelar o dia inteiro, putz. E sem meia dá bolha no pé.
Provavelmente nas solas. Cafonérrimo. Pior do que bolhas só os tais joanetes da Irmã Bula. Joanete deve vir de Joana, houve uma antiga Joana com os primeiros pés deformados e os netos herdaram a deformação e viraram os joanetos. Ai meu Pai. Primavera, eu apaixonada e Lião falando em bolha no pé.
- Tenho umas meias tão bacanas, ainda nem usei, quer ir com elas?
- Só se forem francesas, entende?
- São suíças, minha queridinha.
- Não gosto da Suíça, é limpa demais.
E nem vão servir, imagine, ela deve calçar quarenta. Que ideia usar meias que engrossam os tornozelos, a coitadinha está com patas de elefante. Ainda assim, emagreceu, subversão emagrece.
- Lião, Lião, ando tão apaixonada. Se M.N. não telefonar, me mato.


Estou demais aperreada para ficar ouvindo sentimentos lorenenses, ô! Miguel, como preciso de você. Falo baixo mas devo estar botando fogo pelo nariz.
- Lena, escuta, eu não estou brincando.
- E eu estou? Por que essa pressa? Suba, venha ouvir o último disco de Jimi Hendrix, faço um chá, tenho uns biscoitos maravilhosos.
- Ingleses? - pergunto. - Prefro nossos biscoitos e nossa música. Chega de colonialismo cultural.
- Mas nossa música não me comove, querida. Se os seus baianos dizem que estão desesperados, acredito, acho ótimo. Mas se vem John Lennon e diz a mesma coisa, então vibro, fico mística. Sou mística.
- Você é fresca.
- Fresca, Lião? Você disse fresca - repete ela.
Debruçou-se mais na janela e em meio do riso envesgou, botou a língua pra fora e colou os polegares na cabeça. Abanou as mãos como orelhas, ah! , é preciso ter saco para aguentar essa menina.
- Loreninha, é sério. Preciso do carro amanhã - digo.
Não me ouviu. Ficou de repente angelical, enquanto acenava para alguém do casarão, Madre Alix? Madre Alix que abriu a janela e correspondeu ao cumprimento, a mão erguida no estilo da rainha da Inglaterra. Mas assim que a freira foi embora, fez a careta maior, a que costuma reservar para o fim. Ô, Miguel, "segure as pontas", você disse. É o que procuro fazer. Mas às vezes fico oca, está vendo? Não sei explicar mas é duro demais cumprir a rotina, queria ser presa, ficar no seu lugar, por que não fui presa em seu lugar? Queria morrer.
- A Faculdade ainda está em greve - gemeu Lorena bocejando. Apontou para minha sacola: - Que é que você tem aí? Metralhadora?
Aprumou-se como se manejasse uma, o olho cerrado na mira, os ombros sacudidos pela descarga, "teque-teque-te-que-teque-teque". Apontou para o casarão, "teque-teque-teque". Descarregou em Irmã Bula que fingiu brincar com a Gata mas está atenta em nós. Estou sorrindo porque sei que é exatamente assim que Miguel reagiria.
- Loreninha, não começa, não gosto dessa brincadeira. Vai pedir o carro? Devolvo no dia seguinte, como da outra vez. Não tem problema.
- Vocês deviam sequestrar o M.N., Lião. Por que é que não sequestram o M.N.? Ele fcaria escondidinho debaixo da minha cama per omnia saecula saeculorum. Amen.
Acendo um cigarro. Que me importa dormir no meio dos bêbados, das putas, o cigarro aceso no meu peito, dói sim, mas se soubesse que você está livre, dormindo na estrada ou debaixo da ponte. Mas livre. Não sei aguentar sofrimento dos outros, entende? O seu sofrimento, Miguel. O meu aguentaria bem, sou dura. Mas se penso em você fico uma droga, quero chorar. Morrer. E estamos morrendo. Dessa ou de outra maneira não estamos morrendo? Nunca o povo esteve tão longe de nós, não quer nem saber. E se souber ainda fica com raiva, o povo tem medo, ah! como o povo tem medo. A burguesia aí toda esplendorosa. Nunca os ricos foram tão ricos, podem fazer as casas com as maçanetas de ouro, não só os talheres mas as maçanetas das portas. As torneiras dos banheiros. Tudo de puro ouro como o gângster grego ensinou na sua ilha. Intactos. Assistindo da janela e achando graça. Resta a massa dos delinquentes urbanos.
Dos neuróticos urbanos. E a meia dúzia de intelectuais. Os simpáticos simpatizantes. Não sei explicar mas tenho mais nojo de intelectual do que de tira. Esse ao menos não usa máscara, ô Miguel! Precisava tanto de você hoje, esta vontade de chorar, lá sei. Mas não choro. Não tenho lenço, Lorena não acharia fino limpar meu nariz na fralda da camisa.
- Lorena, me empresta um lenço, estou resfriada - digo e tenho vontade de esfregar esta cara molhada de lágrimas. Mas que lenço? Não quero lenço, quero o carro. - Quero o carro, Lorena. Posso contar com você?
- Tenho branco, rosa, azul e verde-malva. Ah, e um turquesa, olha que lindo este turquesa. Então, Lia de Melo Schultz, que cor a senhora prefere?
Fico olhando a caixa de lenços que ela foi buscar. Guarda tudo em caixinhas de pano florido, essa é de papoulas vermelhas e azuis com fundo preto. Tem ainda as de prata e couro que ficam nas prateleiras da estante. E sinos. Por onde o irmão passa, manda um sino. Outros colecionam selos, um outro coleciona gravatas e lá adiante um entra na fila de cinema. Maurício aperta os dentes que se quebram. Não quer gritar e então aperta os dentes quando o bastão elétrico afunda lá no fundo. No desenho animado, o gato leva um trompaço e dentes e ossos se trincam. Mas na cena seguinte já se colam e o gato volta inteiro. Seria bom se fosse como nos desenhos, Silvinha da Flauta. Gigi. Japona. E você, Maurício? Quando o bastão entrar mais fundo, desmaia. Desmaia depressa, morra. Devíamos morrer, Miguel. Em sinal de protesto devíamos todos simplesmente morrer. "Morreríamos se adiantasse", você disse. Lembra? Eu sei, ninguém daria a mínima. Arrancaríamos o coração do peito, olha aqui meu sangue, olha aqui meu coração! Mas tem um tipo ao lado engraxando os sapatos, que cor de graxa o cavalheiro prefere?
[...]

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