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Companhia das Letras
O LEITOR APAIXONADO
Ruy Castro



Apresentação

O mais longo caso de amor - com a palavra


A fotografa ao lado mostra o jovem repórter Ruy Castro, dezenove anos, de bic e bloco na mão, durante um momento marcante da história da literatura no Brasil: a posse de Guimarães Rosa na Academia Brasileira de Letras, em novembro de 1967. Mais do que marcar a entrada de um grande escritor na casa dos imortais, esse momento foi dramático porque Rosa - que retardou o quanto pôde a posse na Academia, por medo de não resistir à emoção e morrer - de fato morreu três dias depois. E a presença de Ruy nesse cenário é representativa, porque reflete o estreito laço que sempre o ligou à literatura.
Embora mais conhecido como estudioso do cinema, da música popular, do futebol e de outras disciplinas populares, Ruy sempre foi um homem dos livros. Um leitor apaixonado. Seus pais não tinham livros em casa - liam apenas revistas e jornais -, mas Ruy, ainda criança, já tinha paixão pela leitura. Com o dinheiro que pedia ao pai, comprava tantos livros que, aos dez anos, se viu obrigado a ter uma estante só para ele, que seu pai mandou fazer. Era o início de um turbilhão que tomaria conta de sua vida e que se traduz hoje nos quase 20 mil livros que ocupam oito estantes, muitas delas transbordando, em seu apartamento no Leblon. O cálculo não é de Ruy, que não se daria ao respeito de tal coisa, mas de seus amigos Manuel e Gomes, do sebo carioca Elizart, quando eles foram visitá-lo há pouco.
É essa mesma obsessão que faz com que Ruy não passe uma semana sem ir a livrarias ou sebos (esteja em que parte do mundo estiver), empilhe livros em sua mesa de cabeceira, no banheiro, na mesa de jantar e em todos os cantos da casa (lê vários ao mesmo tempo) e dedique suas raras horas vagas a restaurar capas e sobrecapas, munido de cola, pincel e paciência. A literatura e a convivência de Ruy com os livros sempre foram na verdade um lastro, formando a base do trabalho de jornalista e pesquisador que ele tem desenvolvido por mais de quatro décadas. Nada mais natural, portanto, que, durante esse tempo, ele escrevesse tantos artigos sobre o assunto.
A ideia de fazer um livro de textos de Ruy sobre literatura surgiu há muito tempo, junto com o projeto que já resultou em dois outros livros, um sobre cinema (Um filme é para sempre - 60 artigos sobre cinema, de 2006) e outro sobre música (Tempestade de ritmos - Jazz e música popular no século XX, de 2007), ambos pela Companhia das Letras. Quando mergulhei nas pastas de recortes de Ruy, já separei matérias sobre os três assuntos, que foram sendo aos poucos digitadas por mim (nos arquivos do meu computador, as três pastas virtuais receberam, de brincadeira, o nome de Pipoca, Vitrola e Orelha, esta última se referindo, claro, às "orelhas" dos livros).
O critério de seleção, nos três casos, foi simples: matérias que me deram prazer de ler. Sem nenhum mérito meu, o conteúdo dos livros resultou delicioso, porque, como seus leitores sabem, as matérias de Ruy para jornais e revistas são como suas biografas - uma enorme quantidade de informações, envolvida por um estilo saboroso e absolutamente próprio. Ruy escreve com tal leveza e humor que seus leitores absorvem tudo sem perceber. É gostoso ler Ruy Castro.
Dos 43 textos aqui incluídos, dois - "Ipanema anos 1920" e "Noites da Lapa" - foram prefácios de reedições de romances clássicos: respectivamente, Praia de Ipanema, de Théo-Filho (editora Dantes, 2000), e Lapa, de Luís Martins (José Olympio, 2004). Os demais saíram em diferentes jornais e revistas, sendo o mais antigo o artigo sobre Nathanael West, publicado na revista Manchete em 1974. O mais recente é aquele sobre Nelson Rodrigues, que saiu na Revista do Fantástico em novembro de 2007.
Ruy releu todos os artigos, reescrevendo trechos, atualizando dados e, nos casos em que havia mais de um texto sobre o mesmo assunto, fundindo-os ou colocando-os lado a lado. O artigo sobre Nelson Rodrigues, por exemplo, saiu na revista Alphaville, em junho de 2001, e foi depois ampliado para a Revista do Fantástico. O texto sobre Carlos Heitor Cony, que saiu na revista Manchete (em 1996), faz agora par com o que ele escreveu para o volume 12 dos Cadernos de Literatura Brasileira, publicado pelo Instituto Moreira Salles, dedicado a Cony. O artigo sobre Paulo Francis também se divide em duas partes: uma saiu na revista Cult, de janeiro de 2007, e a outra, naquele mesmo mês e ano, no jornal O Estado de S. Paulo. A matéria sobre Gertrude Stein, "O búfalo da Rive Gauche", nasceu na revista Ele/Ela em novembro de 1975 e reencarnou ampliada no Estado em julho de 1989. Já o artigo "Viagem ao cérebro das louras com Anita Loos" é uma fusão de dois artigos no Estado, em 1989 e 2000.
"Oswald - O canibal desaforado", "Luiz Aranha sai do passado", os artigos sobre Mario de Andrade e Mario Faustino, o que fala do "póstudo" e "Ao redor da mesa", sobre a turma do hotel Algonquin, foram publicados na Folha de S.Paulo, em diversas épocas. "Best-sellers - Qual você está lendo?", na Tribuna da Imprensa, em 1988. "Trompas de Falópio, out; tubas uterinas, in", na revista Ser Médico deabril de 2007, "Paulo Coelho - O mago dos milhões", na Elle de agosto de 1996, e "O biógrafo vê estrelas", na República de fevereiro de 1997. Duas matérias foram publicadas pela revista gaúcha Florense, "O que é, o que é?", sobre as capas da Penguin, e "Duelo de titãs", sobre o embate entre livros e internet. Os demais artigos saíram no Estado, também em diversas épocas.
Classifiquei os textos deste livro de "artigos sobre literatura", mas eles versam também sobre escritores, livros, artes gráficas e, no caso de um dos capítulos, sobre a língua portuguesa. Ruy é de opinião que a língua - tão combalida e desgastada por gerundismos, advérbios inúteis e clichês - precisa ser defendida na prática. Quanto melhor e com mais clareza se escrever, mais a língua continuará eficiente. Segundo Ruy, há palavras que, se não forem escritas de tempos em tempos, acabarão morrendo. Um capítulo saboroso é o que trata das diferenças entre o português do Brasil e o de Portugal. O fato de, recentemente, ter entrado em vigor um acordo para uniformizar a ortografa dos dois países não altera as profundas diferenças de espírito que - felizmente - caracterizam suas maneiras de falar e escrever.
O cuidado com o uso da língua é compreensível: Ruy sempre defendeu e difundiu os objetos de sua paixão, procurando dividir com o maior número de pessoas seu conhecimento sobre esses assuntos. E isso inclui o mais longo caso de amor que ele já manteve na vida - com a palavra.

Heloisa Seixas


Prólogo

Começou com Alice
A sensação de ter assistido ao próprio parto


O objeto veio embrulhado num papel verde estampado com motivos infantis, creio que de um ursinho tocando tambor. Muito justo. Era um presente de aniversário para uma criança que fazia cinco anos.
O objeto era um livro. O garoto o desembrulhou, contemplou aquele volume vermelho, de capa dura, cheio de páginas impressas com texto e outras ilustradas com desenhos em cores e preto e branco. Por coincidência, o menino tinha à mão ou no bolso um lápis de cor, também vermelho. Abriu o livro e escreveu logo na primeira página: "Ruy - 5".
A pessoa que lhe dera o presente, uma mulher, amiga de sua mãe, comentou:
"Ih, já começou a rabiscar o livro!"
Mas ele não queria rabiscá-lo, apenas marcá-lo como seu, firmar aquela data. Depositou o livro na cama junto com os outros presentes e só o retomou depois que a festa de aniversário acabou. O título na capa, ele o leu com facilidade: Alice no país das maravilhas. Para as outras informações, que constavam do frontispício, não deu muita importância na hora: "Lewis Carroll. Tradução e adaptação de Monteiro Lobato. Companhia Editora Nacional". Sentou-se, cruzou as pernas e abriu o livro na página 11, onde começava a história - e nunca mais foi o mesmo menino.
Já se passaram mais de cinquenta anos, mas posso manusear, folhear e até reler esse livro. Para dizer a verdade, ele está à minha frente neste momento. Naturalmente, não é o exemplar que ganhei naquele remoto dia de fevereiro de 1953 - o tal exemplar se perdeu na adolescência, juntamente com exemplares de Mindinho ou Terror Negro, ou ficou para trás em alguma mudança. Mas, há tempos, achei outro, da mesma fornada, com a capa e suas 124 páginas em perfeito estado, num sebo da rua Sete de Setembro, aqui no Rio. E não o achei por acaso. Eu estava à procura dele esse tempo todo.
Sim, antes dos cinco anos, eu já conseguia ler. Aprendera meio sozinho, sentado diariamente no colo de minha mãe enquanto, rindo muito, ela lia para si mesma - mas em voz alta, a meu pedido -, a coluna de Nelson Rodrigues na Última Hora, "A vida como ela é...". De tanto ouvir o som e o significado daqueles símbolos impressos no jornal enquanto olhava para eles, descobri com naturalidade como funcionavam - as letras formavam sílabas, as sílabas formavam palavras, as palavras formavam ideias. A partir dali, passei a aplicar o processo às outras letras impressas que via pela frente - em cartazes de cinema, anúncios no bonde, tampa de lata de marmelada -, e saí lendo tudo que podia. E escrevendo, também, porque era fácil copiar os símbolos, criando minhas próprias palavras. Dias depois, descobri a máquina de escrever de meu pai - os símbolos impressos nas teclas eram os mesmos que eu já produzia com lápis no papel ou nas paredes. E, com isso, aprendi a ler, a escrever e a escrever à máquina quase ao mesmo tempo, antes dos cinco anos.
A vida não é mais a mesma depois que se penetra no reino das palavras. Na verdade, não me recordo de nenhum dia em que não estivesse cercado por elas. Meus pais não liam livros, mas eram grandes consumidores de jornais. O Correio da Manhã, de Paulo Bittencourt, e O Jornal, do Chateaubriand, chegavam diariamente, por assinatura. À tarde, meu pai comprava nas bancas a Última Hora, de Samuel Wainer, de cuja linha política discordava, mas para fazer a vontade de minha mãe, que gostava de Nelson Rodrigues. Para purgar o getulismo da Última Hora, comprava o seu oposto, que era a Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda. Só aí já eram quatro jornais por dia. Aos domingos, às vezes surgia em casa o Diário de Notícias. Todos esses eram poderosos jornais cariocas. Revistas, várias - O Cruzeiro, Fon-Fon, Vida Doméstica. Detalhe: depois de lidos, jornais e revistas raramente iam para o lixo. As pilhas se acumulavam e atravessavam os anos. Os exemplares com as catástrofes históricas - acidente que matou Francisco Alves em 1952, suicídio de Getulio em 1954, morte de Carmen Miranda e incêndio da boate Vogue em 1955 - eram guardados para sempre. Não se jogavam fora as palavras.
Em pouco tempo, decidi que, no futuro, seria jornalista - que viveria das e entre as palavras. Ao contrário de outros garotos da minha geração, nunca pensei em ser médico, engenheiro ou advogado, nem mesmo astronauta, guia de safári ou comandante de submarino. O importante eram as palavras.
Bem, aconteceu que, em tempo hábil, me tornei jornalista, e as palavras têm me sustentado até hoje. Em praticamente todos os veículos em que trabalhei, escrevi sobre livros, conheci escritores que admirava - Jorge Luis Borges, Gore Vidal, Eric Bentley, Nelson Rodrigues, Guimarães Rosa -, cobri bienais, feiras e lançamentos, e participei, como penetra, da "vida literária" de modo geral. Mas,como já tinha feito com o cinema e com a música popular, sempre declinei dos convites a me tornar um resenhista ou "crítico" fixo de literatura. Nunca permiti que ler por obrigação, a valer três pontos, interferisse no prazer de ler por amor. Donde, de 1967 até hoje, nas quinze ou dezesseis redações por que passei, no Rio, em São Paulo e em Lisboa, consegui manter-me a uma distância segura dessa especialidade - escrevendo apenas sobre o que tinha vontade de escrever e ao meu jeito.
Tal critério - ou descritério - se reflete na seleção desses textos feita por Heloisa Seixas. Aqui não estão artigos, publicados originalmente em jornais e revistas, sobre os livros e autores mais importantes da literatura. Apenas os que a organizadora leu e achou que, pelo ostensivo prazer com que também foram escritos, um dia poderiam ser lidos de novo.


Filhos e netos de 1922

Faltou Carnaval no Modernismo
Vinte anos antes de 1922, os simbolistas
já tinham ensinado a fazer a festa

[17/1/2004]

Em alguns de seus melhores momentos, a literatura deveria ter um pezinho no Carnaval - para contrabalançar a tendência dos escritores a se levarem excessivamente a sério. Foi quase assim em 1922, quando os jovens Mario e Oswald de Andrade, Luiz Aranha, Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida, Sergio Milliet, Plínio Salgado, Ronald de Carvalho, os não tão jovens Graça Aranha e Manuel Bandeira e seus colegas de outras artes, como Victor Brecheret, Di Cavalcanti, Guiomar Novaes, Heitor Villa-Lobos e outros resolveram promover em São Paulo uma Semana de Arte Moderna - um fuzuê que sacudisse o arraial e chamasse a atenção para os futurismos que eles vinham tentando produzir. Por mais cultos e empertigados que fossem alguns dos modernistas, havia um clima de alegre agressividade em suas intenções, não muito diferente do Carnaval.
O próprio Di Cavalcanti, ao recordar as origens do festival, escreveu: "Sugeri a Paulo Prado a nossa Semana, que seria uma semana de escândalos literários e artísticos, de meter os estribos na barriga da burguesiazinha paulistana. Nada mais a gosto de Paulo Prado, que não suportava a caipirice que o cercava". Paulo Prado era um barão do café, mas também um intelectual, amigo do historiador Capistrano de Abreu e, no passado, frequentador de Eça de Queiroz em Paris. Segundo Di Cavalcanti, Paulo Prado não apenas concordou com entusiasmo, como acrescentou: "É preciso que seja uma coisa escandalosa. Nada de festinha no gênero ginasial, tão ao nosso gosto".
Diante desse cheque em branco, era de se imaginar uma Semana que fosse uma saraivada de guerrilhas poéticas, pictóricas e musicais, com happenings, performances e outros eventos pipocando de surpresa nos redutos dos conservadores. Por exemplo: Oswald de Andrade poderia surgir, de repente, no meio de um chá literário na Villa Kyrial, em que senhoras recitassem Gonçalves Dias. Vestido com uma tanga de penas, como um índio, e sacudindo a papada, pôr-se-ia a declamar seu Pau Brasil, quem sabe com o próprio de fora. Villa-Lobos, por sua vez, infltrar-se-ia entre os músicos de uma sinfônica que estivesse executando Carlos Gomes e, depois de passar uma rasteira no maestro, faria a orquestra atravessar, enquanto um flautista tocaria a sua "Sonata segunda". E a suave pintora Anita Malfatti, invadindo uma exposição de Pedro Américo, sairia rabiscando caricaturas de Monteiro Lobato pelas paredes, para se vingar de um cruel artigo de Lobato, anos antes, contra ela. A Semana seria o aquecimento perfeito para o Carnaval, o qual se daria dali a duas semanas, e justificaria o lindo quadriculado à arlequim da capa do livro Pauliceia desvairada, de Mario de Andrade. Aí, sim, teríamos um verdadeiro desvario modernista. Mas, como se diria no futuro, os modernistas não souberam fazer a festa.
O fato de a Semana de Arte Moderna ter sido patrocinada por Paulo Prado, direto do trono em seu salon na avenida Higienópolis, não precisava ter diminuído as intenções fuzarqueiras dos modernistas. Afinal, alguém tem de pagar a conta. Mas os aristocratas logo se apossaram da brincadeira e a encaretaram. Por sugestão de Paulo Prado, criou-se uma comissão de ilustres (Penteados, Macedos Soares, Rodrigues Alves e demais Prados), para "emprestar prestígio ao empreendimento" - e, de quebra, também assinar o livro de ouro. Um amigo de Paulo Prado, o colunista social René Thiollier, famoso pela casaca e pelo monóculo, encarregou-se de contratar o cenário onde se daria a revolucionária Semana: o oficialíssimo Teatro Municipal. Outro medalhão confiável, o romancista e acadêmico Graça Aranha, foi escalado por Paulo Prado para chefiar a suposta insurreição. Washington Luiz, governador do Estado - presidente, como se dizia -, pagou as passagens dos artistas que iriam do Rio, como Villa-Lobos, Ronald de Carvalho, Ribeiro Couto, Manuel Bandeira. E o movimento nos cabeleireiros e modistas de São Paulo triplicou por aqueles dias - ninguém que contasse podia deixar de ir ao Municipal nas três noites da Semana.
Aos olhos de hoje, tanto apoio oficial para uma revolução cultural parece uma contradição em termos, não? Mas os modernistas não seriam soberbos de recusar esse apoio, sabendo que a viajada aristocracia paulistana, já exposta às vanguardas europeias, não tinha por que se chocar com poemas de versos livres ou quadros semiabstratos. Aliás, era exatamente disso que ela, a aristocracia, estava precisando: uma produção cultural mais atualizada com a dos grandes centros, para fazer jus à pujança financeira da cidade - vide o magnífico Tietê, Tejo, Sena - A obra de Paulo Prado, por Carlos Eduardo Ornelas Berriel, lançado em 2000 pela editora Papirus, de Campinas. A aristocracia sabia também que não tinha muito a temer de um agitador cultural saído de seus quadros (Oswald) e de outro (Mario) que, menos de dois anos antes, em outubro de 1920, ainda era congregado mariano, seguia procissões pela cidade e pedia permissão à Cúria Metropolitana para ler os romances proibidos de D'Annunzio. Quanto aos tremendos ataques dos rapazes a Olavo Bilac, Coelho Neto, Carlos Gomes e Pedro Américo, tudo bem - os aristocratas também não gostavam deles. Quem se chocaria com isso seriam as pessoas mais simples, para quem a poesia devia ser rimada e metrificada e conter versos perfeitos; a literatura, usar brincos; a música, ser heroica; e a pintura, limitada aos crepúsculos e alvoradas.
O único vestígio carnavalesco na Semana aconteceu na noite de estreia do certame, 15 de fevereiro, quando quatro desconhecidos puseram-se a cacarejar e a latir das galerias do Municipal, em "protesto contra os futuristas". Fora isso, foram aplausos e bravos!, dos camarotes e frisas à plateia e aos lugares em pé - quase uma unanimidade. Quanto aos agitadores, como não lhes aconteceu nada e eles nem sequer foram identificados, suspeitou-se que tinham sido contratados para dar uma sacudida no evento - a exemplo, aliás, do que fazia o papa do futurismo internacional, o italiano Marinetti, que pagava a grupos enormes para atirar-lhe ovos e "impedir" suas performances pela Europa.
Duas semanas depois, veio o Carnaval propriamente dito, mas a Semana não se misturou com ele. No caso, até com razão, porque, sob a censura do governo Epitácio
Pessoa, não foi um grande Carnaval. O maior sucesso foi uma marchinha do ano anterior, "Ai, seu Mé", que era um achincalhe contra Arthur Bernardes, o candidato oficial à Presidência ("Ai, seu Mé/ Ai, seu Mé/ Lá no palácio das águias, olé/ Não hás de pôr o pé"). Presos seus autores, Careca e Freire Júnior, e proibida pela polícia, a marchinha foi cantada pelo povo nas ruas do Rio, mas em vão, porque seu Mé, eleito, tomou posse do mesmo jeito.
Já que desprezaram o Carnaval como mote contestador para sua Semana, os homens de 1922 poderiam ter se inspirado nos poetas simbolistas que, vinte anos antes, no Rio, já tinham promovido uma ácida campanha contra seus inimigos e, por acaso, também futuras bêtes noires dos modernistas: os parnasianos e os naturalistas - se pudessem, os simbolistas já teriam enforcado, respectivamente, o querido Olavo Bilac nas tripas de Coelho Neto. E não se limitariam a estes. Antecipando em uma década os futuristas de Marinetti, para quem toda arte passada era defunta, eles não poupavam ninguém. De Machado de Assis para trás, incluindo Machado, ninguém valia. Só que os simbolistas o fizeram de maneira bem carioca: à bangu, espontaneamente, sem nenhum programa e sem apoio oficial. Talvez por isso não tenham conseguido nada.
O poeta Gustavo Santiago, por exemplo (autor de um poema que falava em "oceano de erisipelas"), dizia a todo mundo na rua do Ouvidor que, ao passar por Machado, não lhe tirava o chapéu por ele ser o autor de Memórias póstumas de Brás Cubas, mas por ser "funcionário exemplar da Secretaria de Viação". Outro poeta, Orlando Teixeira, benzia-se ostensivamente quando cruzava com o crítico José Veríssimo às sextas-feiras. Félix Pacheco (que depois deu seu nome ao gabinete de identificação de pessoas físicas do Rio) só se referia àquele "mulato pretensioso e besta que se chamou Gonçalves Dias". Para eles, Castro Alves era um "jumento"; José de Alencar, uma "mula"; Álvares de Azevedo, uma "zebra". Luiz Edmundo, de cujo O Rio de Janeiro do meu tempo tirei essas informações, escreve que, a levar a sério os simbolistas, todos aqueles antigos mestres deviam viver em estrebarias, relinchando e sacudindo as crinas. Note-se que a atribuição desses epítetos equinos aos vates do passado era feita em jornais de grande circulação no Rio, não em pasquins literários que só os próprios agressores lessem.
A guerra de guerrilha dos poetas simbolistas não se limitava aos insultos. Para eles - aí, sim -, era como se a literatura fosse uma extensão do Carnaval. Um dos mais vistosos daquela turma, o depois jornalista Figueiredo Pimentel, simulou o próprio suicídio, jogando-se da barca da Cantareira na baía de Guanabara, mas deixando para trás a capa, o chapéu e uma carta para o chefe da Polícia. O poeta Alberto de Oliveira foi dar os pêsames à viúva e encontrou o morto mais saudável do que nunca, na cozinha, comendo pastéis e doce de jaca. Pimentel, na verdade, só fizera aquilo para promover seu novo romance, O suicida. É ou não Carnaval?
Outros simbolistas protestavam contra a caretice do formato dos livros vigentes, inventando as novidades mais estrambóticas. Afrânio Peixoto cometeu a extravagância de imprimir seu livro de estreia, Rosa mística, em sete cores. Já o poeta Carvalho Aranha, para fazer jus ao nome, ilustrou a capa de seu livro Eu com um enorme carvalho perto de uma aranha-caranguejeira - ninguém deixou de perceber a grossura. E o livro Manchas, de Antonio Austregésilo, tinha a capa branca manchada pelos dedos dos tipógrafos lambuzados com a tinta de impressão. Mas nem sempre as inovações sonhadas por eles eram factíveis. O pobre Cardoso Júnior não conseguiu que seu Primeiro soneto saísse revolucionário como ele queria: o livro constaria de um único poema, com quatorze versos, sendo cada verso em caracteres gigantes numa página enorme, impressa em papelão grosso e, depois, tudo aquilo sendo encadernado entre capas de folha de fandres. E Estácio Florim nunca achou quem publicasse seu livro Lua cheia, que seria redondo como a lua: não só teria uma forma circular, como a impressão também seria em círculo.
Tudo bem, esses nomes, famosos em 1900, já não nos dizem nada. Talvez eles não fossem realmente muito bons.Mas isso é normal nos movimentos literários: arrolam dezenas de figurantes para fazer espuma e só os melhores sobrevivem. O Modernismo também foi assim - quem ainda lê Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia, Ronald de Carvalho, Sergio Milliet, Plínio Salgado, Agenor Barbosa, Armando Pamplona e o próprio Graça Aranha? E, no entanto, sem eles não teria havido 22. Há outra coisa em comum entre os modernistas e os simbolistas: estes também tinham, como seus poetas favoritos na França, Baudelaire, Verlaine e Mallarmé. Aliás, foram os simbolistas que os descobriram para os modernistas, vinte anos antes.
O problema é que, talvez por serem, em sua maioria, socialistas e anarquistas, nossos carnavalescos simbolistas concentravam muito de sua criatividade em ataques pessoais. O poeta Fagundes dos Santos entrava todos os dias na Livraria Garnier e perguntava ao vento se "um sujeito vesgo e tolo que atende pelo nome de Olavo Bilac" ainda publicava poemas nos jornais. Bilac, pelo visto, nunca o ouviu fazer isso e, se ouviu, não lhe deu confiança. Já os presentes à livraria deviam se sentir ofendidos, porque, para eles, Bilac era quase um caso de amor. O próprio Oswald de Andrade sentir-se-ia ofendido. Sim, porque, pouco antes de se tornar modernista, Oswald era grande fã do poeta de "Ora, direis, ouvir estrelas...". Sempre que podia, vinha ao Rio para beijar-lhe as mãos em sua casa na rua 2 de Dezembro, no Flamengo, ou em sua mesa na Colombo. E, em 1915, em São Paulo, ajudou a organizar um banquete em homenagem a Bilac, promovido pela Faculdade de Direito. Do qual foi o orador da sobremesa.

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