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Companhia das Letrinhas
OLIVER TWIST
Charles Dickens



NASCIDO NO ASILO
Numa noite fria e chuvosa, transeuntes apressados encontraram uma jovem caída na rua. Seus sapatos furados indicavam que ela havia caminhado muito e certamente sucumbira ao cansaço. A pobre moça estava prestes a dar à luz, mas não usava aliança. Ninguém sabia nada sobre ela - nem de onde vinha nem para onde ia.
Assim, levaram-na para o asilo, onde seu filho não demorou a nascer. "Deixe-me segurá-lo", a jovem murmurou. Quando o médico pôs o bebê em seus braços, ela pousou os lábios frios e pálidos na testa da criança e beijou-a apaixonadamente; depois se recostou e morreu. Oliver Twist ficou órfão.
Como no asilo não havia ninguém para cuidar dele, mandaram-no para uma creche, onde o confiaram a uma velha chamada mrs. Mann. Na verdade, essa senhora gostava mais de cuidar de si mesma que das crianças.
Na creche, a comida nunca era suficiente e as surras sempre passavam da conta. Mas Oliver não se queixava, porque tinha amigos, e era isso que importava.
No dia em que completou nove anos, ele se viu trancado no porão com dois de seus amigos, porque se atrevera a dizer que estava com fome. De repente, mr. Bumble, o bedel encarregado do asilo, chegou sem avisar.
"Nossa, que surpresa! Fico feliz de ver o senhor!", mrs. Mann exclamou e, ao mesmo tempo que conduzia o visitante até a sala, com um gesto ordenou à servente que soltasse os meninos e os lavasse rapidamente.
"Hoje Oliver Twist faz nove anos...", mr. Bumble começou.
"Deus o abençoe!", mrs. Mann interrompeu-o.
"... e, apesar de uma generosa recompensa de dez libras", o bedel continuou, "não conseguimos descobrir nada sobre a família dele."
Mrs. Mann ergueu as mãos, numa demonstração de perplexidade,
e perguntou: "Mas, sendo assim, como é que ele tem sobrenome?".
O visitante se empertigou, todo orgulhoso. "Fui eu que o inventei", explicou. "Os sobrenomes que damos aos órfãos seguem a ordem alfabética. O último tinha sido com S, e Swubble eu o chamei.
O seguinte era com T, e Twist eu o chamei. Agora esse Twist está crescido demais para ficar aqui. Vim pessoalmente buscá-lo para levá-lo ao asilo. Portanto, traga-o aqui já."
"Agora mesmo", mrs. Mann falou e saiu correndo. Dali a pouco reapareceu com o pequeno órfão, que já estava convenientemente limpo.
"Quer vir comigo, Oliver?", mr. Bumble lhe perguntou numa voz majestosa, como se o menino tivesse escolha. E foi assim que Oliver se despediu de seus amigos de nove anos e saiu trotando pela rua afora para acompanhar as largas passadas do bedel a caminho do asilo.
Assim que chegaram ao asilo, mr. Bumble conduziu Oliver a uma sala, onde oito ou dez senhores gordos estavam sentados ao redor de uma mesa.
"Cumprimente a junta", Bumble ordenou, referindo-se a esses senhores. Oliver não entendeu muito bem, mas, por sorte, inclinou-se corretamente diante da mesa. O problema foi que, ao ver tantos cavalheiros juntos, ele não conseguiu responder sem chorar às perguntas que lhe fizeram.
"Pois bem, garoto, você está aqui para aprender um ofício útil", um homem de rosto vermelho anunciou. "Portanto, amanhã, às seis em ponto, você começa a fazer estopa." Oliver se curvou novamente
e correu para um vasto dormitório, onde se jogou numa cama
dura e chorou até pegar no sono.
O refeitório do asilo era um enorme salão de pedra, em cuja extremidade havia um fogão com um caldeirão de mingau.
O cozinheiro se postava diante do fogão e servia uma tigela de mingau para cada menino. Só em dias de festa a criançada recebia também um pouco de pão.
Durante três meses Oliver Twist e seus companheiros sofreram a tortura da fome. No fim, um garoto que era muito alto para a idade não agüentou mais. "Se eu não ganhar mais comida, vou acabar tendo de devorar o moleque da cama ao lado", ele avisou. "E devoro mesmo, podem crer." Os outros acreditaram. Não tinham dúvida de que alguém ia ter de pedir mais comida. Para decidir quem seria, tiraram a sorte com um punhado de palhinhas. Quem pegasse a palhinha mais curta daria conta da ingrata missão. E quem a pegou foi Oliver.
Naquela noite, a garotada ocupou seus lugares de costume. O cozinheiro distribuiu o mingau, e, quando terminaram de comer (o que não demorou muito), os meninos se puseram a cochichar entre si e a piscar para Oliver. Nervoso, apavorado, mas terrivelmente faminto, Oliver se levantou e foi até o fogão. "Por favor, senhor, quero mais", pediu.
O cozinheiro empalideceu e fitou-o em silêncio, absolutamente perplexo.
"Como é que é?", murmurou, por fim, quase sem voz.
"Por favor, senhor, quero mais", Oliver repetiu.
O cozinheiro bateu nele com a concha e chamou o bedel, aos berros.
A junta estava reunida quando mr. Bumble entrou, alvoroçado. "Perdoem-me, cavalheiros! Oliver Twist pediu mais comida!"
Todos se surpreenderam, e uma expressão de horror estampou-se em cada rosto.
"Mais comida!", mr. Limbkins exclamou. "Será que ouvi bem? Ele pediu mais, depois de jantar?"
"Exatamente, senhor", o bedel confirmou.
"Esse pirralho vai acabar sendo enforcado", mr. Limbkins profetizou.
Na manhã seguinte, fixou-se um cartaz no portão, oferecendo uma recompensa de cinco libras para quem levasse Oliver Twist para longe do asilo.



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