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Companhia das Letrinhas
SÓ NÃO VÊ QUEM NÃO QUER
Sílvia Zatz



RECORDAÇÕES

O sol tinha acabado de se pôr, e Naliroca achou melhor fechar a janela. O vento fresco do outono já começava a soprar.
- É sua vez - chamou Caju. - Venha logo!
Caju estava sentado diante de uma folha de papel que tinha um tabuleiro de jogo-da-velha desenhado.
- Agora você está perdido! - exclamou Naliroca ao desenhar um círculo em um dos cantos superiores.
Caju não teve escolha e desenhou uma cruz bem no centro, completando uma seqüência de três cruzes.
- Droga - protestou Caju. - Por que você sempre ganha de mim?
É preciso lembrar que, como membros vitalícios do famoso Clube dos Contrários, Caju e Naliroca jogavam de maneira especial. O objetivo era sempre o inverso. Ou seja, quem completasse a seqüência primeiro perdia.
- Talvez porque eu seja mesmo mais inteligente - disse Naliroca, em tom de provocação. - Ou simplesmente porque sou menina.
Caju jogou uma almofada em cima dela.
- Metida!
Naliroca jogou a almofada de volta. Em seguida partiu para cima de Caju, disposta a matá-lo de cócegas. Ele era sensível nos joelhos e na barriga, segredo recém-descoberto pela menina. O ponto fraco dela, em compensação, era o pescoço. De modo que os dois logo estavam rolando pela sala, às gargalhadas. Foi aí que a mãe de Caju apareceu.
- O que está acontecendo aqui? - perguntou a mãe.
- Nada - respondeu logo Caju. - É apenas um teste de resistência.
- Ele não se conforma que as mulheres sejam mais espertas - disse Naliroca.
A mãe deu risada.
- Você vai ter que se acostumar com isso, meu filho.
Caju não disse nada, mas olhou para Naliroca com cara de quem diz: "Você me paga!".
Naquela noite, Naliroca já tinha avisado que ficaria para jantar. O pai viria buscá-la mais tarde.
- Cêvo não deper por rarpees - disse Caju arregalando os olhos. - Sois vai ter cotro!
- Não lefa simas! - disse Naliroca num sussurro. - Guémal depo virou.
Caju não tinha conseguido se controlar. Mas ambos sabiam muito bem que era terminantemente proibido falar em gualín fora dos encontros do clube. Isso já tinha causado muitos problemas no passado. E, embora o clube tivesse superado os momentos difíceis, todos deviam continuar tomando esta precaução.
Caju entendeu na hora a mensagem de Naliroca, e agradeceu sem dizer nada. Lembrava-se como se fosse ontem do dia em que ela tinha se aproximado dele pela primeira vez no pátio do colégio, na hora do recreio. As recordações daquela época lhe voltavam à mente com freqüência. Era como se o Clube dos Contrários estivesse sendo fundado novamente.
Tudo tinha partido de uma pergunta que não abandonava a cabeça de Caju: "Por que a gente tem sempre de fazer as coisas do jeito que os adultos querem?". Um belo dia ele se revoltou e começou a fazer tudo do seu próprio jeito. Diferente, trocado, alterado, invertido, mudado ou ao contrário, não importa. Decidiu simplesmente não fazer nada igual aos outros.
Pouco a pouco, outras crianças se juntaram a ele nessa empreitada. Mas, para conquistar o direito de participar de um clube tão seleto, tinham que ser muito especiais. Tinham que provar por A mais B que o direito era merecido, mostrando que faziam algo diferente mesmo, como dançar sem música ou comer a sobremesa antes da comida.
Depois de inúmeras empreitadas, muitas aventuras
e momentos críticos, os integrantes do clube tinham entendido, por experiência própria, que o mundo dos contrários só fazia sentido enquanto existisse o mundo como ele é. E desde então o clube tentava se equilibrar entre esses dois extremos.
Todos os dias havia uma reunião que acontecia numa praça próxima à casa de Naliroca, num banco que ficava bem debaixo de uma árvore frondosa. Durante esse encontro, os membros do clube faziam tudo como achavam que deveria ser feito, e não como os adultos
queriam. A praça era uma fortaleza, onde se faziam coisas como falar uma língua própria chamada gualín, rir antes de contar a piada e comemorar o gol antes de chutar a bola.
Quando saíam da praça, era comum que Caju e Naliroca fossem um para a casa do outro e ficassem juntos até a hora do jantar. Tobe e Nhobiru, que eram os melhores amigos de Caju, não engoliam o apego dos dois. Ultimamente parecia que Caju andava preferindo a companhia de Naliroca à dos garotos.
Os amigos argumentavam que Caju estava deixando de lado seus deveres como presidente do Clube dos Contrários. Sentiam-se ameaçados pela presença da menina nas reuniões de cúpula, já que o triunvirato estabelecido desde os primeiros tempos começava a se transformar num quadrunvirato de poder. (Para quem não sabe, Caju tinha assumido a presidência desde a fundação do clube, enquanto Nhobiru e Tobe ficaram com as duas vice-presidências.)
Como companheiros de clube, reconheciam que estavam todos no mesmo barco. Mas, para falar português bem claro, a verdade é que os meninos se roíam de ciúme.


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