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Companhia das Letrinhas
CASTELOS E FANTASMAS
Ernani Ssó



O CASTELO E O ESQUELETO

Há muito tempo, quando os bichos falavam e o mundo era desconhecido, havia um castelo abandonado, na beira de um penhasco. Todas as pessoas que entravam lá nunca mais eram vistas. Dizia-se que se tornavam prisioneiras de um fantasma.
Gaspar sentiu vontade de descobrir a verdade e cruzou a ponte levadiça, entrando no pátio escuro pelas sombras das paredes. Estava tudo parado, em silêncio. Era uma noite gelada, sem vento e sem bichos. O céu cintilava.
Havia luz numa janela.
Na porta do castelo, Gaspar bateu três vezes com a aldrava. Como ninguém veio abrir, ele entrou e foi até a sala iluminada por algumas tochas presas nas paredes. No centro, havia uma mesa comprida cheia de co-midas e bebidas. Num canto, uma lareira com um bom fogo e um banco forrado de peles.
Gaspar sentou-se à mesa, comeu e bebeu. Depois se instalou no banco, em frente à lareira. Dormiu em seguida.
Então uma voz abafada disse:
- Gaspar, acorde, Gaspar...
Gaspar acordou e não viu nada. Mas algo rangia acima de sua cabeça. Sem susto, ele olhou. Pendurado numa forca presa num velho lustre de ferro, um esqueleto balançava de leve.
- Gaspar, me segure senão eu caio - o esqueleto disse com aquela voz abafada, difícil de compreender.
Gaspar se levantou sem pressa:
- Pode cair.
Os ossos das pernas caíram. Gaspar os segurou como pôde e os colocou no banco.
- Gaspar, me segure senão eu caio - o esqueleto disse de novo.
- Pode cair.
Os ossos dos braços caíram. Gaspar também os segurou e os colocou no banco.
Depois, sempre pedindo que Gaspar o segurasse senão ele caía, o esqueleto deixou cair os ossos da coluna e finalmente a cabeça. Gaspar segurou tu-do e colocou no banco.
Então os ossos se juntaram, o esqueleto se levantou e foi pegar uma tocha.
- Você me ajudou, Gaspar. Venha comigo. Tenho um tesouro.
Gaspar foi.
Sem uma palavra, o esqueleto andou por muitos corredores, mas todos pareciam sempre os mesmos. Cruzou salas, desceu escadas, mas todas pareciam sempre as mesmas. Em tudo, o abandono, a poeira e o silêncio.
Num dos corredores, Gaspar viu um esqueleto meio escorado numa parede. Em várias salas, viu esqueletos estirados no chão, alguns ainda com restos de roupas. Numa escada, viu quatro esqueletos espalhados pelos degraus de pedra.
Gaspar sabia que estava perdido. Aqueles esqueletos deviam ser das pessoas que morreram procurando a saída do castelo. Mas Gaspar, sem medo, continuou atrás do esqueleto com a tocha. Era preciso ir até o fim para descobrir o segredo.
O esqueleto abriu uma porta e disse:
- Chegamos ao porão.
Desceram uma longa e estreita escada de caracol, toda de pedra. A primeira coisa que Gaspar sentiu foi o frio cortante; depois, o cheiro de mofo e de terra molhada. Em algum lugar, muito longe, se ouvia uma goteira. O silêncio entre uma gota e outra doía nos ouvidos de Gaspar.
A luz da tocha era fraca e vacilante, não dava para se ver quase nada. Mas Gaspar sentiu que o porão era muito grande.
O esqueleto parou diante de uns túmulos.
- Aqui, Gaspar, descansam alguns antepassados meus.
O último túmulo estava aberto, o tampo de pedra escorado nele.
- Este é o meu túmulo.
- E por que você não está aí? - Gaspar disse como se não estivesse curioso.
O esqueleto demorou a responder.
- Não posso.
- Por que não?
O esqueleto continuou como estava, de frente para o túmulo, segurando a tocha no alto. Depois de um longo momento, a voz mais abafada do que antes, ele disse:
- É uma longa história...
- Conte. Gosto de histórias.
O esqueleto se virou para Gaspar:
- Há trezentos anos, meu pai resolveu terminar a guerra que mantinha com o senhor de outro castelo. A inimizade das duas famílias já durava mil anos e ninguém mais sabia por que tinha começado. Muitos de nós nasceram e morreram sem conhecer a paz. Para selar essa paz, o filho do senhor do outro castelo se casaria com minha irmã e eu me casaria com a irmã dele.
- O que saiu errado?
- Quando voltávamos para cá, fomos atacados por um bando de ladrões. Apenas eu sobrevivi. Fui feito prisioneiro. Assim, Gaspar, os ladrões pu-deram passar pelos guardas do castelo...
O esqueleto se calou. Gaspar notou que ele tinha dificuldade em falar. A voz estava cada vez mais baixa e era como se o esqueleto falasse sozinho.
- Os ladrões destruíram e roubaram tudo no castelo.
"A mesa em que você comeu esta noite, Gaspar, estava servida naquela noite, há trezentos anos. Era para minha família. Os ladrões me deixaram amarrado num canto e festejaram seus crimes, comendo e bebendo.
"Depois me penduraram com uma corda no lustre. Então eu disse que
contava onde estava o tesouro de meu pai se me deixassem vivo. Eles riram e me chamaram de covarde. Mas me soltaram e viemos todos aqui para o porão.
"Aí eu disse que não ia dizer onde estava o tesouro. Podiam me matar logo. Mesmo depois de morto eu ia continuar de guarda do tesouro. Prometi que o protegeria para sempre de todas as pessoas desonestas que aparecessem aqui.
"Loucos de raiva, os ladrões me mataram e depois... bem, depois morreram todos tentando encontrar a saída. Porque o porão está no centro de um labirinto."
O esqueleto ficou quieto e apontou um túmulo com a tocha.
- O tesouro está ali, Gaspar. Puxe a terceira pedra que o túmulo se abrirá.
- Não vim pelo tesouro. Vim para descobrir o segredo do castelo. Por que as pessoas que entraram nunca mais foram vistas?
- Morreram. Sempre pedi um favor em troca do tesouro. Mas todas pensaram que podiam me enganar... Agora não quero mais nada. Fique com o tesouro, Gaspar. O segredo da saída está no meu túmulo. É só fechá-lo.
- O que você pedia em troca do tesouro?
- A paz.
Em seguida, o esqueleto entregou a tocha a Gaspar e desapareceu nas sombras.
Gaspar olhou para os lados. Levantou a tocha para iluminar mais. Mas não viu nada.
Então sentiu medo. Era medo de ficar ali naquele porão, sozinho. Era medo de morrer sem nunca falar com outra pessoa.
Aturdido, Gaspar pensou no esqueleto. Há trezentos anos o esqueleto estava ali sozinho. Há trezentos anos não falava com as pessoas que tinha amado. Há trezentos anos, todas as noites, percorria o castelo deserto e se lembrava do homem que foi, de como se vingou dos ladrões e de que estava mor-to, mas continuaria ali, guardando o tesouro.
Gaspar resolveu encontrar o esqueleto. Caminhou um pouco, olhando para todos os lados, sem ver nada. De repente uma coisa roçou de leve a cabeça de Gaspar e ele quase se assustou.
Eram os pés do esqueleto. Ele estava pendurado numa forca. A corda desaparecia nas sombras, em direção ao teto.
Gaspar subiu num túmulo e com sua faca cortou a corda. Com cuidado, desceu o esqueleto até o chão. Tirou a corda do pescoço dele e depois o carregou para o túmulo aberto. Levou muito tempo para fechar o túmulo, porque o tampo era pesado mesmo para dois homens.
Quando o túmulo se fechou, uma pequena porta se abriu ao lado da escada de caracol. Era a saída secreta do porão.
Gaspar foi até o túmulo do tesouro e puxou a terceira pedra. O tampo se afastou. À luz da tocha, sobre os restos de uma arca de madeira, Gaspar viu esmeraldas, rubis, pérolas, diamantes e moedas de ouro.
Ele pegou um punhado de pérolas para marcar o caminho que o levaria de volta à sala da lareira. Primeiro ia dormir. Amanhã veria o que fazer. Não tinha pressa. Agora Gaspar era o novo senhor do castelo.

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