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Companhia das Letrinhas
DIVINAS DESVENTURAS
Heloisa Prieto



ÍCARO


O labirinto do Minotauro, como se pôde perceber, foi um espaço de dor, sofrimento e mortes. Quando o rei Minos, o impiedoso, encomendou a obra a Dédalo, o mais famoso arquiteto da época, o artista desconfiou da tarefa:
- Por que Vossa Majestade quer que eu construa um espaço tão sombrio? - ele perguntou. - Seria uma prisão para animais perigosos?
- Obedeça-me sem fazer perguntas. Construa um labirinto com torres inexpugnáveis, vários corredores interligados, espaços secretos, um labirinto cuja saída seja impossível de ser descoberta. O pagamento será compensador, eu garanto.
- Majestade, para criar um espaço tão maligno, serei obrigado a recordar-me de meus piores pesadelos. Todo lugar contém uma parte do espírito de quem o constrói. Para criar o que me pede, não usarei minha luz, e sim tudo o que há de mais soturno dentro de mim. Nunca fiz isso antes, temo pelas consequências de minha própria obra.
- Cale-se, Dédalo! Obedeça-me ou sua vida estará em risco!
Dédalo nascera na cidade de Atenas e pertencia a uma família real. Sua criatividade era tamanha que o transformara num artista de muitos talentos. Ele era arquiteto, escultor e inventor.
Durante o tempo em que trabalhara em sua cidade natal, Dédalo tivera um sobrinho como discípulo. Seu nome era Talos. Certo dia, inspirado na forma da boca de uma serpente, o jovem inventou a serra. Louco de inveja, Dédalo empurrou Talos num precipício e roubou-lhe a invenção. Mas seu ato foi descoberto e Dédalo, condenado. Para escapar à punição, o inventor pediu abrigo a Minos. Compreendendo aquele ato de traição melhor do que ninguém, Minos o acolheu e o elegeu arquiteto da corte. Havia, portanto, entre o rei e o artista, o elo de um segredo abominável.
Em Creta, Dédalo pôde desenvolver sua enorme criatividade. E também apaixonou-se por uma jovem maravilhosa, com quem teve um filho: Ícaro. A paternidade - tanto de suas obras como do filho - aliviou seu coração. Dédalo tornou-se mais tranquilo e amoroso, distanciando-se da lógica cruel que regia os atos de Minos, seu rei.
Construir o labirinto seria lembrar-se do precipício tortuoso ao qual con-de-nara seu jovem aprendiz. Seria também resgatar o lado vil e maligno que ele tanto desejava abandonar. Como todo artista, Dédalo sabia que cada obra de arte assume vida própria, passando a exercer uma espécie de domínio sobre quem a cria. Daí seu desejo de produzir apenas o belo e o bom.
Ao término da construção do labirinto, com seus corredores infindáveis, falsas saídas, poços camuflados à espreita das vítimas, Dédalo foi tomado por uma premonição medonha. O mal que o lugar transpirava havia de causar-lhe intenso sofrimento.
Foi então que ele descobriu, estarrecido, a verdadeira função do labirinto: Minos soltara seu monstro de estimação dentro desse palácio de horrores. O labirinto seria a morada do terrível Minotauro; seu propósito, dizimar centenas de jovens.
Envergonhado por sua obra sinistra e temendo pela vida do filho, Dédalo pediu permissão para deixar a ilha de Creta. Como era de se imaginar, ela foi negada pelo rei:
- Infelizmente, caro Dédalo, sua obra o condenou ao exílio. Você é o único ser humano que conhece o segredo do labirinto. Preciso mantê-lo sempre por perto. Além disso, apreciei seu trabalho. Talvez eu queira criar outros lugares tão sombrios quanto este. Como poderia permitir sua partida?
Dédalo percebeu que caíra numa armadilha. Pai e filho foram aprisionados na torre mais alta do labirinto para que nunca escapassem.
Mas Dédalo não queria que o filho sofresse as consequências de atos que não cometera. Após dias observando a paisagem do alto da torre, teve uma ideia brilhante: decidiu que construiria asas para ele e para Ícaro, de modo que pudessem escapar da torre e ter uma vida feliz, longe de Minos e do labirinto.
Assim como seu discípulo Talos inventara a serra após observar a mordedura da serpente durante dias a fio, Dédalo criou asas para si e para Ícaro depois de analisar pacientemente o movimento do voo das aves. Para confeccioná-las, o artista utilizou penas e cera: durante meses, ele e Ícaro recolheram as penas deixadas pelos pássaros no balcão da torre e guardaram os restos das velas utilizadas à noite.
Finalmente, Dédalo decidiu que a melhor hora para a fuga seria o pico do meio-dia. Nesse momento, os vigias se afastavam para alimentar-se e o sol batia tão forte que os impedia de enxergar o que acontecia no alto da torre.
Na hora combinada, o pai vestiu suas asas e prendeu as do filho. O jovem, percebendo que podia comandar o movimento das asas e alçar voo, foi tomado de uma alegria incontrolável.
- Pai! Veja! Virei um passarinho! - ele gritava feliz.
- Ícaro! Preste atenção! Tenha muito cuidado!
- Por quê? Ficaremos livres! Viveremos bem longe daqui!
- Tenha cautela ao voar. Todos os voos são perigosos: os reais e os imaginários.
- Não entendi... - queixou-se Ícaro.
- Quando arquitetei o labirinto, fui envolto no voo da criação. Esqueci que construía uma armadilha mortal.
- E o que isso tem a ver com o voo de fuga?
- Quando alguém se sente livre, criando, sonhando ou voando de verdade como você fará, corre o risco de cegar-se de felicidade e esquecer-se de ser prudente. Lembre-se, Ícaro, você é um menino e não um pássaro. Essas asas não são reais. Se você deixar de pousar na terra na hora certa, se chegar muito próximo ao calor do Sol, a cera derreterá e você despencará do céu. Voe, meu filho, mas não esqueça que seu destino é o chão, como o de qualquer outro mortal.
Assim que terminou suas recomendações, Dédalo saltou do balcão da torre e atravessou os céus voando. Ícaro o seguiu. O pai voava pensando na nova vida em terras distantes; o filho, fascinado pelas ondas macias das nuvens brancas, sentindo-se como um pássaro, esquecia que as asas não lhe pertenciam realmente e deslizava mais e mais perto do Sol.
Já próximo ao solo, Dédalo olhou para trás e avistou o filho furando as nuvens, no alto do firmamento. Gritou alto, mas o menino não o ouvia. Desesperado, percebeu que as nuvens escureciam e formavam desenhos que se pareciam com fios contorcidos, tão emaranhados quanto os corredores do labirinto que construíra.
Enlevado pela liberdade do voo, acima das nuvens de chuva, Ícaro, por sua vez, não sentiu que a cera derretia devido ao calor da luz do Sol. Raios luminosos rompiam as nuvens acinzentadas, e, quando despencou no ar, o menino teve a impressão de ter sido picado por serpentes. Imediatamente lembrou-se da serra que Talos inventara.
No chão, o pai, estarrecido, viu o corpo do filho furar as nuvens e desabar sobre as ondas do mar. Parecia que Ícaro estava desaparecendo num precipício tão profundo quanto aquele onde terminara a vida de Talos, seu primeiro aprendiz...

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