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Companhia das Letrinhas
PEQUENOS CONTOS PARA CRESCER
Mario Urbanet
Albena Ivanovitch-Lair



Os seis apaixonados


Um rei tinha apenas uma filha e a amava mais que tudo no mundo. Ela era meiga, alegre culta e sempre prestativa. Sua beleza não se igualava a nenhuma outra; assim, apaixonados por ela não faltavam. O rei despachava todos, com a desculpa de que sua filha era muito moça para se casar. Os anos foram passando, e a princesa ficava mais impaciente a cada dia. Suplicou tanto ao pai que a deixasse casar que ele acabou cedendo a seu pedido. Mas impôs uma condição: que o futuro genro fosse capaz de encher todo o salão de baile do palácio real, sem esquecer do menor cantinho. Pouco importava com o quê, contanto que fizesse isso durante um só dia, antes de dar meia-noite. Muitos jovens desistiram diante da tarefa invencível, só os mais apaixonados resolveram tentar a sorte.
Um poderoso fazendeiro usou todos os seus empregados para amontoar sacos repletos de terra. Eles deram duro o dia inteiro, mas os sacos encheram apenas um terço do imenso salão.
Um rico criador que chegara numa manhã, seguido por seus pastores e todos os seus rebanhos, também fracassou.
O rei esfregava as mãos de alegria e, ao mesmo tempo, fingia lamentar esses fracassos. A princesa se debulhava em lágrimas, desesperada para um dia se casar.
Um depois do outro, apresentaram-se ainda um grande negociante de madeiras, o dono de todos os moinhos da província e até mesmo um rico banqueiro.
O primeiro mandou levar troncos; o segundo, sacos de farinha; o terceiro, lingotes de ouro. Nenhum venceu o desafio de encher o salão.
Certa manhã, veio um poeta que trazia debaixo do braço, como única bagagem, um pequeno baú. Ele percorria o parque, inebriando-se com o perfume de uma rosa, espantando-se com a vivacidade de um inseto ou escutando a tagarelice de um pássaro. De vez em quando, rascunhava na caderneta um verso alexandrino. Observando-o da janela, a princesa se afligia ao ver aquele rapaz que tanto lhe agradava perder assim seu tempo. Já o rei estava sossegado, pois não seria aquele desastrado que lhe arrebataria a filha adorada...
Quando o sol foi iluminar a outra metade do globo, o poeta entrou no salão de baile. Abriu o baú, tirou um candelabro de cinco braços e o acendeu. Logo as chamas das velas se refletiram nos inúmeros espelhos e nos dourados dos lambris, sendo multiplicadas por dez mil. Assim, em um instante o jovem encheu de luz o salão de festas. Depois declamou o poema que tinha composto de dia, e o som de sua voz suave também tomou conta da imensa sala.
Apesar do rancor, o rei teve de lhe dar a mão de sua filha, que ficou feliz, pois seu marido mostrou-se agradável, amoroso e corajoso. Além disso, toda noite, durante toda a sua vida, ele lhe dedicou um poema, o que era bem mais precioso que todas as riquezas do mundo.

Ter espírito permite entender bem a questão.
Convém a isso acrescentar um pouco de reflexão.
Não é preciso ser forte, rico ou poderoso,
Basta um poeta para descobrir a cilada de um rei teimoso.

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