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Companhia de Bolso
O PROCESSO
Franz Kafka



Capítulo primeiro
DETENÇÃO. CONVERSA COM A SENHORA GRUBACH.
DEPOIS COM A SENHORITA BÜRSTNER

Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum. A cozinheira da senhora Grubach, sua locadora, era a pessoa que lhe trazia o café todos os dias por volta de oito horas, mas dessa vez ela não veio. Isso nunca tinha acontecido antes. K. esperou mais um pouquinho, olhou de seu travesseiro a velha senhora que morava em frente e que o observava com uma curiosidade nela inteiramente incomum, mas depois, sentindo estranheza e fome ao mesmo tempo, tocou a campainha. Imediatamente bateram à porta e entrou um homem que ele nunca tinha visto antes naquela casa. Era esbelto e no entanto de constituição sólida, vestia uma roupa preta justa que, como os trajes de viagem, era provida de diversas pregas, bolsos, fivelas, botões e um cinto, razão pela qual parecia particularmente prática, sem que se soubesse ao certo para o que ela servia.
- Quem é o senhor? - perguntou K. e logo se sentou meio ereto na cama.
Mas o homem passou por cima da pergunta, como se fosse preciso aceitar a sua aparição, e por sua vez simplesmente disse:
- O senhor tocou a campainha?
- Anna deve me trazer o café-da-manhã - disse K., tentando, a princípio em silêncio, verificar pela atenção e pelo raciocínio quem era realmente aquele homem.
Este no entanto não se submeteu por muito tempo aos olhares de K., voltou-se para a porta, que ele abriu um pouco, a fim de dizer a alguém que evidentemente estava bem atrás dela:
- Ele quer que Anna lhe traga o café-da-manhã.
Seguiu-se uma pequena gargalhada no cômodo contíguo; pelo som não era possível ter certeza se se tratava ou não de várias pessoas. Embora com isso o estranho não pudesse ficar sabendo nada além do que já sabia antes, disse a K. no tom de quem transmite uma informação:
- É impossível.
- Isso seria uma novidade - disse K. saltando da cama e vestindo rapidamente as calças. - Quero ver que gente é essa que está no cômodo vizinho e como a senhora Grubach vai se justificar por esta perturbação.
Na verdade logo lhe ocorreu que não precisaria tê-lo dito em voz alta e que assim reconhecia, de uma certa maneira, o direito de fiscalização do estranho, mas isso agora não lhe parecia importante. Foi desse modo porém que o estranho o entendeu, pois disse:
- O senhor não prefere permanecer aqui?
- Não quero nem permanecer aqui nem ser interpelado pelo senhor enquanto não se apresentar.
- Minha intenção era boa - disse o estranho, abrindo então espontaneamente a porta.
A sala ao lado, na qual K. entrou mais devagar do que queria, parecia à primeira vista estar exatamente como na noite anterior. Era a sala de estar da senhora Grubach; talvez hoje houvesse um pouco mais de espaço do que habitualmente nesse aposento atulhado de móveis, toalhas, louças e fotografias, coisa que não se percebia logo, tanto mais porque a principal mudança consistia na presença de um homem sentado junto à janela aberta com um livro do qual ele agora levantava os olhos.
- O senhor devia ter permanecido no seu quarto! Será que Franz não lhe disse?
- Disse, mas o que o senhor quer, afinal? - disse K. e olhou desse novo conhecido para o que se chamava Franz, que tinha ficado em pé na porta, e deste de volta ao primeiro.
Pela janela aberta se via outra vez a velha senhora, que com uma curiosidade verdadeiramente senil agora havia passado para a janela que ficava defronte para continuar vendo tudo.
- Quero a senhora Grubach - disse K., fazendo um movimento como se estivesse se soltando dos dois homens, os quais entretanto estavam muito distantes dele, e quis seguir em frente.
- Não - disse o homem junto à janela, atirando o livro sobre uma mesinha enquanto se erguia. - O senhor não tem permissão para sair. O senhor está detido.
- É o que parece - disse K. - Mas por quê? - perguntou então.
- Não fomos incumbidos de dizê-lo. Vá para o seu quarto e espere. O procedimento acaba de ser iniciado e o senhor ficará sabendo de tudo no devido tempo. Ultrapasso os limites do meu encargo quando me dirijo com tanta amabilidade ao senhor. Mas espero que ninguém mais ouça, além de Franz, e até ele é amável com o senhor, contra todos os regulamentos. Se continuar tendo tanta sorte como na indicação dos seus guardas, pode ficar confiante.
K. desejava sentar-se, mas viu então que não havia outro assento na sala além da cadeira perto da janela.
- O senhor ainda vai perceber como tudo isso é verdade - disse Franz, andando ao mesmo tempo que o outro homem em direção a K.
Principalmente o último tinha uma estatura bem mais avantajada que a de K. e lhe dava freqüentes tapinhas nos ombros. Os dois examinaram o camisolão de K. e disseram que agora teria de vestir um muito pior, mas que eles zelariam por ele, bem como pelo restante das suas roupas íntimas; se a causa terminasse a seu favor, eles as devolveriam.
- É melhor que o senhor deixe as coisas conosco e não no depósito - disseram -, pois no depósito sempre ocorrem desfalques e além disso lá as coisas são vendidas depois de certo tempo, não importa se o respectivo processo terminou ou não. E como demoram os processos desse tipo, principalmente nos últimos tempos! De qualquer modo, o senhor ao final receberia do depósito o produto da venda, mas em primeiro lugar ele já é em si mesmo exíguo, pois na venda o que decide não é o montante da oferta e sim o do suborno, e além do mais, segundo mostra a experiência, essas somas continuam diminuindo à medida que passam de mão em mão e de ano para ano.
K. mal prestou atenção nesses discursos; não dava muita importância ao direito, que talvez ainda tivesse, de dispor das suas coisas; para ele era muito mais relevante chegar à clareza sobre sua situação, mas na presença dessas pessoas não podia nem ao menos refletir; sem cessar, a barriga do segundo guarda - de fato só poderiam ser guardas - batia literalmente nele, de um modo amistoso, mas quando erguia os olhos via um rosto ossudo, seco, destoante desse corpo gordo, com o nariz forte virado para o lado, que se entendia por cima dele com o outro guarda. Que tipo de pessoas eram aquelas? Do que elas falavam? A que autoridade pertenciam? K. ainda vivia num Estado de Direito, reinava paz em toda parte, todas as leis estavam em vigor, quem ousava cair de assalto sobre ele em sua casa? Ele tendia a levar as coisas pelo lado mais leve possível, a crer no pior só quando este acontecia, a não tomar nenhuma providência para o futuro, mesmo que tudo fosse ameaça. Aqui porém não parecia acertado; na verdade, tudo podia ser uma brincadeira, uma brincadeira pesada, que os colegas de banco tinham organizado por motivos desconhecidos, talvez porque ele hoje completasse trinta anos de idade; isso naturalmente era possível, talvez ele só precisasse de alguma maneira rir na cara dos guardas para que esses rissem juntos, quem sabe fossem serviçais da esquina, não pareciam diferentes deles - apesar de tudo estava dessa vez formalmente determinado, desde que viu pela primeira vez o guarda Franz, a não ceder a mínima vantagem que por acaso tivesse diante dessas pessoas. K. atribuía um perigo ínfimo ao fato de que mais tarde pudessem dizer que ele não entendia uma brincadeira, mas sem dúvida se lembrava - sem que de resto tivesse sido hábito seu aprender com a experiência - de alguns casos em si mesmos insignificantes nos quais, ao contrário dos amigos, havia se comportado conscientemente de modo descuidado, sem a mínima sensibilidade para as possíveis conseqüências, sendo assim punido pelo resultado. Isso não deveria acontecer de novo, pelo menos não desta vez; se era uma comédia, então iria participar dela.
Ele ainda estava livre.
- Com licença - disse e passou às pressas entre os guardas para o seu quarto.
- Ele parece ser sensato - ouviu dizerem atrás de si.
No quarto abriu abruptamente as gavetas da escrivaninha; nela estava tudo na maior ordem, mas na excitação não conseguiu encontrar de imediato justamente os documentos de identidade que procurava. Achou afinal sua carteira de ciclista e quis ir com ela até os guardas, mas o documento lhe pareceu insignificante demais; continuou procurando até encontrar a certidão de nascimento. Quando voltou à sala ao lado, abriu-se a porta bem em frente e a senhora Grubach fez menção de entrar. Só a viram por um instante, pois mal reconheceu K., ficou evidentemente embaraçada, pediu desculpas, desapareceu e fechou a porta com extremo cuidado. K. ainda teve tempo de dizer:
- Entre, entre!
Estava então no meio da sala com seus papéis, olhou ainda para a porta, que não se abriu de novo, e só se sobressaltou com um chamado dos guardas, que estavam sentados à mesinha junto à janela aberta e consumiam o café-da-manhã dele, como agora percebia.
- Por que ela não entrou? - perguntou.
- Ela não pode fazer isso - disse o guarda grande. - O senhor está detido.
- Como posso estar detido? E deste modo?
- Lá vem o senhor de novo - disse o guarda, mergulhando um pão com manteiga no potinho de mel. - Não respondemos a perguntas como essa.
- Terão de responder - disse K. - Aqui estão os meus documentos de identidade, agora mostrem os seus, sobretudo a ordem de detenção.
- Oh, céus! - disse o guarda. - É incrível como o senhor não consegue se submeter à sua situação e parece empenhado em nos irritar inutilmente, a nós, que decerto somos neste momento os mais próximos de todos os seus semelhantes!
- É isso mesmo, acredite - disse Franz sem levar à boca a xícara de café que mantinha na mão, mas fitando K. com um olhar longo, provavelmente cheio de sentido, embora incompreensível.
K. se envolveu sem querer num diálogo de olhares com Franz, mas depois bateu nos seus papéis e disse:
- Aqui estão os meus documentos de identidade.
- Que importância eles têm para nós? - bradou então o guarda grande. - O senhor se comporta pior que uma criança. O que quer, afinal? Quer acabar logo com seu longo e maldito processo discutindo conosco, guardas, sobre identidade e ordem de detenção? Somos funcionários subalternos que mal conhecem um documento de identidade e que não têm outra coisa a ver com o seu caso a não ser vigiá-lo dez horas por dia, sendo pagos para isso. É tudo o que somos, mas a despeito disso somos capazes de perceber que as altas autoridades a cujo serviço estamos, antes de determinarem uma detenção como esta, se informam com muita precisão sobre os motivos dela e sobre a pessoa do detido. Aqui não há erro. Nossas autoridades, até onde as conheço, e só conheço seus níveis mais baixos, não buscam a culpa na população, mas, conforme consta na lei, são atraídas pela culpa e precisam nos enviar - a nós, guardas. Esta é a lei. Onde aí haveria erro?
- Essa lei eu não conheço - disse K.
- Tanto pior para o senhor - disse o guarda.
- Ela só existe nas suas cabeças - disse K., querendo de alguma maneira se infiltrar nos pensamentos dos guardas, revertê-los em seu favor ou neles se instalar.
Mas o guarda, num tom de rejeição, disse apenas:
- O senhor irá senti-la.
Franz se intrometeu e disse:
- Veja, Willem, ele admite que não conhece a lei e ao mesmo tempo afirma que é inocente.
- Você tem toda razão, mas não se pode fazê-lo entender nada - disse o outro.
K. não respondeu mais nada; pensou: será que eu preciso me deixar confundir ainda mais pelo palavrório destes subalternos - eles mesmos admitem que o são? Seja como for, falam de coisas que absolutamente não entendem. A segurança deles só é possível por causa da sua estupidez. As poucas palavras que eu trocar com alguma pessoa do meu nível tornarão tudo incomparavelmente mais claro do que as conversas mais longas com estes homens.
Andou algumas vezes de cá para lá no espaço livre do aposento, viu do outro lado a velha senhora, que tinha arrastado para a janela um ancião muito mais velho ainda, que ela mantinha enlaçado com o braço. K. precisava pôr um fim ao espetáculo a que se expunha.
- Levem-me ao seu superior - disse K.
- Assim que ele o desejar, antes não - disse o guarda que tinha sido chamado de Willem. - E agora eu o aconselho a ir para o seu quarto, a se comportar com calma e a esperar o que for disposto a seu respeito. Nós lhe recomendamos não se distrair com pensamentos inúteis, mas se concentrar, pois grandes exigências serão apresentadas ao senhor. Não nos tratou como a nossa boa vontade teria merecido. Esqueceu-se de que, não importa o que formos, diante do senhor somos no mínimo homens livres, e essa superioridade não é pequena. Apesar disso estamos dispostos, caso tenha dinheiro, a lhe trazer um lanche do café aí em frente.
Sem responder a essa oferta, K. ficou um instante em silêncio. Se abrisse a porta do quarto vizinho ou mesmo a porta da ante-sala, talvez os dois não ousassem impedi-lo, talvez a solução mais simples de todas fosse levar as coisas ao extremo. Mas talvez eles o agarrassem de fato e, uma vez lançado ao chão, estaria perdida também toda a superioridade que num certo sentido ele agora ainda conservava diante de ambos. Por isso, preferiu a segurança da solução que o curso natural das coisas tinha de trazer e voltou ao seu quarto, sem que fosse pronunciada nenhuma outra palavra da sua parte ou da parte dos guardas.
Atirou-se sobre sua cama e pegou da pia uma bela maçã que na noite anterior havia reservado para o café-da-manhã. Ela era agora sua única refeição matinal, mas de qualquer modo, como se assegurou à primeira grande mordida, muito melhor do que teria sido a do imundo café noturno que poderia ter recebido pela clemência dos guardas. Sentiu-se bem e confiante, estava na verdade perdendo o rumo da manhã no banco, mas graças ao posto relativamente alto que lá ocupava, isso era fácil de desculpar. Deveria apresentar a desculpa real? Pretendia fazê-lo. Se não acreditassem nele, o que nesse caso era compreensível, poderia apresentar como testemunha a senhora Grubach ou então os dois velhos do outro lado da rua, que agora certamente marchavam para a janela da frente. Surpreendia K. - pelo menos do ponto de vista dos guardas isso o surpreendia - que o tivessem metido no quarto e o deixado ali sozinho, onde sem dúvida tinha dezenas de possibilidades de se matar. Ao mesmo tempo, porém, se perguntou - dessa vez do seu próprio ponto de vista - que motivo poderia ter para fazer isso. Acaso porque os dois estavam sentados na sala ao lado e haviam interceptado o seu café-da-manhã? Seria tão sem sentido se matar que, mesmo que desejasse fazê-lo, não seria capaz, por causa dessa falta de sentido. Se a limitação intelectual dos guardas não fosse tão manifesta, poderia supor que também eles, em virtude da mesma convicção, não teriam enxergado perigo em deixá-lo só. Se quisessem, poderiam agora observar como se dirigia a um pequeno armário de parede, no qual guardava uma boa aguardente, esvaziava um cálice em substituição ao café-da-manhã e um segundo para criar coragem, este último só por precaução, no caso improvável de que ele fosse necessário.
Nesse momento um chamado da sala vizinha o assustou de tal modo que ele bateu com os dentes no cálice:
- O inspetor o está chamando!
Foi só o grito que assustou K., esse grito breve, escandido, militar, de que não julgava o guarda Franz de modo algum capaz. A ordem propriamente dita lhe era muito bem-vinda.
- Finalmente! - bradou de volta, fechou à chave o armário de parede e foi correndo para o aposento ao lado.
Lá estavam os dois guardas, que o acossaram de volta ao seu quarto, como se isso fosse natural.
- O que é que o senhor está pensando? - bradaram. - Quer se apresentar ao inspetor de camisolão? Ele vai mandar moê-lo de pancadas, e a nós também.
- Deixem-me em paz e vão para o inferno! - exclamou K., que já tinha sido encurralado até o seu guarda-roupa. - Se me pegam de surpresa na cama não podem esperar me ver de traje a rigor.
- Não adianta - disseram os guardas, que ficavam completamente calmos, quase tristes, quando K. gritava, e com isso o confundiam ou de algum modo o levavam à reflexão.
- Cerimônias ridículas! - resmungou ainda, mas logo ergueu um paletó da cadeira e o susteve um instante com as duas mãos, como se o submetesse ao julgamento dos guardas.
Eles sacudiram a cabeça.
- Tem de ser um paletó preto - disseram.
Diante disso K. jogou o paletó no chão e disse - ele mesmo não sabia em que sentido o estava dizendo:
- Mas ainda não é a audiência principal.
Os guardas sorriram, mas insistiram:
- Tem de ser um paletó preto.
- Se com isso eu apresso as coisas, então deve me convir - disse K., e abriu o guarda-roupa, procurou longo tempo entre as diversas roupas, escolheu seu melhor traje negro, um terno que, pelo corte, tinha causado quase sensação entre seus conhecidos, apanhou também uma camisa e começou a se vestir com esmero.
No íntimo acreditava ter conseguido apressar as coisas com o fato de que os guardas haviam se esquecido de forçá-lo a tomar banho. Observou-os para ver se por acaso eles iriam se lembrar disso, mas naturalmente nada lhes ocorreu; ao contrário, Willem não se esqueceu de mandar Franz ir ao inspetor com a informação de que K. estava se vestindo.
Quando estava completamente vestido, teve de passar pela sala vazia, bem diante de Willem, para o quarto seguinte, cujas portas já estavam abertas de par em par. Esse quarto, como K. sabia muito bem, era habitado desde havia pouco tempo pela senhorita Bürstner, uma datilógrafa que costumava ir trabalhar muito cedo, voltava tarde para casa, e com a qual K. não havia trocado muito mais do que cumprimentos. Agora a mesinha-de-cabeceira tinha sido removida da cama para o meio do quarto como mesa de audiência, e o inspetor estava sentado atrás dela. Tinha cruzado as pernas e colocado um braço sobre o espaldar da cadeira.
Num canto do quarto estavam três moços, olhando as fotografias da senhorita Bürstner, fixadas numa esteira pendurada na parede. Do trinco da janela aberta pendia uma blusa branca. Na janela de frente estavam outra vez os dois velhos, mas o grupo fora ampliado, pois atrás deles havia um homem de estatura muito mais alta, com uma camisa aberta no peito, apertando e torcendo com os dedos o cavanhaque ruivo.
- Josef K.? - perguntou o inspetor, talvez só para atrair sobre si os olhos distraídos de K.
K. assentiu com a cabeça.
- Certamente o senhor está muito surpreso com os acontecimentos da manhã de hoje, não é? - perguntou o inspetor e empurrou com as duas mãos os poucos objetos que jaziam sobre a mesinha-de-cabeceira, a vela com os palitos de fósforo, um livro e uma almofada de agulhas de costura, como se fossem esses os objetos de que necessitava para a audiência de instrução.
- Sem dúvida - disse K., acometido pelo sentimento de bem-estar por finalmente se achar diante de uma pessoa razoável e de poder falar com ela sobre o seu caso. - Sem dúvida estou surpreso, mas de modo algum muito surpreso.
- Não muito surpreso? - perguntou o inspetor, pondo então a vela no centro da mesinha, enquanto agrupava as outras coisas em torno dela.
- Talvez o senhor esteja me entendendo mal - apressou-se K. a observar. - O que eu quero dizer - aqui K. se interrompeu e olhou em volta à procura de uma cadeira. - Posso me sentar, não? - perguntou.
- Não é costume - respondeu o inspetor.
- O que eu quero dizer - disse então K. sem fazer mais pausas - é que, seja como for, estou muito surpreso, mas quando se está há trinta anos no mundo e foi preciso abrir caminho nele sozinho, como é o meu caso, fica-se endurecido diante das surpresas, e elas acabam não sendo levadas tão a sério. Especialmente a de hoje, não.
- Por que não especialmente a de hoje?
- Não estou querendo dizer que considero tudo uma brincadeira, para tanto os preparativos que foram feitos me parecem abrangentes demais. Teriam de participar dela todos os integrantes da pensão, os senhores todos também, e isso iria além dos limites de uma brincadeira. Portanto, não quero dizer que seja uma brincadeira.
- Muito justo - disse o inspetor, verificando quantos palitos havia na caixa de fósforos.
- Mas por outro lado - continuou K. e nesse ato se voltou para todos; gostaria inclusive de se dirigir aos três que estavam de costas olhando as fotografias -, por outro lado o caso também não pode ter tanta importância. Tiro essa conclusão do fato de ser acusado e não conseguir descobrir a mínima culpa da qual me pudessem acusar. Isso também é secundário, a questão principal é: por quem sou acusado? Que autoridade conduz o processo? Os senhores são funcionários? Nenhum está de uniforme, caso não se queira chamar de uniforme a roupa que vestem - e aqui se voltou para Franz -, pois ela é antes um traje de viagem. Nessas questões eu exijo clareza e estou convencido de que depois desse esclarecimento vamos poder nos despedir uns dos outros da forma a mais cordial possível.
O inspetor bateu a caixa de fósforos na mesa.
- O senhor está cometendo um grande engano - disse ele. - Estes senhores aqui e eu somos totalmente secundários no seu caso, na verdade não sabemos quase nada dele. Poderíamos estar com os uniformes mais regulamentares e o seu caso não seria em nada pior. Não posso absolutamente lhe dizer que é acusado, ou melhor: não sei se o é. O senhor está detido, isso é certo, mais eu não sei. Talvez os guardas tenham tagarelado outra coisa, mas aí foi só tagarelice. Mesmo, porém, que eu não responda às suas perguntas, posso entretanto aconselhar o senhor a pensar menos em nós e no que vai acontecer e mais em si mesmo. E não faça tanto alarde do seu sentimento de inocência, isso perturba a impressão não exatamente má que de resto o senhor transmite. Deveria também ser mais reservado ao falar; quase tudo o que disse antes poderia ter sido deduzido do seu comportamento, ainda que tivesse dito apenas algumas palavras; além disso, não foi nada de extremamente favorável ao senhor.
K. fitou o inspetor. Estava ali como um escolar recebendo lições de uma pessoa talvez muito mais jovem? Sendo punido por sua franqueza com uma reprimenda? E sobre o motivo da sua detenção e a respeito dos seus mandantes, não ficava sabendo nada? Entrou numa certa agitação, andou de cá para lá, no que ninguém o impediu, empurrou para dentro os punhos da camisa, apalpou o peito, alisou os cabelos, passou pelos três senhores e disse:
- Isto não faz sentido.
Os três se viraram para ele, fitando-o atenciosamente mas com ar grave. Finalmente K. estacou outra vez diante da mesa do inspetor.
- O promotor público Hasterer é meu amigo - disse. - Posso telefonar para ele?
- Certamente - disse o inspetor -, mas não sei qual o sentido disso, a não ser que tenha algum assunto particular para tratar com ele.
- Qual o sentido? - exclamou K. mais perplexo que irritado. - Quem é o senhor, afinal? Quer um sentido e executa a coisa mais sem sentido que existe? Isso não é de fazer chorar? Primeiro esses senhores me tomam de assalto e agora ficam aí, sentados ou em pé, me fazendo dançar na corda bamba à sua frente. Que sentido teria telefonar a um promotor público, se ao que parece estou detido? Está bem, não vou telefonar.
- Mas, por favor, faça isso - disse o inspetor, estendendo a mão para a ante-sala onde estava o aparelho. - Telefone, sim, por favor.
- Não, não quero mais - disse K. e foi até a janela.
Do outro lado da rua, o grupo ainda estava na janela, mas agora parecia um pouco perturbado no sossego da contemplação pelo fato de K. ter chegado à janela. Os velhos tentaram se levantar, mas o homem atrás deles os tranqüilizou.
- E ainda por cima temos espectadores! - bradou K. para o inspetor, apontando-os com o indicador. - Fora daí! - gritou a seguir em direção ao outro lado.
Imediatamente os três recuaram alguns passos, os dois velhos até mesmo para trás do homem, que os cobriu com o seu corpo largo e que, a julgar pelos movimentos da boca, disse alguma coisa ininteligível à distância. Mas não desapareceram completamente, parecendo antes esperar o momento em que pudessem se aproximar outra vez da janela sem serem notados.
- Que gente mais intrometida e sem consideração! - disse K. ao se voltar para dentro do quarto.
Possivelmente o inspetor concordou com ele, conforme K. acreditou perceber com um olhar de soslaio. Mas era igualmente possível que ele não tivesse escutado nada, pois apertava com força uma das mãos sobre a mesa e parecia comparar o comprimento dos dedos. Os dois guardas estavam sentados numa mala envolta numa toalha de enfeite e esfregavam os joelhos. Os três moços haviam colocado as mãos nos quadris e olhavam em torno, sem objetivo. Estava silencioso como em algum escritório esquecido.
- Bem, meus senhores - exclamou K., e por um instante lhe pareceu estar carregando todos eles nos ombros -, a julgar pela sua aparência, meu caso poderia estar encerrado. Sou da opinião de que o melhor é não pensar mais sobre a justificativa ou a falta de justificativa do seu comportamento e pôr um fim conciliador ao caso com um aperto de mãos. Se os senhores têm a mesma opinião que eu, então por favor - e se achegou à mesa do inspetor estendendo-lhe a mão.
O inspetor levantou os olhos, mordiscou os lábios e fitou a mão estendida de K.; este continuou acreditando que ele iria apertá-la. Mas o inspetor se ergueu, pegou um chapéu duro e redondo que estava sobre a cama da senhorita Bürstner e o colocou cuidadosamente com as duas mãos, como se faz ao experimentar chapéus novos.
- Como tudo lhe parece simples! - disse então a K. - Deveríamos pôr um fim conciliador ao caso, é o que estava dizendo? Não, não, realmente isso não é possível. Por outro lado, não quero dizer de modo algum que o senhor deva se desesperar. Não; por quê, aliás? O senhor está apenas detido, nada mais. Eu tinha isso a lhe comunicar, já o fiz e vi também como o senhor o recebeu. Sendo assim, por hoje basta; podemos nos despedir, embora só provisoriamente. Decerto agora o senhor quer ir ao banco, não é?
- Ao banco? - perguntou K. - Pensei que estivesse detido.
K. fez a pergunta com certa insolência, pois embora o seu aperto de mão não tivesse sido aceito, ele se sentia cada vez mais independente daquelas pessoas, sobretudo a partir do instante em que o inspetor se levantou. Estava jogando com ela. Tinha a intenção, caso devessem ir embora, de correr atrás deles até a entrada do prédio para propor que o prendessem. Por isso repetiu:
- Como posso ir ao banco se estou detido?
- Ah, sim - disse o inspetor, que já estava perto da porta. - O senhor me entendeu mal. É claro que o senhor está detido, mas isso não deve impedi-lo de exercer sua profissão. Tampouco deve ficar tolhido no seu modo de vida habitual.
- Então estar detido não é tão ruim - disse K. e se aproximou do inspetor.
- Nunca afirmei o contrário - replicou este.
- Mas então nem o anúncio da detenção parece ter sido muito necessário - disse K. aproximando-se mais.
Os outros também haviam se aproximado. Agora estavam todos reunidos num estreito espaço junto à porta.
- Era meu dever - disse o inspetor.
- Um dever estúpido - disse K., inflexível.
- Pode ser - respondeu o inspetor. - Mas não vamos perder o nosso tempo com conversas desse tipo. Eu havia presumido que o senhor queria ir ao banco. Já que presta atenção em todas as palavras, eu acrescento: não o estou coagindo a ir ao banco, apenas supus que o senhor quisesse. E para lhe facilitar isso e tornar sua chegada ao banco o mais possível despercebida, coloquei estes três senhores, seus colegas, à sua disposição.
- Como? - exclamou K. e olhou os três com espanto.
Aqueles três jovens tão indistintos, anêmicos, que ele ainda conservava na memória apenas como um grupo junto às fotografias, eram efetivamente funcionários do seu banco, não colegas - isso era dizer demais e demonstrava uma lacuna na onisciência do inspetor; mas de qualquer modo eram funcionários subalternos do banco. Como é que K. não o tinha notado? Como devia estar absorvido pelo inspetor e pelos guardas para não reconhecer os três! O rígido Rabensteiner de mãos balouçantes, o loiro Kullich de olhos encovados e Kaminer com o seu insuportável sorriso provocado por uma contração crônica dos músculos.
- Bom dia - disse K. depois de um breve instante, estendendo a mão aos três que se inclinavam adequadamente. - Não os reconheci de modo algum. Vamos então ao trabalho, não é?
Eles acenaram com a cabeça, sorridentes e pressurosos, como se tivessem esperado por isso o tempo todo, só que, quando K. esqueceu o chapéu, que havia ficado no quarto, eles correram juntos, um atrás do outro, para apanhá-lo, do que se podia deduzir um certo embaraço. K. ficou parado e pelas duas portas abertas os acompanhou com o olhar; naturalmente, o último era o indiferente Rabensteiner, que apenas tomou impulso para um trote elegante. Kaminer entregou o chapéu e K. teve de dizer explicitamente a si mesmo, como aliás era quase sempre necessário no banco, que o sorriso de Kaminer não era deliberado, que ele nem mesm antes e que até mesmo havia esperado.
- Não olhe para lá! - prorrompeu ele, sem perceber como chamava a atenção esse modo de falar com homens adultos.
Mas nenhuma explicação foi necessária, pois nesse momento chegou o carro, eles se sentaram e o automóvel partiu. K. se lembrou, então, de que não tinha notado de maneira alguma a partida do inspetor e dos guardas, o inspetor lhe havia ocultado os três funcionários e estes por sua vez o inspetor. Isso não demonstrava muita presença de espírito e K. se propôs a observar as coisas com mais acuidade nesse aspecto. Não obstante, ainda se virou involuntariamente e se debruçou sobre a janela traseira do automóvel para, se possível, ainda ver o inspetor e os guardas. Mas logo voltou à posição anterior e se inclinou confortavelmente no canto do carro sem fazer nenhuma tentativa de procurar alguém. Embora não parecesse, justamente agora precisava de uma palavra de encorajamento, mas aqueles senhores pareciam fatigados, Rabensteiner estava sentado à direita olhando para fora, Kullich à esquerda e Kaminer ficara à disposição com o seu ricto, do qual o senso de humanidade infelizmente impedia de zombar.
[...]