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Companhia de Bolso
CISNES SELVAGENS (EDIÇÃO DE BOLSO)
Jung Chang



1. "Lírios dourados de oito centímetros"
CONCUBINA DE UM GENERAL-CAUDILHO (1909-1933)

Aos quinze anos, minha avó tornou-se concubina de um general-caudilho, o chefe de polícia de um precário governo nacional da China. O ano era 1924, e a China estava tomada pelo caos. Grande parte dela, inclusive a Manchúria, onde vivia minha avó, era governada por caudilhos. A ligação foi acertada pelo pai dela, um funcionário da polícia na cidade provincial de Yixian, no sudoeste da Manchúria, a uns cento e cinqüenta quilômetros da Grande Muralha e trezentos e oitenta a nordeste de Pequim.
Como a maioria das cidadezinhas da China, Yixian fora construída como uma fortaleza. Era cercada por muros erguidos durante a dinastia Tang (618-907 d.C.), de nove metros e setenta e cinco de altura e três metros e sessenta de espessura, encimados por ameias e pontilhados por dezesseis fortes a intervalos regulares, e largos o suficiente para se cavalgar com facilidade em seu topo. Quatro portas davam para o interior da cidade, uma em cada ponto cardeal, com portões externos de proteção, e as fortificações eram cercadas por um profundo fosso.
O traço mais conspícuo da cidade era uma torre de campanário alta, ricamente decorada, de pedra parda escura, construída no século VI, quando o budismo fora introduzido na área. Toda noite o sino tocava, para marcar a hora, e a torre também funcionava como alarme de incêndio e inundação. Yixian era a sede de um próspero mercado. As planícies em volta produziam algodão, milho, sorgo, soja, gergelim, peras, maçãs e uvas. Nas áreas de capim e nas colinas a oeste, os agricultores punham a pastar carneiros e bois.
Meu bisavô, Yang Ru-shan, nasceu em 1894, quando toda a China era governada por um imperador que vivia em Pequim. A família imperial era manchu, dos manchus que, em 1644, haviam conquistado a China a partir da Manchúria, a base deles. Os Yang eram han, chineses étnicos, e tinham se aventurado ao norte da Grande Muralha em busca de oportunidades.
Meu bisavô era filho único, o que o fazia de suprema importância para a família. Só um filho podia perpetuar o nome da família - sem ele, ela chegaria ao fim, o que, para os chineses, equivalia à maior traição possível aos ancestrais. Mandaram-no para uma boa escola. O objetivo era que passasse nos exames para tornar-se mandarim, um funcionário, aspiração da maioria dos homens chineses da época. Ser funcionário dava poder, e o poder dava dinheiro. Sem poder ou dinheiro, nenhum chinês podia sentir-se a salvo das depredações do oficialismo ou da violência cega. Jamais houvera um sistema legal eficiente. A justiça era arbitrária, e a crueldade, institucionalizada e caprichosa. Um funcionário com poder era a lei. Tornar-se mandarim era a única forma de o filho de uma família não nobre escapar desse círculo de injustiça e medo. O pai de Yang decidira que o filho não o seguiria na empresa da família, de fabricação de feltro, e sacrificou-se a si e à família para pagar a educação do filho. As mulheres aceitavam costura para os marinheiros e fabricantes de roupas locais, mourejando até tarde da noite. Para economizar dinheiro, deixavam a chama dos candeeiros de óleo no mínimo absoluto, causando danos permanentes aos olhos. As juntas dos dedos inchavam com as longas horas de trabalho.
Seguindo o costume, meu bisavô casou-se cedo, aos catorze anos, com uma mulher seis anos mais velha. Considerava-se um dos deveres da esposa ajudar a criar o marido.
A história dessa esposa, minha bisavó, foi típica de milhões de mulheres de seu tempo. Vinha de uma família de tanoeiros chamada Wu. Como a família não era intelectual nem tinha nenhum cargo oficial, e como ela era menina, não recebera nome algum. Sendo a segunda filha, era simplesmente chamada "Menina Número Dois" (Er-ya-tou). O pai morrera quando ela era bebê, e ela fora criada por um tio. Um dia, quando tinha seis anos, o tio jantava com um amigo cuja esposa estava grávida. No jantar, os dois homens concordaram que se o bebê fosse homem seria casado com a sobrinha de seis anos. Os dois jovens nunca se viram antes do casamento. Na verdade, apaixonar-se era considerado quase uma vergonha, uma desgraça para a família. Não porque fosse tabu - afinal, havia uma venerável tradição de amor romântico na China - mas porque se esperava que os jovens não se expusessem a situações em que acontecesse uma coisa dessas, em parte porque era imoral se encontrarem, e em parte porque o casamento era visto acima de tudo como uma obrigação, um acordo entre duas famílias. Com sorte, a pessoa podia apaixonar-se depois de casada.
Aos catorze anos, e tendo vivido uma vida protegida, meu bisavô era pouco mais que um menino na época do casamento. Na primeira noite, não quis entrar no quarto nupcial. Foi para a cama da mãe e teve de ser levado para a noiva depois de adormecer. Mas, embora fosse uma criança mimada e ainda precisasse de ajuda para vestir-se, sabia "plantar crianças", segundo a esposa. Minha avó nasceu um ano depois do casamento, no quinto dia da quinta lua, no início do verão de 1909. Estava em melhor posição que a mãe, pois lhe deram um nome de fato: Yu-fang. Yu, que significa "jade", era o nome de sua geração, dado aos rebentos de uma mesma geração, e fang quer dizer "flores de cheiro".
O mundo em que ela nasceu era de total imprevisibilidade. O Império Manchu, que dominara a China por mais de duzentos e sessenta anos, oscilava. Em 1894-95 o Japão atacou a China na Manchúria, com os chineses sofrendo devastadoras derrotas e perda de território. Em 1900, a revolta nacionalista dos boxers foi sufocada por oito exércitos estrangeiros, que deixaram tropas na China, algumas na Manchúria e outras ao longo da Grande Muralha. A vitória japonesa tornou o Japão a força externa dominante na Manchúria. Em 1911, o imperador da China, Pu Yi, de cinco anos, foi derrubado e estabeleceu-se uma República, tendo por breve tempo a carismática figura de Sun Yat-sen como chefe.
O novo governo republicano logo caiu, e o país dividiu-se em feudos. A Manchúria era particularmente hostil à República, já que a dinastia se originara lá. As potências estrangeiras, sobretudo o Japão, intensificaram suas tentativas de entrar na área. Debaixo dessas pressões, as velhas instituições desmoronaram, resultando num vazio de poder, moralidade e autoridade. Muita gente tentava subir subornando potentados locais com presentes caros como ouro, prata e jóias. Meu bisavô não era rico o bastante para comprar uma posição lucrativa numa cidade grande, e quando tinha trinta anos ainda não chegara acima de funcionário da delegacia de polícia de sua Yixian natal, um sertão provincial. Mas tinha planos. E um bem valioso - a filha.


Minha avó era uma beldade. Tinha um rosto oval, faces róseas e pele acetinada. Os cabelos longos e brilhantes eram entretecidos numa grossa trança que lhe chegava à cintura. Sabia ser recatada quando a ocasião exigia, ou seja, na maior parte do tempo, mas por baixo da aparência impassível estuava de energia reprimida. Era mignon, cerca de um metro e sessenta, com um corpo esguio e ombros arredondados, considerados o ideal.
Mas seu grande tesouro eram os pés enfaixados, chamados na China de "lírios dourados de oito centímetros" (san-tsun-gin-lian). Isso queria dizer que ela andava "parecendo um tenro broto de salgueiro na brisa da primavera", como diziam tradicionalmente os connaisseurs de mulheres chineses. Supunha-se que a visão de uma mulher oscilando sobre pés enfaixados tivesse um efeito erótico sobre os homens, em parte porque sua vulnerabilidade provocava um sentimento de proteção no observador.
Os pés de minha avó foram enfaixados quando ela completara dois anos. A mãe, que tinha ela própria os pés enfaixados, primeiro enrolou um pedaço de pano branco de uns seis metros de comprimento em torno dos pés dela, dobrando todos os dedos, com exceção do dedão, para dentro, sob as solas. Depois colocou uma grande pedra em cima para esmagar o arco. Minha avó gritava de dor e pedia-lhe que parasse. A mãe teve de amarrar-lhe um pano na boca, para amordaçá-la. Minha avó desmaiou várias vezes de dor.
O processo durava vários anos. Mesmo depois de quebrados todos os ossos, os pés tinham de ser enfaixados dia e noite com pano grosso, porque assim que eram soltos tentavam recuperar-se. Durante anos minha avó viveu com dores constantes e excruciantes. Quando implorava à mãe que desamarrasse as faixas, a mãe chorava e dizia-lhe que os pés desatados arruinariam toda a sua vida, e que fazia aquilo para a futura felicidade dela.
Naquele tempo, quando uma mulher se casava, a primeira coisa que a família do noivo fazia era examinar seus pés. Achava-se que os grandes, ou seja, normais, traziam vergonha à casa do marido. A sogra erguia a bainha da saia comprida da noiva, e se os pés tivessem mais de doze centímetros ela soltava a saia num demonstrativo gesto de desprezo e afastava-se pisando forte, deixando a moça entregue aos olhares críticos dos convidados das bodas, que olhavam os pés dela e murmuravam seu desdém insultante. Às vezes a mãe se apiedava da filha e retirava a faixa; mas quando a criança crescia, e tinha de enfrentar o desprezo da família do marido e a desaprovação da sociedade, culpava a mãe por ter sido fraca demais.
A prática do enfaixamento fora introduzida originalmente cerca de mil anos atrás, supostamente por uma concubina do imperador. Não apenas se considerava erótica a visão de uma mulher cambaleando sobre pés minúsculos, mas os homens se excitavam com eles, sempre ocultos sob sapatos de seda bordada. As mulheres não podiam retirar as faixas nem quando já estavam adultas, pois os pés recomeçariam a crescer. A faixa só podia ser afrouxada temporariamente à noite na cama, quando elas calçavam sapatos de sola mole. Os homens raramente viam nus os pés enfaixados, em geral cobertos de carne podre e malcheirosos quando se retiravam as faixas. Lembro-me de, quando criança, ver minha avó em sofrimento constante. Quando voltávamos das compras, a primeira coisa que ela fazia era mergulhar os pés numa bacia de água quente, suspirando de alívio. Depois punha-se a cortar os pedaços de pele morta, A dor vinha não apenas dos ossos quebrados, mas também das unhas, que se enterravam nas plantas dos pés.
Na verdade, os pés de minha avó foram enfaixados no momento em que essa prática estava desaparecendo para sempre. Quando a irmã dela nasceu, em 1917, isso já fora praticamente abandonado, e ela escapou do tormento.
Contudo, quando minha avó era criança, a atitude predominante numa cidadezinha como Yixian ainda era de que os pés enfaixados eram essenciais para um bom casamento - mas não passavam de um bom começo. Os planos do pai dela eram de treiná-la como uma perfeita dama ou uma cortesã de alta classe. Desprezando a sabedoria aceita da época - de que era virtuoso uma mulher de baixa classe ser analfabeta - mandou-a para uma escola feminina que se instalara na cidade em 1905. Ela também aprendeu a jogar xadrez chinês, mah-jong e go. Estudou desenho e bordado. Seu desenho favorito eram patos mandarim (que simbolizam o amor, porque sempre nadam aos pares), e bordava-os nos minúsculos sapatos que fazia para si. Para coroar sua lista de prendas, contratou-se um tutor para ensinar-lhe a tocar qin, um instrumento musical semelhante à cítara.
Minha avó era considerada a beldade da cidade. O pessoal local dizia que ela se destacava "como um grou no meio de galinhas". Em 1924 ela tinha quinze anos, e o pai se preocupava com o tempo passando sobre seu único bem de fato - e sua única oportunidade de uma vida confortável. Naquele ano, o general Xue Zhi-heng, inspetor-geral da Polícia Metropolitana do governo caudilho de Pequim, foi fazer-lhes uma visita.


Xue Zhi-heng nasceu em 1876, no município de Lulong, cerca de cento e cinqüenta quilômetros a leste de Pequim, e pouco ao sul da Grande Muralha, onde a imensa planície da China encontra as montanhas. Era o mais velho dos quatro filhos de um mestre-escola rural.
Era bonitão e tinha uma presença forte, que impressionava a todos que o conheciam. Vários adivinhos cegos que apalparam o rosto dele previram que ia ascender a uma posição poderosa. Era um calígrafo talentoso, um talento tido em alta conta, e em 1908 um caudilho chamado Wang Huaiqing, em visita a Lulong, notou a bela caligrafia numa placa sobre o portão do templo principal e pediu para conhecer o homem que a fizera. O general Wang gostou de Xue, que estava com trinta e dois anos, e convidou-o a tornar-se seu ajudante-de-campo.
Ele revelou-se extremamente eficiente, e logo foi promovido a oficial intendente. Isso significava extensas viagens, e ele começou a adquirir lojas de alimentos em torno de Lulong e no outro lado da Grande Muralha, na Manchúria. Sua rápida ascensão recebeu um impulso quando ajudou o general Wang a sufocar um levante na Mongólia Interior. Quase de uma hora para outra, tinha acumulado uma fortuna, e projetou e construiu para si uma mansão de oitenta e um cômodos em Lulong.
Na década seguinte ao fim do império, nenhum governo estabeleceu autoridade sobre o país todo. Caudilhos poderosos logo estavam lutando pelo controle do governo central em Pequim. A facção de Xue, chefiada por um caudilho chamado Wu Pei-fu, dominou o governo nominal em Pequim no início da década de 1920. Em 1922, Xue tornou-se inspetor-geral da Polícia Metropolitana e um dos chefes do Departamento de Obras Públicas em Pequim. Comandava vinte regiões dos dois lados da Grande Muralha, e mais de 10 mil membros da polícia montada e a pé. O trabalho na polícia dava-lhe poder; o nas obras públicas dava-lhe patronato.
As alianças eram instáveis. Em maio de 1923, a facção do general Xue decidiu livrar-se do presidente, Li Yuan-hong, que ela mesma instalara no cargo apenas um ano antes. Em conluio com um general chamado Feng Yu-xiang, um caudilho cristão que se tornou lendário ao batizar seus soldados en masse com uma mangueira de incêndio, Xue mobilizou seus 10 mil soldados e cercou os prédios principais do governo em Pequim, exigindo o pagamento atrasado que o governo falido devia a seus homens. O verdadeiro objetivo era humilhar o presidente Li e obrigá-lo a deixar o cargo. Li recusou-se a renunciar, e Xue mandou seus homens desligarem a água e a eletricidade do palácio presidencial. Após alguns dias, as condições dentro do prédio se tornaram insuportáveis, e na noite de 13 de junho o presidente Li abandonou sua malcheirosa residência e fugiu da capital para a cidade portuária de Tianjin, cem quilômetros ao sudeste.
Na China, a autoridade de um cargo público estava não apenas na pessoa do detentor, mas nos timbres oficiais. Nenhum documento era válido, mesmo quando assinado pelo presidente, se não trouxesse o seu timbre. Sabendo que ninguém podia assumir a Presidência sem ele, o presidente Li deixou o timbre com uma de suas concubinas, que convalescia num hospital de Pequim dirigido por missionários franceses.
Quando o presidente Li se aproximava de Tianjin, seu trem foi detido pela polícia armada, que lhe ordenou que entregasse os timbres. A princípio ele se recusou a dizer onde os escondera, mas após várias horas cedeu. Às três horas da manhã o general Xue foi ao hospital francês pegar os timbres com a concubina. Quando apareceu ao lado dela, a concubina a princípio se recusou até a olhar para ele. "Como posso entregar os timbres do presidente a um simples policial?", disse, altiva. Mas o general Xue, resplendente em uniforme completo, parecia tão intimidante que ela logo pôs mansamente os timbres nas mãos dele.
Nos quatro meses seguintes, Xue usou sua polícia para assegurar que o homem que sua facção queria na Presidência, Tsao Kun, ganharia o que se anunciava como uma das primeiras eleições da China. Os oitocentos e quatro membros do Parlamento tiveram de ser subornados. Xue e o general Feng puseram guardas no prédio do Parlamento e informaram que haveria uma bela recompensa para quem votasse do modo certo, o que trouxe muitos deputados correndo de volta das províncias. Quando tudo estava pronto para a eleição, havia quinhentos e cinqüenta e cinco membros do Parlamento em Pequim. Quatro dias antes da eleição, após muitas barganhas, cada um deles recebeu 5 mil yuans, uma soma mais ou menos substancial. A 5 de outubro de 1923, Tsao Kun foi eleito presidente da China com quatrocentos e oitenta votos. Xue foi recompensado com a promoção ao generalato pleno. Também foram promovidas dezessete "consultoras especiais" - todas amantes ou concubinas favoritas de vários caudilhos e generais. Esse episódio entrou na história da China como um exemplo notório de como se pode manipular uma eleição. As pessoas ainda o citam para afirmar que a democracia não dará certo na China.
No início do verão do ano seguinte, o general Xue visitou Yixian. Embora não fosse uma grande cidade, era estrategicamente importante. Era ali que o poder do governo de Pequim começava a acabar. Adiante, o poder estava nas mãos do grande caudilho do Nordeste, Chang Tso-lin, conhecido como o Velho Marechal. Oficialmente, o general Xue se achava em viagem de inspeção, mas ele também tinha alguns interesses especiais na área. Em Yixian, era dono dos principais depósitos de grãos e das maiores lojas, incluindo a de penhores, que funcionava como banco e emitia seu próprio dinheiro, que circulava na cidade e na área em torno.
Para meu bisavô, aquela era uma oportunidade única, o mais perto que ele algum dia chegaria de um verdadeiro vip. Manobrou para lhe darem a tarefa de escoltar o general Xue, e disse à esposa que ia casar a filha com ele. Não pediu a concordância da esposa; simplesmente informou-a. Além de ser este o costume da época, meu bisavô desprezava a esposa. Ela chorou, mas não disse nada. Ele lhe ordenou que não murmurasse uma palavra com a filha. Não se cogitava de consultá-la. O casamento era uma transação, não uma questão de sentimentos. Ela seria informada quando o casamento estivesse acertado.
Meu bisavô sabia que a abordagem ao general Xue tinha de ser indireta. Uma oferta explícita da mão da filha baixaria o preço dela, e também havia a possibilidade de recusa. O general Xue tinha de ter uma oportunidade de ver o que lhe ofereciam. Naquele tempo as mulheres respeitáveis não podiam ser apresentadas a homens estranhos, de modo que Yang tinha de criar uma oportunidade para o general Xue ver sua filha. O encontro tinha de ser acidental.
Em Yixian, havia um magnífico templo budista de novecentos anos, feito de madeiras preciosas e com uns trinta metros de altura. Ficava dentro de um recinto elegante, com filas de ciprestes, que cobria uma área de quase dois mil metros quadrados. Dentro havia uma estátua de madeira do Buda, de nove metros de altura, e o interior do templo era coberto com delicados murais descrevendo a sua vida. Era um lugar óbvio para Yang levar o importante convidado. E os templos incluíam-se entre os poucos lugares a que mulheres de boas famílias podiam ir sozinhas.
Mandaram minha avó ir ao templo num determinado dia. A fim de mostrar sua reverência a Buda, ela tomou banhos perfumados e passou longas horas meditando diante do incenso que ardia num pequeno santuário. Para orar no templo, devia achar-se em estado de máxima tranqüilidade e livre de toda emoção inquietante. Ela partiu numa carruagem alugada, acompanhada de uma criada. Usava uma jaqueta azul-ovo-de-pata, as bordas debruadas com fio de ouro para destacar as linhas simples, com botões em forma de borboleta correndo o lado esquerdo. Também usava uma saia de pregas cor-de-rosa, toda bordada com flores minúsculas. Trazia os cabelos compridos enrolados numa trança única. Entremostrando-se no alto da cabeça, uma peônia de seda verde-escura, da espécie mais rara. Não usava maquilagem, mas estava ricamente perfumada, como se considerava adequado para visitar um templo. Uma vez lá dentro, ela se ajoelhou diante da estátua gigantesca de Buda. Fez várias reverências à imagem de madeira e depois ficou ajoelhada diante dela, as mãos juntas em prece.
Enquanto ela rezava, seu pai chegou com o general Xue. Os dois ficaram olhando do corredor escuro. Meu bisavô planejara bem. A posição em que minha avó se ajoelhava revelava não apenas suas calças de seda, debruadas de ouro como a túnica, mas também os pés minúsculos nos sapatos de cetim bordado.
Quando acabou de rezar, minha avó fez três reverências a Buda. Ao se levantar, perdeu ligeiramente o equilíbrio, o que era fácil com os pés enfaixados. Estendeu o braço de donzela para apoiar-se. O general Xue e o pai dela acabavam de mexer-se para adiantar-se. Ela enrubesceu e baixou a cabeça, depois virou-se e começou a afastar-se, que era o certo. O pai adiantou-se e apresentou-a ao general. Ela fez uma reverência, mantendo sempre a cabeça baixa.
Como cabia a um homem de sua posição, o general não disse muita coisa sobre o encontro a Yang, que não passava de um subordinado, mas meu bisavô pôde ver que ele ficara fascinado. O próximo passo era maquinar um encontro mais direto. Uns dois dias depois, Yang, arriscando a falência, alugou o melhor teatro na cidade e encenou uma ópera local, chamando o general Xue como convidado de honra. Como a maioria dos teatros chineses, aquele fora construído em torno de um espaço retangular a céu aberto, com estruturas de madeira em três lados; o quarto formava o palco, completamente vazio: não tinha cortinas nem cenários. A área da platéia parecia mais um café do que um teatro ocidental. Os homens sentaram-se às mesas no retângulo aberto, comendo, bebendo e falando alto durante toda a representação. Ao lado, elevado, ficava o círculo feminino, onde as damas se sentavam recatadamente a mesas menores, enquanto as criadas ficavam atrás, de pé. Minha bisavó arrumara tudo de modo a sua filha ficar num lugar onde o general Xue pudesse vê-la facilmente.
Dessa vez ela estava muito mais embonecada que no templo. Usava um vestido de cetim muito bordado, e tinha jóias nos cabelos. Também mostrava sua vivacidade e energia naturais, rindo e conversando com as amigas. O general Xue mal olhou para o palco.
Após o espetáculo houve um jogo tradicional chinês chamado charada da lanterna. Isso se dava em dois salões separados, um para homens e outro para mulheres. Em cada salão havia dezenas de elaboradas lanternas, das quais pendiam charadas em versos. A pessoa que adivinhasse a maior parte das respostas ganhava um prêmio. Entre os homens, o general Xue foi o vencedor, claro. Entre as mulheres, minha avó.
Yang já dera ao general Xue uma boa oportunidade de apreciar a beleza e inteligência de sua filha. A qualificação final era o talento artístico. Duas noites depois ele convidou o general a jantar em sua casa. Estava uma noite límpida e cálida, com uma lua cheia - cenário clássico para ouvir o qin. Após o jantar, os dois homens sentaram-se na varanda e minha avó foi convidada a tocar no pátio. Sentada sob uma treliça, o cheiro dos lilases no ar, seu desempenho encantou o general Xue. Depois ele diria que a arte dela naquela noite ao luar conquistara seu coração. Quando minha mãe nasceu, ele lhe deu o nome de Bao Qin, que significa "Cítara Preciosa".
Antes que a noite acabasse, ele já se declarara - não a minha avó, claro, mas ao pai dela. Não propunha casamento, só que minha avó se tornasse sua concubina. Mas Yang não esperara nada mais. A família Xue já teria arranjado muito antes um casamento socialmente adequado para o general. De qualquer modo, os Yang eram humildes demais para oferecer uma esposa. Mas esperava-se que um homem como o general Xue tomasse concubinas. As esposas não eram para o prazer - para isso havia as concubinas. Estas podiam conquistar um poder considerável, mas seu status social era bastante diferente do de uma esposa. A concubina era uma espécie de amante institucionalizada, adquirida e descartada à vontade.
A primeira vez que minha avó soube de sua ligação iminente foi quando a mãe lhe deu a notícia, poucos dias antes do acontecimento. Minha avó baixou a cabeça e chorou. Detestava a idéia de ser concubina, e era impensável opor-se aos pais. Questionar uma decisão paterna era considerado "não filial" - e não ser filial equivalia a traição. Mesmo que se recusasse a consentir com os desejos do pai, não seria levada a sério; seu ato seria interpretado como uma indicação de que queria continuar com os pais. A única maneira de dizer não e ser levada a sério seria suicidar-se. Minha avó mordeu o lábio e não disse nada. Na verdade, nada havia a dizer. Até mesmo dizer sim seria considerado indigno de uma dama, pois achariam que ela estava ansiosa para deixar os pais.
Vendo sua infelicidade, a mãe passou a dizer-lhe que aquela era a melhor união possível. O marido falara-lhe do poder do general Xue: "Em Pequim se diz: 'Quando ele bate o pé, toda a cidade treme'". Na verdade, minha avó tinha caído pelo porte bonitão e marcial do general. E ficara lisonjeada com as palavras de admiração que ele dissera sobre ela a seu pai, e que eram agora enfeitadas e bordadas. Nenhum dos homens de Yixian era tão impressionante quanto o general-caudilho. Aos quinze anos, ela não tinha idéia do que realmente significava ser concubina, e achava que podia conquistar o amor do general e viver uma vida feliz.
O general Xue dissera que ela podia ficar em Yixian, numa casa que ele ia comprar especialmente para ela. Isso significava que continuaria próxima de sua família - o mais importante, contudo, é que não teria de morar na residência dele, nem submeter-se à autoridade da esposa e das outras concubinas, que teriam precedência sobre ela. Na casa de um potentado como o general Xue, as mulheres eram na prática suas prisioneiras, vivendo num estado de permanentes bate-bocas e fuxicos, em grande parte provocados pela insegurança. A única segurança que tinham era o favor do marido. A oferta de uma casa própria do general Xue significava muito para minha avó, como também a promessa de solenizar a ligação com uma cerimônia de casamento completa. Ela e sua família teriam ganho um prestígio considerável. E havia uma consideração final muito importante para ela: agora que o pai estava satisfeito, esperava que ele tratasse melhor a sua mãe.
A sra. Yang sofria de epilepsia, o que a fazia sentir-se inútil em relação ao marido. Era sempre submissa a ele, e ele a tratava como lixo, não mostrando a mínima preocupação com sua saúde. Durante anos, culpara-a por não produzir um filho. Minha bisavó teve uma série de abortos depois que minha avó nasceu, até a vinda de uma segunda criança em 1917 - mas também dessa vez foi uma menina.
Meu bisavô era obcecado com a idéia de ter bastante dinheiro para poder adquirir concubinas. O "casamento" permitia-lhe realizar esse desejo, pois o general Xue despejara presentes de noivado sobre a família, e o principal beneficiado fora meu bisavô. Os presentes eram magníficos, de acordo com a posição do general.
No dia do casamento, uma liteira envolta em pesadas sedas e cetins bordados de vermelho vivo apareceu na casa dos Yang. À frente vinha um desfile trazendo faixas, placas e lanternas de seda com desenhos de uma fênix de ouro, o maior símbolo para uma mulher. A cerimônia de casamento teve lugar ao anoitecer, como era a tradição, as lanternas vermelhas fulgindo no crepúsculo. Uma orquestra de tambores, címbalos e agudos instrumentos de sopro tocava música alegre. A barulheira era tida como essencial para um bom casamento, do mesmo modo como o silêncio seria visto como uma sugestão de que havia alguma coisa vergonhosa no acontecimento. Minha avó vestia-se esplendidamente, com bordados coloridos, um véu de seda vermelho cobrindo-lhe a cabeça e o rosto. Foi levada na liteira para sua nova casa por oito homens. Dentro da liteira estava abafado e fazia um calor de fervura, e ela puxou discretamente a cortina alguns centímetros. Espiando por baixo do véu, ficou deliciada ao ver como as pessoas na rua olhavam o seu séquito. Aquilo era muito diferente do que teria uma concubina - uma liteira coberta com algodão comum na simples cor índigo, carregada por duas ou, no máximo, quatro pessoas, e sem séquito nem música. Levaram-na em torno da cidade, passando pelos quatro portões, como exigia um ritual completo, com os caros presentes de núpcias exibidos em carroças e grandes cestas de vime que vinham atrás dela. Depois de ser exibida à cidade, chegou a seu novo lar, uma casa grande, elegante. Minha avó ficou satisfeita. A pompa e a cerimônia fizeram-na sentir que conquistara prestígio e estima. Nunca houvera em Yixian nada assim, que alguém lembrasse.
Quando ela chegou à casa, o general Xue, de uniforme militar completo, estava à espera, cercado pelos dignitários locais. Velas vermelhas e deslumbrantes lamparinas iluminavam o centro da casa, a sala de estar, onde se prostraram em reverência cerimonial às tabuinhas do Céu e da Terra. Depois disso, fizeram a mesma reverência um ao outro, e então minha avó entrou sozinha na câmara nupcial, de acordo com o costume, enquanto o general Xue saía para um pródigo banquete com os homens.
O general Xue não deixou a casa durante três dias. Minha avó estava feliz. Achava que o amava, e ele mostrava-lhe uma espécie de afeto relutante. Mas quase não falava com ela sobre assuntos sérios, seguindo o ditado tradicional: "As mulheres têm cabelos compridos e inteligência curta". Um chinês devia permanecer reticente e grandioso, mesmo com a família. Por isso ela ficava calada, apenas massageando os dedos dos pés dele antes de se levantarem de manhã, e tocando o qin para ele à noite. Após uma semana, ele comunicou-lhe de repente que ia embora. Não disse para onde - e ela sabia que não seria boa idéia perguntar. Seu dever era esperar por ele até a sua volta. Teve de esperar seis anos.
Em setembro de 1924, estourou a luta entre as duas principais facções de caudilhos no norte da China. O general Xue foi promovido a subcomandante da guarnição de Pequim, mas em poucas semanas seu velho aliado general Feng, o caudilho cristão, mudou de lado. A 3 de novembro, Tsao Kun, que o general Xue e o general Feng haviam ajudado a instalar como presidente no ano anterior, foi obrigado a renunciar. No mesmo dia a guarnição de Pequim foi dispensada, e dois dias depois o Departamento de Polícia de Pequim foi desmantelado. O general Xue teve de abandonar a capital às pressas. Retirou-se para uma casa sua em Tianjin, na concessão francesa, que tinha imunidade extraterritorial. Era o mesmo lugar para o qual o presidente Li fugira no ano anterior, quando Xue o expulsara do palácio presidencial.
Enquanto isso, minha avó viu-se colhida na renovação da luta. O controle do nordeste era vital no combate entre os exércitos dos caudilhos, e as cidades ao longo da ferrovia, sobretudo entroncamentos como Yixian, eram alvos particulares. Pouco depois de o general Xue partir, a luta chegou às muralhas da cidade, com batalhas campais diante dos portões. Os saques eram generalizados. Uma empresa italiana de armas dirigiu-se aos caudilhos sem dinheiro anunciando que aceitava "cidades saqueáveis" como garantia. O estupro era um simples lugar-comum. Como muitas outras mulheres, minha avó teve de enegrecer o rosto com fuligem para fazer-se parecer feia e imunda. Felizmente, dessa vez Yixian sobreviveu quase incólume. A luta acabou deslocando-se para o sul e a vida voltou ao normal.
Para minha avó, "normal" significava encontrar maneiras de matar o tempo em sua grande casa. A casa era construída no estilo típico do norte da China, em torno de três lados de um quadrângulo, o lado sul do pátio sendo um muro de mais de dois metros de altura, com um portão redondo que abria para um pátio externo, por sua vez guardado por um portão duplo com uma aldrava de bronze redonda.
Essas casas eram construídas para enfrentar os extremos de um clima brutalmente áspero, que saltava de invernos congelantes para verões escorchantes, praticamente sem primaveras nem outonos entre si. No verão, a temperatura subia acima dos trinta e cinco graus, mas no inverno caía para menos de seis graus e meio, com ventos uivantes que vinham rugindo da Sibéria pelas planícies. A poeira entrava nos olhos e na pele a maior parte do ano, e as pessoas muitas vezes tinham de usar máscaras que lhes cobriam todo o rosto e a cabeça. No pátio interno das casas, todas as janelas dos aposentos principais davam para o sul, para deixar entrar tanto sol quanto possível, enquanto as paredes do lado norte recebiam o impacto do vento e da poeira. O lado norte da casa continha uma sala de estar e o quarto de minha avó; o piso das alas dos dois lados era ladrilhado, e as janelas de madeira cobertas de papel. O telhado em ponta era feito de lisas telhas negras.
A casa era luxuosa pelos padrões locais - e muito superior à dos pais dela - mas minha avó sentia-se sozinha e infeliz. Tinha vários criados, inclusive um porteiro, um cozinheiro e duas criadas. A tarefa deles era não só servir, mas também atuar como guardas e espiões. O porteiro tinha instruções de não deixar minha avó sair sozinha em nenhuma circunstância. Antes de partir, o general Xue contara uma história de advertência à minha avó sobre uma de suas outras concubinas. Ele descobrira que ela vinha tendo um caso com um criado, e mandara amarrá-la na cama e enfiara-lhe um pano na boca. Depois pingaram álcool puro no pano, sufocando-a lentamente até a morte. "Evidentemente, eu não podia dar a ela o prazer de uma morte rápida. Mulher que trai o marido faz a coisa mais vil possível", dissera. Quando se tratava de infidelidade, um homem como o general Xue odiava a mulher muito mais que o homem. "Com o homem, só fiz mandar fuzilá-lo", acrescentou casualmente. Minha avó jamais soube se a história toda era ou não verdadeira, mas aos quinze anos ficou devidamente petrificada.
A partir daquele instante, passou a viver em pavor constante. Como mal podia sair, teve de criar um mundo para si dentro de suas quatro paredes. Mas mesmo ali não era a verdadeira senhora de sua casa, e tinha de passar muito tempo agradando aos criados, para que eles não inventassem histórias contra ela - o que era tão comum que se considerava quase inevitável. Dava-lhes muitos presentes, e também organizava partidas de mah-jong, porque os vencedores sempre tinham de dar generosas gorjetas aos criados.
Jamais lhe faltava dinheiro. O general Xue mandava-lhe uma pensão regular, entregue todo mês pelo gerente de sua casa de penhores, que também arcava com as perdas que ela acumulava nos torneios de mah-jong.
Dar festas de mah-jong fazia parte normal da vida das concubinas em toda a China. Como fumar ópio, encontrado por toda parte e visto como um meio de manter satisfeitas pessoas como ela - dopadas e dependentes. Muitas concubinas acabavam viciadas ao buscar esse caminho para enfrentar a solidão. O general Xue estimulou minha avó a contrair o hábito, mas ela o ignorou.
Na prática, a única oportunidade em que ela podia sair de casa era quando ia à ópera. Fora isso, era obrigada a permanecer sentada em casa o dia todo, dia após dia. Lia muito, sobretudo peças e romances, e cuidava de suas flores preferidas, bálsamo, hibiscos, quatro-horas e rosas-de-sharon, em vasos no pátio, onde também cultivava árvores anãs. Sua outra consolação naquela gaiola dourada era um gato.
Ela podia visitar os pais, mas mesmo isso era malvisto, e não podia passar a noite com eles. Embora fossem as únicas pessoas com quem podia conversar, achava a visita a eles uma provação. O pai fora promovido a subchefe da polícia local, devido à sua ligação com o general Xue, e adquirira terra e propriedade. Toda vez que ela abria a boca sobre sua infelicidade, o pai começava a pregar-lhe sermões, dizendo-lhe que a mulher virtuosa devia suprimir as emoções e não desejar nada além do seu dever para com o marido. Estava direito sentir saudades do marido, era virtuoso, mas a mulher não devia queixar-se. Na verdade, uma boa mulher não devia ter opinião alguma, e se tivesse, certamente não devia ter o despudor de falar sobre ela. Ele citava o provérbio chinês que diz: "Se você se casou com um frango, obedeça ao frango; se se casou com um cão, obedeça ao cão".
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