Livro acessível
0
Carrinho
Títulos / Companhia de Bolso / ABRIL DESPEDAÇADO
Companhia de Bolso
ABRIL DESPEDAÇADO
Ismail Kadaré



1

Quando sentia frio nos pés, mexia um pouco as pernas até ouvir o barulho queixoso dos pedregulhos no solo. Na verdade o lamento vinha dele. Nunca lhe ocorrera ficar tanto tempo imóvel como agora, atrás daquela cerca, na Estrada Grande, à espera de que o outro passasse.
A tarde morria. Temeroso, quase amedrontado, ele aproximou os olhos da mira do fuzil. Dali a pouco, com o crepúsculo, ficaria difícil fazer pontaria. "Ele vai passar antes que a noite o impeça de mirar, com certeza", dissera-lhe o pai. "Basta ter paciência, esperar."
Fazia tempo que suas articulações doíam. Já nem sentia o braço direito.
Lentamente a mira do fuzil deslizou, ao longo da estrada, por restos de neve que não derretera. Os pastos mais adiante estavam pontilhados por romãzeiras silvestres. A idéia de que aquele era um dia extraordinário na sua vida lhe passou, nebulosa, pela mente. O cano da arma se moveu de novo, no sentido inverso, das romãzeiras para os restos de neve. O que ele chamava dia extraordinário já se reduzia àqueles restos de neve e àquelas romãzeiras silvestres, que pareciam esperar desde o meio-dia para ver o que ele iria fazer.
"Mais um pouco, está escuro", pensou, "e eu nunca poderei mirar." Na realidade, queria que o crepúsculo caísse o quanto antes, trazendo a noite, e o deixasse escapar daquela maldita tocaia. Porém, o dia se arrastava, como se se alegrasse em mantê-lo preso. Embora fosse a segunda tocaia de vendeta na sua vida, o homem que devia matar era o mesmo da primeira emboscada; assim, para ele, era como se uma fosse a continuação da outra.
Sentiu outra vez os pés gelados e outra vez mexeu as pernas, como se desse modo impedisse a friagem de subir. Mas ela já chegara à sua barriga, à garganta, à cabeça até. Uma parte do seu cérebro parecia congelada como os restos de neve mais à frente no caminho.
Não tinha condições de raciocinar. Apenas sentia hostilidade para com as romãzeiras e os restos de neve, como se, sem eles, fosse mais fácil abandonar a tocaia. Acontece que ali estavam, testemunhas caladas, e ele não iria embora.
Pela vigésima vez naquela tarde, avistou na curva da estrada o homem que devia matar. Andava com passos curtos, o cano preto do fuzil despontando no ombro direito. O que estava de tocaia estremeceu: agora não era uma visão. Era mesmo o homem que esperava.
Como das outras vezes, Gjorg apontou o fuzil para a cabeça do outro, mirando. Ele se movimentou, escapando da linha de fogo, e no último momento Gjorg achou até que sorriu com ironia. Seis meses antes acontecera a mesma coisa. Para não desfigurar a vítima (de onde surgira aquela compaixão de última hora?), ele tinha baixado a mira, e por isso não matara o homem, só o ferira no pescoço.
O outro se aproximava. "Tomara que eu não o fira", implorou Gjorg. A custo os seus tinham pago a multa pelo primeiro ferimento, e um segundo erro de pontaria iria arruiná-los. Ao passo que a morte não custava nada.
O outro já estava perto. "Melhor errar totalmente do que ferir", murmurou Gjorg consigo. Tratou de não pensar em nada. A primeira vez tinha pensado demais e por isso estragara as coisas. Sentira pena, vergonha e até, no último momento, lembrara o velho ditado: "Quem chumbo viu, de chumbo morreu".
"Não tenho mais que pensar", disse consigo. "Só tenho que fazer o que deve ser feito." Como imaginara centenas de vezes, antes de atirar Gjorg avisou o homem, conforme mandava o costume. Nem na hora nem depois teve certeza se falara ou se sua voz havia falhado. A verdade é que a vítima de repente virou a cabeça. Gjorg ainda viu um rápido movimento de braço, como que para pegar o fuzil, e então atirou. Um tanto espantado, ergueu os olhos da arma para o morto (embora ele estivesse de pé, Gjorg não tinha dúvida de que o matara). O outro deu meio passo à frente, deixou o fuzil escorregar para um lado e caiu para o lado oposto.
Gjorg se aproximou do defunto. A estrada estava completamente deserta. Só se ouviam seus passos. O morto caíra de bruços. Gjorg se agachou perto dele e pôs uma das mãos no seu ombro, como para despertá-lo. Retirou a mão dali e pensou: "E agora?". Mas a mão voltou ao ombro do outro, como se quisesse que ele voltasse à vida. "O que estou fazendo?", Gjorg se recriminou. Foi então que percebeu: não se curvara sobre o finado para arrancá-lo do sono eterno, e sim para virá-lo de frente. Bastava virá-lo de frente, como mandava o costume. As romãzeiras silvestres e os restos de neve continuavam ali, à espreita.
Levantou-se e deu alguns passos, mas logo lembrou que devia apoiar na cabeça do outro o fuzil que este carregava.
Movimentou-se como num sonho. Sentia náuseas e por duas ou três vezes repetiu que era por causa da visão do sangue. Instantes depois se viu quase correndo pelo caminho ermo.
Anoitecia. Às vezes ele olhava para trás, sem saber por quê. A estrada continuava deserta, em meio às ervas e ao dia que findava.
Pouco adiante ouviu chocalhos de mulas e em seguida vozes humanas. Um grupo de pessoas se aproximava pela Estrada Grande. Pareciam ora forasteiros ora montanheses voltando da feira. Antes que Gjorg pudesse descobrir quem eram, eles estavam na sua frente. Havia homens, moças e crianças.
Deram-lhe boa-noite e ele parou. Depois de fazer um gesto na direção de onde viera, disse-lhes com voz meio rouca: "Ali, na curva da Estrada Grande, matei um homem. Virem-no, boa gente, e apóiem o fuzil na cabeça dele".
Fez-se silêncio no pequeno grupo.
"O sangue lhe deu náuseas?"
Ele não respondeu. Alguém lhe aconselhou algo contra náuseas, mas ele não ouviu. Retomara a caminhada. Sentia-se um pouco aliviado, agora que lhes dissera que virassem o morto. Não conseguia lembrar se endireitara ou não o cadáver. O Kanun previa a perturbação que um matador experimenta e permitia que se pedisse a um passante que fizesse o que devia ser feito. Mas deixar o morto de bruços e a arma longe do seu corpo era uma desonra imperdoável.
Ainda não anoitecera de todo quando Gjorg chegou à aldeia. Seu dia extraordinário continuava. A porta da kullë estava entreaberta. Empurrou-a com o ombro e entrou.
"Então?", perguntou alguém lá dentro.
Ele assentiu, sem falar.
"Quando?"
"Há pouco."
Sentiu suas pernas subindo a escada de madeira.
"Você tem sangue nas mãos", disse o pai. "Vá se lavar."
Gjorg olhou assombrado para as mãos.
"Então devo tê-lo virado", disse.
Não havia motivo para a inquietação que sentira no caminho. Era só olhar para as mãos e lembraria que tinha endireitado o corpo do morto conforme as regras.
A casa cheirava a café torrado. Surpreendentemente, Gjorg sentiu sono e chegou a bocejar. Por trás de seu ombro esquerdo, os olhos brilhantes da irmã menor pareciam longínquos como duas estrelas além do horizonte.
"E agora?", perguntou de repente, sem se dirigir a ninguém em particular.
"É preciso avisar da morte no povoado", respondeu o pai.
Só então Gjorg notou que o pai estava calçando as alpercatas.
Bebia o café que a mãe preparara para ele quando ouviu o primeiro grito lá fora: "Gjorg dos Berisha atirou em Zef Kryeqyq!".
A voz tinha um timbre particular, alguma coisa entre o tom de quem proclama um decreto oficial e o de quem entoa um velho salmo. O som inumano o despertou do entorpecimento. Era como se o nome dele tivesse deixado seu ser, sua pele e suas entranhas, para se espalhar cruelmente lá fora. Nunca sentira algo assim. "Gjorg dos Berisha", repetiu consigo o bordão do arauto impiedoso.
Tinha vinte e seis anos, e era a primeira vez que seu nome ocupava os fundamentos da vida.
"Gjorg dos Berisha atirou em Zef Kryeqyq!", repetiu outra voz, vinda de outra direção.
Era assombroso ouvir converter-se em proclamação aquilo que pouco antes fora apenas uma seqüência de movimentos dele, um som ao fazer pontaria e depois os loucos acontecimentos a que assistiram as romãs silvestres e a neve arrogante. Seu nome, Gjorg, pareceu-lhe repentinamente muito velho e pesado, como letras entalhadas, eivadas de musgo, no arco de uma igreja.
Fora, os arautos da morte passavam aquele nome de boca em boca, como se tivesse asas.
Meia hora depois trouxeram o morto para a aldeia. Conforme o costume, ele jazia sobre quatro galhos de faia. Ainda tinha uma expressão morna, como se não houvesse rendido a alma.
O pai do morto esperava em pé, à porta de sua kullë. Quando os carregadores do cadáver estavam a quarenta passos, gritou: "O que me trazem? Ferida ou morte?".
"Morte."
A resposta veio curta, cortante.
A língua do pai procurou por saliva, longe, muito longe, no fundo da boca. A custo ele articulou: "Ponham-no aqui dentro e comuniquem a morte à aldeia e aos parentes".


Os chocalhos dos rebanhos que voltavam ao lugarejo de Brezftoht, o som dos sinos vespertinos e todos os ruídos do anoitecer davam a impressão de arcar com o peso da recém-anunciada notícia da morte.
Observava-se um movimento inusitado nas ruelas da aldeia. Algumas tochas, parecendo frias por não ser ainda noite fechada, flamejavam mais longe, nos limites do povoado. Havia um vaivém diante da casa do morto. Outras pessoas, aos pares ou em grupos de três, partiam para um lugar qualquer ou voltavam não se sabe de onde.
Pelas janelas de algumas kullë transitavam as últimas notícias.
"Já soube que Gjorg Berisha atirou em Zef Kryeqyq?"
"Gjorg dos Berisha vingou a morte do irmão."
"Os Berisha vão pedir a bessa de vinte e quatro horas?"
"Com certeza."
Das janelas das kullë se via toda a agitação da aldeia. A noite caíra de vez. A luz das tochas se tornara mais densa, como se tivesse congelado. Aos poucos, adquiria um tom escuro de vermelho, como o de uma lava vulcânica recém-saída de misteriosas profundezas. Suas fagulhas espalhavam ao redor o pressentimento do derrame de mais sangue.
Quatro homens, entre eles um ancião, caminhavam na direção da casa do morto.
"Os mediadores vão solicitar a bessa de vinte e quatro horas em benefício dos Berisha", disse alguém numa janela.
"E vão conseguir?"
"Por certo."
Ainda assim, todo o clã dos Berisha tratava de tomar medidas defensivas. Ouviam-se vozes: "Murash, depressa, para casa!"; "Cen, tranque a porta"; "Onde está Preng?".
Cerravam-se as portas das casas de todo o clã, de parentes próximos e distantes, pois sempre se soube, através das gerações, que aquele momento - o que se seguia à morte -, no qual a família da vítima ainda não concedera nenhuma das bessa, era perigosíssimo. Os Kryeqyq, cegos de dor, tinham então o direito de atirar em qualquer membro do clã Berisha.
Todos esperavam à janela que a delegação saísse da casa do morto. "Será que darão bessa?", perguntavam as mulheres.
Por fim, os quatro intermediários reapareceram. A conversa fora curta. O andar deles não revelava nada, mas logo depois um grito espalhou a notícia: "A família dos Kryeqyq abriu bessa".
Todos entenderam que se falava da bessa pequena, de vinte e quatro horas. Ninguém sequer concebia que pudesse se tratar da bessa grande, de trinta dias, que só a aldeia poderia pedir aos Kryeqyq, e depois do enterro.
As vozes voavam de casa em casa: "A família dos Kryeqyq abriu bessa"; "Os Kryeqyq abriram bessa".
"Louvado seja Nosso Senhor! Pelo menos por um dia não se derrama mais sangue...", suspirou uma voz rouca por trás de uma porta.
[...]