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Companhia de Bolso
O PACIENTE INGLÊS
Michael Ondaatje



1. A VILLA

Ela se levanta no jardim onde estava trabalhando e olha ao longe. Sentiu uma mudança no tempo. Há outra força no vento, um ruído encrespa o ar, e os altos ciprestes balançam. Ela se volta e caminha morro acima, na direção da casa, pula um muro baixo, sente os primeiros pingos de chuva nos braços nus. Atravessa a varanda e entra ligeiro na casa.
Passa pela cozinha sem se deter, sobe a escada no escuro e depois segue por um corredor comprido, no fim do qual se vê uma cunha de luz, vinda de uma porta aberta.
Entra no quarto, que é outro jardim - com árvores e caramanchões pintados nas paredes e no teto. O homem está deitado na cama, o corpo exposto à brisa, vira a cabeça devagar na sua direção quando ela entra.


A cada quatro dias, ela lava o corpo negro do homem, começando pelos pés destruídos. Molha bem um pano e depois torce a água sobre os tornozelos, voltando os olhos para o seu rosto se ele murmura alguma coisa, observando seu sorriso. Das canelas para cima, as queimaduras são piores. Além do púrpura. Osso.
Vem tratando dele há meses e conhece bem aquele corpo, o pênis adormecido como um cavalo-marinho, os quadris magros, estreitos. Os quadris de Cristo, ela pensa. Ele é o seu santo desesperado. Está deitado de costas, sem travesseiro, olhando para a folhagem pintada no teto, o dossel feito de ramos e, acima deles, o céu azul.
Ela derrama listras de calamina sobre o peito do homem, onde está menos queimado, onde ela pode tocá-lo. Adora a concavidade abaixo da última costela, o despenhadeiro de pele. Ao tocar os ombros, ela sopra ar frio em seu pescoço, e ele murmura.
O quê?, ela pergunta, saindo da sua concentração.
Ele vira o rosto escuro e os olhos cinzentos para a moça. Ela põe a mão no bolso. Descasca a ameixa com os dentes, retira o caroço e põe a polpa da fruta na boca do homem.
Ele sussurra outra vez, arrastando o coração atento da jovem enfermeira a seu lado até onde está o seu pensamento, aquele poço de memória em que ele não cansou de mergulhar durante os meses que precederam sua morte.


Há histórias que o homem reconta tranqüilamente no quarto, deslizando de um plano para o outro como um gavião. Ele desperta no arvoredo pintado que o cerca com suas flores transbordantes, os ramos das árvores grandes. Lembra os piqueniques, uma mulher que beijou partes do seu corpo que agora estão queimadas, cor de berinjela.
Passei semanas no deserto, sem lembrar de olhar para a lua, ele diz, assim como um homem casado pode passar vários dias sem olhar o rosto da esposa. Não se trata de pecados de omissão, mas sinais de preocupação.
Seus olhos se aferram ao rosto da jovem. Se ela mexe a cabeça, seu olhar passa reto ao lado dela e vai de encontro à parede. A jovem se inclina para a frente. Como você se queimou?
É de tarde. As mãos dele brincam com um pedaço do lençol, as costas dos dedos acariciando o pano.
Caí pegando fogo no deserto.
Encontraram meu corpo, fizeram para mim uma balsa de galhos e me arrastaram pelo deserto. Estávamos no mar de areia, de vez em quando atravessávamos o leito de um rio seco. Nômades, entende? Beduínos. Eu vinha voando e caí, e até a areia estava pegando fogo. Eles viram quando me levantei, escapando da areia, nu. O capacete de couro na minha cabeça estava em chamas. Amarraram-me com correias em um pequeno estrado, uma carcaça de bote, e os pés batiam fazendo barulho enquanto eles me arrastavam. Eu tinha violado a esterilidade do deserto.
Os beduínos sabiam do fogo. Sabiam dos aviões que desde 1939 caíam do céu. Parte de suas ferramentas e utensílios era feita do metal de aviões e tanques destruídos. Era tempo de guerra no reino dos céus. Podiam reconhecer o zumbido de um avião ferido, sabiam como abrir caminho em meio àqueles destroços. O minúsculo ferrolho de uma cabine de piloto se tornava uma jóia. Eu era talvez o primeiro a sair vivo de uma daquelas máquinas em chamas. Um homem cuja cabeça pegava fogo. Não sabiam meu nome. Eu não sabia qual era a tribo deles.
Quem é você?
Não sei. Continue me perguntando.
Você disse que era inglês.


À noite, ele nunca está cansado o bastante para dormir. Ela lê para ele qualquer livro que achar na biblioteca do andar de baixo. A vela bruxuleia sobre a página e sobre o rosto da jovem enfermeira, mal iluminando a essa hora as árvores e a paisagem que decoram as paredes. Ele a escuta, sorvendo suas palavras como água.
Se está frio, ela se move com todo o cuidado sobre a cama e se deita ao seu lado. Não pode pôr peso nenhum sobre ele sem causar dor, nem mesmo o seu pulso magro.
Às vezes, por volta das duas da madrugada, ele não está dormindo, olhos abertos no escuro.
Pôde sentir o cheiro do oásis antes de vê-lo. Líquido no ar. Ruído de coisas roçando. Folhas de palmeira e rédeas. Barulho de latas batendo, cuja ressonância profunda indicava estarem cheias de água.
Encharcaram com óleo algumas tiras de pano macio e estenderam sobre ele. Foi ungido.
Podia sentir a presença do homem silencioso que havia permanecido sempre a seu lado, o aroma do seu hálito quando se abaixava todo dia, ao anoitecer, para examinar sua pele no escuro.
Despido, ele era outra vez o homem nu saído do avião incendiado. Estendiam as tiras de feltro cinzento sobre ele. Tentava imaginar que grande nação o havia encontrado. Que pátria inventara tâmaras tão macias para serem mascadas pelo homem a seu lado e em seguida passadas daquela boca para a sua. Durante o tempo que ficou com essa gente, não conseguia lembrar de onde viera. Até onde sabia, ele podia ser o inimigo a quem atacara do ar.
Mais tarde, no hospital em Pisa, pensou ter visto a seu lado o rosto que todas as noites vinha mascar e amaciar as tâmaras e as colocava em sua boca.
Essas noites eram sem cor. Sem conversa e sem música. Os beduínos silenciavam quando ele estava acordado. Ele se encontrava num altar que era uma rede e, em sua vaidade, imaginava centenas de beduínos ao seu redor quando talvez houvesse apenas os dois que o acharam e arrancaram da sua cabeça o capacete de chifres de fogo. Conhecia esses dois apenas pelo sabor da saliva que entrava em sua boca junto com a tâmara, ou pelo som de seus pés correndo.


Ela sentava e lia, o livro sob a oscilação da luz. De vez em quando voltava os olhos para o salão da villa que tinha sido um hospital de campanha, onde ela vivera com as outras enfermeiras antes que todas fossem aos poucos transferidas dali, a guerra se deslocando para o norte, a guerra quase terminando.
Foi o momento de sua vida em que se atirou sobre os livros como a única saída de sua cela. Tornaram-se metade do seu mundo. Sentava-se à mesa, curvada para a frente, lia a respeito de um garoto na Índia que aprendeu a memorizar a posição de várias jóias e objetos sobre uma bandeja, e passava de um professor para o outro - os que ensinavam o dialeto, os que ensinavam a memorizar, os que ensinavam a escapar da hipnose.
O livro está no seu colo. Percebeu que há mais de cinco minutos estava olhando a porosidade do papel, o vinco no canto da página dezessete, que alguém dobrara para marcar a leitura. Roçou a mão sobre aquela superfície. Um alvoroço no seu pensamento, como um rato em disparada pelo forro do teto, uma mariposa contra a vidraça de noite. Olhou para o salão lá embaixo, embora já não houvesse mais ninguém morando ali, ninguém exceto o paciente inglês e ela mesma, na Villa San Girolamo. Para seu sustento, podia contar com os vegetais que cultivara no pomar bombardeado, um pouco além da casa, e um homem vinha da cidade de tempos em tempos e ela lhe oferecia sopas, lençóis, tudo o que houvesse restado nesse hospital de campanha, em troca de outros artigos de primeira necessidade. Um pouco de feijão, um pouco de carne. O homem deixara para ela duas garrafas de vinho, e toda noite, depois de se deitar junto do paciente inglês e ele adormecer, a enfermeira, com toda a cerimônia, se servia de um copo de vinho e o levava até a mesa fora do quarto, junto à porta entreaberta, e ia bebendo aos golinhos livro adentro.
Assim, para o inglês, ouvisse atentamente ou não, os livros apresentavam saltos na trama como pedaços de uma estrada arrastados pela enchente, episódios faltando como se gafanhotos tivessem devorado partes de uma tapeçaria, como se trechos do reboco descolado pelo bombardeio tivessem caído de um mural durante a noite.
A villa onde ela e o inglês viviam se achava agora mais ou menos assim. Não era possível entrar em certos quartos por causa do entulho. A cratera aberta por uma bomba deixava o luar e a chuva entrarem na biblioteca no andar de baixo - onde, num canto, havia uma poltrona permanentemente encharcada.
Ela não se preocupava com o inglês, no que se refere aos saltos na trama. Não fazia nenhum resumo dos capítulos pulados. Apenas pegava o livro e dizia "página noventa e seis" ou "página cento e onze". Era a única indicação. Trazia as duas mãos dele para junto do seu rosto e cheirava - ainda o odor de doença.
Suas mãos estão ficando ásperas, ele disse.
As sementes e os cardos e cavoucar a terra.
Cuidado. Já avisei dos perigos.
Eu sei.
Então começava a ler.
O pai dela a ensinara a conhecer as mãos. Conhecer as patas dos cachorros. Sempre que seu pai ficava sozinho com um cão numa casa, ele se abaixava e cheirava a pele da sola da pata. Este, ele dizia, como se acabasse de sentir o aroma de um conhaque, é o melhor cheiro do mundo! Um buquê! Os rumores de grandes viagens! Ela fingia ter nojo, mas a pata do cachorro era uma maravilha: seu odor nunca sugeria sujeira. É uma catedral!, exclamara seu pai, um certo jardim, aquele gramado, uma caminhada pelo ciclâmen - uma concentração de sinais de todos os caminhos que o animal percorrera ao longo do dia.
Uma correria no forro do teto, como um rato, e ela ergueu os olhos do livro outra vez.
[...]