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OLGA
Fernando Morais



BERLIM, ALEMANHA
ABRIL DE 1928


Tudo aconteceu em menos de um minuto.
Pontualmente às nove horas da manhã de 11 de abril de 1928, o guarda Gunnar Blemke atravessou o salão de audiências revestido de mogno da prisão de Moabit, no centro de Berlim, levando pelo braço, algemado, o professor comunista Otto Braun, de 28 anos. Não que Otto fosse considerado um preso perigoso; as algemas se justificavam por ser um acusado de "alta traição à pátria", encarcerado havia um ano e meio, aguardando julgamento. O guarda caminhou com ele em direção à mesa onde se encontrava o secretário superior de Justiça, Ernst Schmidt, que deveria interrogar Otto Braun. A seu lado, o escrivão Rudolph Nekien lutava para não cochilar sobre a máquina de escrever. Na outra ponta do salão, bem em frente à mesa de Schmidt, um pequeno auditório destinado ao público e aos advogados, e isolado por um balaústre de madeira, estava ocupado por meia dúzia de adolescentes, moças e rapazes. "Pensei que fossem estudantes de direito", diria o guarda mais tarde. Blemke estufou o peito diante da autoridade e anunciou:
- Apresentando o preso Otto Braun.
Nesse instante ele sentiu algo duro encostado em sua nuca. Virou a cabeça e viu uma pistola negra apontada contra seu rosto por uma linda moça de cabelos escuros e olhos azuis, que exigiu com voz firme:
- Solte o preso!
No auditório, os jovens dividiram-se em dois grupos e se atiraram sobre o secretário Schmidt e o escrivão Nekien, que foi derrubado com violência. Schmidt deu um salto, conseguiu bater a ponta do sapato sobre o botão de alarme instalado no chão - e recebeu uma coronhada no rosto, dada por um garoto enorme, de barba ruiva e cabelos escorridos até quase os ombros. A jovem de olhos azuis que comandava o grupo mantinha a pistola apontada para a cabeça do guarda. Depois de desarmá-lo, caminhou de costas em direção à porta, protegendo o preso com seu corpo e gritando para seus companheiros:
- Para a rua! Para a rua! Quem se mexer leva chumbo!
O guarda e os dois funcionários foram colocados de cara contra a parede. Com gestos rápidos, a moça mandou que o grupo saísse. O bando já disparava rumo ao portão principal, levando o preso para a calçada, quando seu último grito ecoou na sala:
- O primeiro a se mover leva chumbo!
E sumiu pelo corredor. Após saltar os degraus da escada na porta da prisão, o grupo se dispersou, cada um fugindo por uma rua diferente. A jovem guardou a pistola na sacola de lã a tiracolo e atravessou correndo o parque Fritz-Schloss para, no outro extremo, ao lado de um ginásio de esportes, atirar-se num pequeno furgão verde que a esperava de portas abertas. Na direção ia um jovem narigudo e atrás, sentado no fundo da carroceria e com as mãos ainda algemadas, estava Otto Braun, encolhido e assustado.
O calhambeque ameaçava desmontar pelas ruas de Berlim. Agora precisavam sair das imediações da prisão, cujas sirenes de alarme podiam ser ouvidas a quarteirões. O carro tomou o rumo sul da cidade. Evitando as ruas mais movimentadas, margeou o pequeno Cemitério Blücher e cruzou o canal Schiffarts. Quan- do entrou no bairro de Neukölln, a moça, Otto e o narigudo puderam afinal respirar aliviados. Em Neukölln estavam em casa.
Na hora do almoço, uma edição extra do diário Berliner Zeitung am Mittag já dava detalhes, sob escandalosa manchete, do que chamava de "ousada cena de faroeste" ocorrida de manhã em Moabit. O jornal anunciava em primeira mão o nome da linda jovem que comandara o "assalto comunista": Olga Benario.


"Ousada cena..."
À noite, no pequeno apartamento que a Juventude Comunista conseguira na rua Zieten para escondê-los, Olga lia e re-lia, ao lado de seu namorado Otto Braun, o noticiário dos jornais e parava sempre na mesma expressão. De fato, ousadia era o único substantivo capaz de traduzir não apenas o que havia feito naquela manhã, mas o sentimento que movia a maioria dos adolescentes comunistas do bairro operário de Neukölln. Olhando para a rua através das cortinas do quarto à meia-luz, ela contemplava mais uma manifestação desse estado de espírito. Meia hora antes as tropas da polícia haviam percorrido a região, colando em postes e muros o enorme cartaz que o promotor superior de Justiça da Alemanha mandara imprimir às pressas, oferecendo a recompensa de 5 mil marcos a quem desse informações sobre o paradeiro do escritor Otto Braun e da datilógrafa Olga Benario. Agora ela podia ver lá embaixo, na rua, o nanico Gabor Lewin e a agitada Emmy Handke, seus companheiros, arrancando todos os cartazes.
Que outro nome dar, senão ousadia, para o que acontecia a poucas quadras dali, no salão dos fundos da Cervejaria Müller? Indiferentes ao cerco que a polícia montara em Neukölln para apanhar os dois, os militantes do Rot Front, a Frente Vermelha da Juventude Comunista, decidiram fazer um ato político para comemorar a libertação de Braun. A primeira a falar foi uma garota de trancinhas. Às centenas de pessoas que se aglomeravam no salão - moças, rapazes, velhos operários com suas mulheres e crianças de colo -, ela comunicou que todos os envolvidos na libertação de Braun estavam em segurança, e arrancou aplausos demorados quando revelou que a ação fora realizada com armas descarregadas.
- Não tínhamos a intenção de ferir ninguém... Se houvesse alguma reação por parte dos fascistas de Moabit, certamente a esta hora estaríamos pensando em libertar, além do professor Braun, nossos companheiros que invadiram a prisão. A verdade é que um bando de garotos com armas descarregadas colocou de joelhos os fascistas que mantêm na prisão milhares de trabalhadores alemães...
Às onze da noite, uma tropa de choque invadiu a Cervejaria Müller e evacuou o salão a golpes de cassetete. De seu quarto, Olga podia ver o alvoroço que a escaramuça provocou na rua Zieten. Ao seu lado, Otto dormia, indiferente à excitação que tomava conta da companheira. O noticiário do rádio ligado em volume quase inaudível aumentou a insônia da moça: todos os programas comentavam o fato do dia - a invasão da prisão de Moabit. Mas tanto os jornais como o rádio transmitiam uma certeza tranqüilizadora: de todos os participantes da ação, só ela fora identificada pela polícia.
Sobre os outros havia, no máximo, vagas descrições físicas. Assim, Rudi König era apresentado como "um moreno forte, de cabelo escovinha, que agarrou o escrivão Nekien pela garganta"; Margot Ring era "uma ruiva gordinha, de quinze anos no máximo"; aquele que as testemunhas identificavam como "o grandalhão de cabelos longos que deu a coronhada na cabeça do secretário da Justiça" era o doce Erich Jazosch; um funcionário do tribunal que se encontrava à porta da prisão na hora da fuga descrevera Erik Bombach como "uma criança de um metro e meio de altura, carregando uma pistola em cada mão"; a magrela Klara Seleheim, por causa do cabelo aparado rente, era tratada como "alguém que não sabemos se é uma mocinha ou um rapaz", como dizia um locutor.
Se desconhecia a identidade daqueles jovens, sobre Olga e Otto a polícia sabia tudo. Por isso, as semanas seguintes foram de grande tensão para os dois. O cerco policial apertava e, por maior que fosse a solidariedade das famílias operárias de Neukölln, aumentavam também os riscos de prisão. Pacatas casas de metalúrgicos e padeiros eram transformadas em aparelhos para que os jovens pudessem esconder-se por quatro, cinco dias. A segurança deles ficou a cargo do Departamento de Ordem, uma seção geheim (secreta) e semimilitarizada da Juventude Comunista. Experimentados em proteger a organização contra ataques terroristas de direita ou da polícia, o Departamento de Ordem funcionava como uma célula clandestina dentro da Juventude Comunista legal. Eram seus membros que se encarregavam de arranjar novos aparelhos e de transferir Olga e Otto de uma casa para outra quando pressentiam a aproximação da polícia.
As sessões de cinema em Berlim passaram a ser precedidas, assim que as luzes se apagavam, da exibição de um slide reproduzindo o cartaz com as fotos de Olga e Otto e a oferta de 5 mil marcos a quem informasse sobre o paradeiro deles. O público, invariavelmente, explodia em aplausos para os dois jovens e, invariavelmente, acendiam-se as luzes e o cinema era ocupado por policiais armados. Quando a escuridão retornava, começavam as vaias, os assovios e as bolas de papel voando. O que mais intrigava a polícia é que ninguém apareceu para candidatar-se a uma recompensa equivalente a dois anos de salário de um trabalhador.
Nos primeiros dias de julho, o juiz Franz Vogt, do Supremo Tribunal, convocou a imprensa ao seu gabinete - ao lado do salão de audiências que havia sido invadido três meses antes - para apresentar um novo cartaz-comunicado, assinado pelo promotor superior de Justiça da Alemanha. Nele, o Poder Judiciário retirava a recompensa de 5 mil marcos, "pois, segundo informações fornecidas pela polícia, as citadas pessoas conseguiram fugir, dirigindo-se para o exterior".
Dessa vez a polícia acertara: dias antes, Olga e Otto haviam viajado de carro, acompanhados por membros do Departamento de Ordem da Juventude Comunista, até a cidade de Stettin, na fronteira com a Polônia. De lá embarcaram num trem rumo a Moscou. No momento em que o juiz Vogt recebia os repórteres em Berlim, o casal encontrava-se dentro do trem, na fronteira da Polônia com a URSS, exibindo passaportes falsos a um jovem soldado soviético de traços orientais, que ostentava um capacete branco com a estrela vermelha. Emocionada por estar "entrando em território proletário", Olga não resistiu à tentação de um aceno carinhoso para aquele "soldado do povo". Para sua decepção, o soldado fingiu que não viu. O trem arrancou lentamente em direção a Moscou.

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