Página 3 - amizade

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A CHEGADA
Sentado num banco improvisado no convés de um navio, Pedro, o filho
de dom Felipe de Almeida Brandão, um nobre ibérico que acaba de ganhar
uma sesmaria na colônia portuguesa na América, escreve seu diário, cheio de
rabiscos e borrões, já que a pena escorrega, a tinta mancha o pergaminho e
as ondas enchem de sal o branco do texto. A tripulação, ocupada e preocu­
pada, pouco nota o menino. O pai também parece muito atarefado fazendo
contas, contando estrelas, anotando a direção. Hora de deixarmos o menino
Pedro tomar conta desse livro.
—­Viajar de
caravela
não é brincadeira. O navio balança,
as ondas batem e não há
jogo de voltarete
que suporte
tanto movimento. E a comida então? Falta de tudo, e só
nos sobra bacalhau duro e seco. Cada vez que se dá uma
mordida, até parece que o dente vai cair. Minha roupa
já não passa de uns trapos sujos, molhados, encardidos
cheirando a maresia. A travessia é longa, deve tomar
dois meses; isso se não toparmos com um temporal.
Já sei que o
Cabo das Tormentas
, lá no fundilho daquele
continente chamado África, virou Cabo da Boa Esperança.
Mas quem disse que não vou encontrar
monstros marinhos
,
cachoeiras que terminam em precipícios... Com sorte dou de