Página 9 - amizade

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dessem vazão aos seus medos, aos receios diante de tantas tarefas que ti­
nham pela frente nessa terra em que tudo parecia diferente. Já os amerín­
dios, com suas flautas e instrumentos de percussão, cantavam em conjunto,
uma música sem letra. Era só som, um só som. Mas era também um lamen­
to.
Lamentavam as dificuldades da vida, os desafios que precisavam ser
vencidos.
Dos dois lados da floresta a sonoridade ecoava, distinta, mas cada vez
mais harmoniosa. Estranho é que, quando ouvidos em conjunto, aqueles sons
dispersos pareciam mais fortes. Quem sabe essa seria uma bela maneira de
iniciar uma nova vida, em conjunto.
Aukê foi dormir pensando em Pedro e com vontade de vê-lo no outro dia.
Pedro recolheu-se em sua cabine, não sem antes dar um jeito de acomo­
dar seu Papageno, que escapara de virar cocar ou saiote. Na verdade, o bi­
chinho estava de barriga bem cheia de tanto comer doce e roubar o milho do
chão. Dormia satisfeito nessa sua terra em que cada um tinha o direito de
falar suas palavras e todos (de alguma maneira) se entendiam.
Antes de apagar a vela ao lado de sua cama, Pedro molhou a pena no tin­
teiro e anotou no seu diário:
“O dia foi cheio e devolveu, como numa maresia, muitos presen-
tes novos. Se estou só agora sei que há lá na floresta alguém que es-
pera por mim. Ele que é tão diferente e tão parecido comigo.”