Este livro de contos, publicado pela primeira vez em 1970, começa por um delicioso prólogo em que um narrador experiente justifica, com alguma ironia, seu modo de contar histórias diretas, realistas e aparentemente simples, pela imitação da arte do jovem Kipling. Na verdade, desde "A intrusa", obra-prima de concisão e complexidade, até o conto final que dá nome ao conjunto, passando pelo admirável "O Evangelho segundo São Marcos", o que mais chama a atenção é o domínio da narrativa, cuja forma breve e despojada depende de lacônicos detalhes de composição de grande poder sugestivo. O duelo de facas ou de mentes pode não ser apenas o motivo central de muitas das histórias, mas o móvel da tensão interna que nos mantém presos à trama e nos desperta para um emaranhado de mais longo alcance. É assim que uma fresta fantástica visita às vezes alguns dos relatos, demonstrando que, mesmo nos resumos drásticos de fatos triviais, a imaginação é capaz de ampliar os limites do conhecimento e criar o desconcerto, para o prazer do leitor.
Opinião do leitor
Jorge Luis Borges é um escritor acima da média entre os melhores escritores. Já por isso, recomendar esta e outras de suas obras é até uma desnecessidade. Na verdade, trata-se de uma obrigação lê-las. E certamente um justificável prazer. Outra vez Jorge revela a seus leitores, a quem por certo sempre cultivou, a expressão de um livre-pensamento profundo, alicerçado na mais bela erudição, quiçá poucas vezes submissa a comparações. Amores, indignidades, traições, duelos, sacrifícios e fatalidades, eis aqui apenas parte do que se nos é revelado em "O Informe de Brodie". Um retrato sem par de uma Argentina não muito distante, e uma perspicaz visão da figura do gaúcho, sendo este argentino ou não. Excepcional.