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Tomás preferia falar de planos futuros, e elogiar os amigos, sempre
Segunda-feira, 1o de fevereiro, comecei um estágio em Nova York: um mês na Penguin Classics, quase um recomeço na minha carreira de editor, iniciada também com um estágio, na editora Brasiliense. Antes de chegar ao novo escritório, recebi uma notícia muito triste: Tomás Eloy Martínez, um dos escritores mais próximos entre os que publiquei, acabara de falecer. Atordoado, tive que lidar com o ritual que me esperava - a confecção de um crachá, a instalação da net na minha sala, a apresentação aos meus vizinhos de andar -, sem poder sentir a emoção dessa volta no tempo. Minha cabeça estava com ele, no momento do nosso último encontro, quando já adoentado Tomás não pôde vir a Nova York, conforme havíamos combinado, e pediu que eu o visitasse em Nova Jersey, em sua casa, perto da Universidade de Rutgers, onde encaixotava seus pertences, de mudança definitiva para Buenos Aires.
Sua aparência não era boa, mas o sorriso trazia a mesma generosidade, e os braços pareciam abertos de antemão; estava lá, próximo à escada de onde eu deveria surgir, na saída do trem. Tomás não me reconheceu logo de cara, mas disfarçou com elogios à minha aparência; seus reflexos estavam mais lentos, graças a duas operações para extirpar tumores no cérebro. Acompanhei a primeira delas de perto, ligando para sua esposa duas vezes por dia, falando com ele sempre que possível. A operação teve de transcorrer com o paciente acordado e ativo, para evitar sequelas nas funções cognitivas, muito comuns nesse tipo de intervenção. Precavido, o cirurgião lera alguns dos romances do famoso autor e articulista do New York Times, que, despido dos trajes de escritor, respondia sobre aspectos da aventura que cercou a ritualização da morte de Evita Peron, ou sobre a Buenos Aires descrita por um cantor de tango desaparecido, inspirado claramente em Carlos Gardel. A morte, tão presente nessas duas obras do escritor, e que seria o tema central de Purgatório, seu último romance, escrito depois dessa ocasião, era tematizada pelo médico e seu paciente, enquanto uma batalha vital se travava na mesa de operações. Tomás contou-me que recitou seus poemas prediletos de Emily Dickinson para o cirurgião, que certamente nunca se esquecerá  do sotaque portenho adicionado aos versos, e muito menos, posso apostar, da alegria do paciente ao recordá-los em um momento tão especial. Sugeri que Tomás escrevesse um artigo sobre a operação, mas após algumas tentativas ele desistiu.
Anos depois, provavelmente empacotando os mesmo poemas de Dickinson entre outros de seus livros favoritos, Tomás insistiu em falar sobre o romance que esperava de mim, ele que foi um dos principais responsáveis pela publicação dos meus contos. Eu tentava desviar o assunto, combinando os detalhes da publicação de Purgatório, que deveria ter sido lançado na Flip junto com Leite derramado, mas que pela segunda investida da doença teve publicação mais discreta, sem a comemoração conjunta com Chico Buarque, um dos amigos brasileiros do escritor. A uma quadra de onde me hospedo hoje em Nova York, jantamos juntos, Chico, Tomás, Paul Auster e Siri Hustvedt, falamos sobre os standards de jazz favoritos e passeamos pelas ruas da cidade, discutindo predileções e relembrando as letras de algumas das músicas, com a ajuda fundamental de algumas garrafas de vinho que ficaram para trás.
A ele nunca faltavam histórias reais, como protagonista da vida cultural e política da Argentina, e como grande escritor. Mesmo assim preferia desviar a atenção de si próprio, dedicando-se aos amigos, como fez comigo inúmeras vezes, em especial em um passeio pelo Metropolitan Museum, mais ou menos há sete anos . O pretexto era uma grande retrospectiva de Diane Arbus, fotógrafa de vida trágica, cujo trabalho Tomás conhecia bem. Em certo momento, após procurar o retrato que Arbus fez de Borges, em Nova York, e contar-me das decepções amorosas do escritor e poeta em sua temporada americana, Tomás afastou-se da exposição, levou-me para o café do museu e, segurando meus braços, disse que se eu não publicasse meus contos ele mesmo o faria sem a minha autorização. Tomás praticamente decidiu por mim, sabendo que eu nunca conseguiria fazê-lo sozinho ou sem o entusiasmo do amigo.

Estive na Feira de Buenos Aires em 2006, quando, recuperado da primeira cirurgia, ele recebeu uma grande homenagem e discursou, cercado de filhos, netos e amigos. Que me lembre, não mencionou muito do que havia enfrentado para estar ali. Homem extremamente elegante, falava pouco de si, mas a calvície e a cicatriz visível tornavam desnecessárias qualquer menção à doença. Saímos para jantar, os dois casais, numa discreta churrascaria que ficava em uma vila, escondida por uma grade de metal. Tomás ignorou seus infortúnios, e passou a noite agradecendo a Lili e a mim pela presença na ocasião. A morte o cercava, deixava as primeiras marcas em seu corpo, mas Tomás preferia falar de planos futuros, e elogiar os amigos, sempre.
Comentava cada novo livro de Rubem Fonseca e pedia para receber tudo que se publicasse de importante na nova literatura brasileira. Acompanhou quase desde o início, com orgulho, o trabalho de escritores como Milton Hatoum e Bernardo Carvalho. Eu soube que nas duas últimas semanas, com a saúde agravada, sentava-se na casa do filho e escrevia. Seu próximo livro, encomendado por sugestão minha para uma coleção em que grandes escritores recriam ficcionalmente mitos, seria sobre um estádio de futebol utilizado pelo regime militar argentino para os piores fins. Pretendia voltar ao mito de Olimpo, talvez na mais sangrenta de suas novelas. Seu filho anunciou que o manuscrito foi finalizado.
Mercedes Casanova, sua agente literária por décadas, me disse que Tomás já não conseguia falar. Se pudesse, tenho certeza de que nos momentos finais teria palavras de coragem e conforto aos que com ele estavam. Do meu passageiro escritório em Nova York, já com crachá no pescoço e a internet piscando, sinto uma imensa tristeza.
 
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Está programado para novembro o lançamento do livro A ponte: a vida e a Ascensão de Barack Obama, uma biografia do atual presidente norte-americano escrito por David Remnick, editor da revista "The New Yorker".
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Abraham B. Yehoshua confirma sua presença na FLIP 2010
O escritor israelense A. B Yehoshua é o segundo nome da Companhia das Letras a confirmar a participação na Festa Literária Internacional de Paraty, que acontece de 4 a 8 de agosto.
Yehoshua nasceu em Jerusalém, em 1936, na quinta geração de uma família de judeus sefarditas que se radicara na cidade muito antes da criação do Estado de Israel. Já recebeu diversos prêmios internacionais, incluindo o de melhor romance do ano no Reino Unido, em 1992, por Mr. Mani, e o prêmio Viareggio, em 2005, na Itália, pelo conjunto da obra.
Dele, publicamos A mulher de Jerusalém, A noiva libertada, Shiva e Viagem ao fim do milênio. O próximo será o romance Fogo amigo, previsto para o mês de junho.
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"Um Enigma Chamado Brasil" é o tema da entrevista que Lilia Schwarcz concedeu ao Podcast Rio Bravo (http://www.riobravo.com.br/podcast).

Segundo Lilia “estamos vivendo um momento em que há um interesse renovado, não só no pensamento brasileiro, mas como pela não-ficção de maneira geral. Se você for tomar como exemplo os livros de História, agora você tem esse gênero chamado História de divulgação. Além do mais, mesmo os trabalhos de História produzidos por acadêmicos, e eu me incluo nisso, têm ganhado um público que nós, professores, jamais sonharíamos em ganhar. Um bom exemplo é o Sérgio Buarque de Holanda. O livro “Raízes do Brasil”, no momento em que foi escrito, ele desapareceu. Foram necessários trinta anos para uma segunda edição do livro. Depois de trinta anos, atualmente, o livro está “bombando”!”

A íntegra da entrevista está no site da Rio Bravo (http://www.riobravo.com.br/podcast).
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