Penguin-Companhia Guia de leitura
Os guias de leitura foram criados para estimular a discussão dos clássicos entre grupos de leitores.
Além das perguntas, haverá sempre um texto introdutório comentando a obra do ponto de vista histórico e literário.
 
Liev Tolstói
Os últimos dias


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As realizações artísticas de Liev Tolstói (1828-1910), comparadas às de gigantes da literatura ocidental como Goethe (1759-1832) e Dante (c. 1265-1321), encontram sua mais consagrada expressão nos romances de cunho realista das décadas de 1860 e 1870, como Guerra e paz (1869) e Anna Kariênina (1878), que figuram com frequência nas listas de maiores obras-primas de todos os tempos. No entanto, a importante produção tardia de Tolstói tem sido algo ofuscada pela fama universal desses grandes livros. Uma amostra significativa dos textos filosóficos, críticos, políticos e religiosos, bem como das cartas e diários escritos após a profunda crise espiritual sofrida pelo autor no final da década de 1870, que culminaria com Uma confissão (1878-82), encontra-se reunida em Os últimos dias de Tolstói. Após o pequeno livro-marco em que relata o reconhecimento da existência de Deus e a experiência de sua conversão, Tolstói muda radicalmente o curso de sua vida e de sua carreira. Abandonando o sexo, o fumo e o álcool - três dos pilares de sua dissoluta juventude de aristocrata ocioso -, denunciando as mazelas da propriedade privada e preconizando uma filosofia híbrida entre o cristianismo e o anarquismo, pretendendo inclusive renunciar aos direitos autorais de sua já extensa obra, recolhe-se a uma vida contemplativa na casa de Iásnaia Poliana, no Volga, levando a missão de guia espiritual ao primeiro plano de sua existência.
Se é verdade que, entrementes, romances seminais como A morte de Ivan Ilitch (1886) e Ressureição (1899) continuaram a mobilizar a pena prolífica do encanecido escritor, a centralidade do discurso confessional em sua obra tardia indica, como destaca Jay Parini na introdução ao volume, a radicalidade de sua negação do establishment russo, especialmente nas esferas estatal e eclesiástica - que se confundem no regime tzarista. Ilustra-o o fato de que, entre os pequenos textos ficcionais reunidos, os contos "Onde está o amor, Deus também está", "Aliocha, o Pote" e "Três perguntas" consistem em agudas parábolas morais sobre a fé verdadeira; o mito indígena recontado em "O trabalho, a morte e a doença" tematiza o pecado original e denuncia a natureza autodestrutiva da humanidade sem Deus.
Em seu tempo as ideias de Tolstói a respeito da política europeia e do capitalismo eram consideradas revolucionárias. O autor de O reino de Deus está em vós preconiza uma refutação implacável do patriotismo e do colonialismo à luz da doutrina de Cristo. Tolstói converte-se num verdadeiro profeta da paz e da tolerância, vivendo na prática mais estrita a máxima cristalizada em Uma confissão: "viver a vida de verdade e, acatando o sentido que a verdadeira humanidade dá à vida e absorvendo-o, comprová-la".


1. Em Uma confissão (1882), Tolstói lamenta-se pela descrença e pela observação insincera dos ritos da Igreja Ortodoxa que marcaram sua juventude. Após sua conversão, o escritor ilustra a "reviravolta" ocasionada pela descoberta de Deus com uma metáfora de ressonâncias bíblicas. Qual é ela?
Tolstói compara o curso de sua vida à labuta de um remador que, após tentar arduamente manter-se à tona nas águas de um rio caudaloso, abandona-se à tentação de acompanhar a direção indicada pela maioria dos navegantes. Assaltado diversas vezes pela ideia de suicídio, o escritor subitamente percebe que a descrença, a ganância e o egoísmo predominantes, assim como a queda fatal nos rochedos da cachoeira que a agitação do rio anuncia, são o rumo contrário de Deus, situado na outra margem da vida. Sem obter da leitura dos filósofos uma explicação convincente para o sentido da existência, Tolstói compreende que "a margem era Deus, a direção era a tradição, os remos eram a liberdade que me foi dada para chegar até a margem a fim de unir-me com Deus". O escritor ecoa o episódio dos Evangelhos em que Jesus e seus discípulos, durante a travessia do mar da Galileia, são surpreendidos por uma tempestade. Jesus - num de seus primeiros milagres (Mateus 8, 23-27) - apazigua as águas e os ventos, salvando os discípulos e condenando-lhes a falta de fé. (Uma confissão, XII)


2. Em seguida, no capítulo XV, como Tolstói explica o paradoxo de que sua conversão ao cristianismo passe pela rejeição da Igreja Ortodoxa?
O escritor deplora o sectarismo da hierarquia eclesiástica russa, para quem "zelar pela pureza da religião greco-russa ortodoxa transmitida por nossos antepassados" implicava a negação violenta das demais religiões. Denunciar a falsidade da doutrina sob a qual os demais irmãos vivem é, segundo Tolstói, uma grande ofensa, e a tendência à anulação, e mesmo à aniquilação física das religiões rivais, é a primeira grande questão colocada por Tolstói para explicar a impossibilidade de diálogo com a Igreja Ortodoxa. A segunda é a sua submissão aos interesses do Estado tzarista, demonstrada pela entusiástica participação do clero russo na campanha "patriótica" pelo "assassinato de jovens desamparados e perdidos". Trata-se de uma alusão à guerra russo-turca de 1877-8, cujos horrores coincidem com a fase aguda da crise espiritual do escritor. (Uma confissão, XV)


3. Por que, para Tolstói, o jejum e a abstinência de carne são etapas necessárias da "aspiração à vida boa"? Segundo o exposto em O primeiro degrau (1891), em que se baseia essa "vida boa"?
Trata-se, segundo o autor, de trabalhar pela "realização do reino de Deus na terra". Uma vez que o aperfeiçoamento do corpo, entendido como depuração das vicissitudes da vida mundana, é imprescindível para o aperfeiçoamento moral do ser humano, combater as causas primeiras do assassinato animal - a avareza e a gulodice - é dever primordial do verdadeiro cristão. Tolstói descreve com minúcia a execução de bois, novilhos, bezerros e galinhas em açougues e abatedouros para ressaltar os aspectos imorais e criminosos do mercado de carne. (O primeiro degrau, I e X)


4. Em O reino de Deus está em vós (1893), a ideia de resistência não violenta, mais tarde uma importante força motriz do processo de independência liderado por Gandhi na Índia, é defendida por Tolstói contra o "círculo de violência" vivido pela sociedade. Que métodos, segundo ele, os governos e as elites dirigentes empregam para perpetuar o domínio pela violência?
Tolstói enumera quatro métodos: a intimidação, operada pela sacralização das instituições e as consequentes e violentas punições aos que ousam profanar a ordem estabelecida; a corrupção, que dociliza os funcionários do Estado e facilita a submissão do povo; a hipnotização do povo, associada às superstições religiosas e patrióticas difundidas pelos governos, causadoras dos sectarismos e das guerras; e o recrutamento de soldados, policiais e verdugos adequados à repressão e ao extermínio. (O reino de Deus está em vós, VIII)


5. Na carta a seu amigo norte-americano Ernest H. Crosby (1856-1907), datada de 1896, Tolstói defende a não violência como consequência inevitável do triunfo do cristianismo. Segundo o escritor russo, em que consiste o fundamento moral dessa doutrina, e, dentro dela, como a vida pode adquirir um sentido racional?
Para Tolstói, a doutrina cristã consiste basicamente em "aquilo que uma pessoa deve fazer para realizar a vontade daquele que a enviou para a vida", isto é, Deus. Sem que se possa admitir a imposição pela força de quaisquer preceitos religiosos, a realização plena e racional dessa vontade somente pode ser obtida com a compreensão de que o desespero e o sofrimento não são inerentes à vida. Partindo da negação peremptória da mera "satisfação mundana", Tolstói afirma que o cumprimento das leis do amor e "da resistência não violenta que dela emana" é um meio, e não o fim do caminho proposto pelo Criador. (Carta a Ernest Howard Crosby)


6. O que é o autoengano promovido pelas ciências experimentais, denunciado em Ciência moderna (1898)?
Tolstói, neste prefácio a uma tradução do artigo "Modern science: a criticism", do poeta e ativista britânico Edward Carpenter (1844-1929), acredita que o estudo empírico dos fenômenos por meio de sua comparação com objetos-modelo resulta em generalizações grosseiras. O distanciamento que o método científico implica é criticado pelo escritor russo com a imagem de "alguém que deseja compreender o significado de um objeto que está diante dele" e prefere afastar-se, "em lugar de aproximar-se, examiná-lo por todos os lados e tocá-lo". Trata-se do autoengano a que a redução mecânica dos fenômenos de ordem superior a fenômenos de ordem inferior conduz. (Ciência moderna)


7. A pequena narrativa sobre o cotidiano degradante dos operários e camponeses inclui integrantes das classes dominantes, que passam indiferentes pelo panorama miserável no fim da primeira parte de Mas precisa mesmo ser assim? (1900). Alguns deles viajam num veículo curiosamente associado, poucas décadas depois, às próprias classes trabalhadoras. Qual é ele?
A bicicleta, um equipamento caro e restrito aos privilegiados, como Tolstói ressalta ao descrever o brilho niquelado de suas partes. A velocidade do veículo no início do século XX ainda era capaz de assustar os humildes pedestres das estradas russas. (Mas precisa mesmo ser assim?, I)


8. Patriotismo e governo (1900) é uma análise da ação perniciosa do misticismo patriótico, então no auge. Questionando a falsa distinção entre "bom" e "mau" patriotismo, como Tolstói explica sua natureza danosa com respeito à história da humanidade?
O escritor acredita que se trata de uma questão de tempo até que todos os países se libertem da tirania da ideologia patriótica e do nacionalismo, causas dos massacres e usurpações dos outros povos. Tolstói explica que a evolução histórica da coletividade, assim como a dos indivíduos, presume um caminho escalonado, em que determinados degraus só podem ser vencidos no momento oportuno. Tal como a emancipação dos operários, a igualdade de direitos para as mulheres e a abolição do consumo de carne, a utopia de um mundo sem Estados e livre da tragédia do nacionalismo poderá se realizar. Infelizmente, os acontecimentos pavorosos de 1914-8 e de todo o século XX logo solaparam o projeto ideado por Tolstói (Patriotismo e governo, I-II).


9. Na resposta ao sínodo da Igreja Ortodoxa que deliberou por sua excomunhão (1901), Tolstói enumera os defeitos da decisão eclesiástica. Quais são eles?
A excomunhão é "ilegítima ou propositadamente ambígua"; "arbitrária, infundada, inverídica", caluniosa e incitadora de maus comportamentos. Ilegítima ou propositadamente ambígua porque contrária às normas religiosas e mal redigida; arbitrária porque condena sentimentos expressos por quase todas as pessoas cultas da Rússia; infundada devido à insignificância do número de fiéis supostamente "desgarrados" por Tolstói; inverídica porque mente ao afirmar que conciliações anteriores com o escritor já haviam sido tentados pelos hierarcas da Igreja; caluniosa porque contém afirmações meramente destinadas a atingir a honra do "réu"; e, finalmente, provocadora de preconceito e ódio sectário contra a pessoa do escritor. (Resposta à determinação... , 1901)


10. Em "Apelo ao clero" (1902), Tolstói retoma a controvérsia com a Igreja ao tachar os doze dogmas básicos da doutrina ortodoxa de absurdos e contraditórios. De acordo com ele, como os clérigos conseguem manipular a verdade, controlando as consciências de seus rebanhos?
O escritor denuncia os métodos violentos de "doutrinação", como o assassinato de milhões de pessoas que professam religiões divergentes. Progressivamente abandonados - a não ser na Rússia de então, como acreditava Tolstói -, esses métodos foram substituídos pela dramatização do espaço dos templos, com música, pintura e excelente oratória, promovidos principalmente a partir da Contrarreforma. Igualmente caídos em obsolescência, tais artifícios são menos eficientes que o terceiro e mais daninho método, a exploração da ignorância de "adultos sem educação formal" e "crianças sem discernimento", traços então predominantes na população russa e mundial. Por meio da inoculação da absurda "história sagrada" nas mentalidades dos fiéis, as igrejas direcionam suas vidas do modo que convém a seus objetivos de dominação. ("Apelo ao clero", I-V)


11. O polêmico ensaio crítico "Sobre Shakespeare e o teatro" (1906) questiona a genialidade do bardo inglês, considerando suas peças "insignificantes e francamente ruins". Qual é o exemplo adotado por Tolstói em sua diatribe? Quais são as principais restrições apontadas?
Baseando-se no juízo unânime e favorável de autoridades como Victor Hugo e Swinburne, o autor escolhe Rei Lear como objeto de sua demolidora análise, atacando a suposta excelência da tragédia iniciada em 1606. Tolstói condena a escassa moralidade das situações dramáticas e aponta as deficiências insanáveis de sua verossimilhança trágica. ("Sobre Shakesperare e o teatro", I-VIII)


12. Nos capítulos XVIII e XIX de A lei da violência e a lei do amor (1908), o autor prega a libertação do "pseudocristianismo" e do jugo das instituições do Estado. Como se pode resumir o caminho alternativo que Tolstói elogia?
Por meio do reconhecimento de seu destino espiritual, cada homem deve renunciar ao desejo de "organizar" a vida dos outros - expresso na ambição ditatorial de todos os governos - e adotar, em conformidade, o amor preconizado pela "mais elevada lei religiosa", a verdade de que tal organização é contrária às exigências da alma cristã. (A lei da violência e a lei do amor, XVIII e XIX)


13. Como o pai, que servira na Guerra da Crimeia como oficial do Exército russo, o filho mais jovem de Tolstói, Mikhail Lvóvitch, alista-se como voluntário no final da década de 1890. Entretanto, também como o jovem Tolstói, levava uma vida dissoluta. Em 1895, aos dezesseis anos, Micha é o destinatário de uma carta "séria, extensa e abrangente", contendo diversas recriminações paternas a seu comportamento. Quais são elas?
Tolstói critica a completa ausência de princípios religiosos e morais na vida de Micha. Mergulhado na luxúria e na ignorância, o filho não tem sequer o mérito de, com seu desprezo pelas regras sociais da aristocracia e da burguesia, participar do combate ideológico ao establishment, posto que sua própria existência parece debochar do trabalho, do amor e dos ensinamentos do pai. Tolstói desaprova veementemente a relação do filho com uma camponesa, aludida em carta anterior, expressando o desejo de que ele não caia na armadilha de um casamento por mais sete anos, isto é, quando Micha tiver 23 anos - precisamente a idade do ficcionista estreante que iniciava a escrita de Infância (1852) no Cáucaso.


Leituras recomendadas

Obra completa, de Liev Tolstói, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 2004.
Tolstói ou Dostoiévski, de George Steiner, São Paulo, Perspectiva, 2007.
The Cambridge companion to Tolstoy, Massachusetts, Cambridge University Press, 2002.
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