O segredo de ler para bebês: criar um momento de afeto e adequar expectativas
Sim, há muitas dicas que podem ajudar a fazer a mediação de livros para bebês. Mas o principal é estar realmente presente - e conectado com a criança e com o livro
A mediação de leitura e a contação de histórias são práticas distintas, que podem se conectar em muitos pontos, mas que se distanciam em vários outros. E refletir sobre as diferenças entre elas é um exercício que suscita uma série de questões. A arte de narrar histórias nos remete a tempos que não somos capazes de precisar. Nos afeta como um presente ancestral, algo que "sempre existiu". No entanto, como prática artística na preservação da oralidade ou ligada ao incentivo à leitura, gera muita discussão. Qual é o papel do livro em cada uma das duas práticas? Quais as atribuições do narrador e do mediador? No caso de uma história em que o livro é a fonte, em que medida haveria um compromisso de se manter fiel ao texto ou às imagens? Seria tão ruim assim exercer certa liberdade para recontar e apresentar a obra?
Não há respostas exatas, mas reflexivas. Elas nos conduzem a algo maior: pensar sobre o poder da oralidade, da literatura e de construir experiências coletivas com diferentes intenções a partir das histórias. Afinal, porque narramos histórias?
A artista Kiara Terra deixa memórias inesquecíveis por onde passa.Ao longo de 28 anos desenvolveu uma prática própria de contação de histórias, e ela nos explica a diferença com poética. “A mediação de leitura é como se fôssemos a um concerto. Todos estão sentados em uma sala apreciando a orquestra que toca, fruindo da música. Já a contação de histórias é como o carnaval: tem um enredo, mas todo mundo canta e dança junto. Entra o corpo, entram ritmos, entra o improviso”, afirma.
Para Tino Freitas, que atuou por muitos anos como mediador de leitura e hoje é autor de histórias e contador, a diferença fundamental está no engajamento do público. “Na mediação, os olhos das crianças estão no livro. Na contação, os olhos delas ficam no contador. Geralmente, quando eu terminava uma mediação, as crianças todas queriam ver o livro de perto. Mas no Show do Tino [em que ele mistura histórias, músicas e brinquedos cantados], no final as crianças querem me abraçar”, conta.

Tino Freitas em um show com canções e histórias na Jornada Literária do Distrito Federal
De forma bastante simplista, podemos dizer que a mediação de leitura é uma prática que se dá a partir do livro, onde o papel do mediador não é apenas contar a história, mas fazer a mediação entre o objeto livro e o público. Faz parte da função do mediador inserir os procedimentos leitores - como aprender a usar o índice, localizar o nome dos autores, virar a página - uma vez que há todo um repertório intimamente ligado ao livro que é essencial na formação leitora. Também é papel do mediador provocar as construções de sentido, não dando respostas, mas fazendo perguntas abertas que estimulem a reflexão e que desvelam novas camadas. “Por isso, podemos dizer que um mediador de leitura pode exercer esta função única como profissão mas, também, pode ser uma prática comum de um educador de sala de aula, por exemplo. A mediação de leitura, no entando, como ato em si, é a prática de fazer o convite à leitura, àquele livro, ao encantamento por aquele objeto, e isso, sim, pode estar presente em qualquer um de nós”, afirma a pesquisadora do livro para a infância, Cristiane Rogerio.
Já a contação pode acontecer com ou sem livro. Com uso de outros objetos, de música, do corpo. Ou sem nada disso. Com mais ou menos participação do público. Com histórias da tradição oral, histórias de família, histórias inventadas ou construídas no momento da narração. Kiara traz muito da performance em seu papel de contadora. Ela já tinha experiência como atriz quando passou pela formação em Artes do Corpo pela PUC-SP, com habilitação em performance. Essa experiência fez com que ela entendesse possibilidades como a diluição da autoria - de quem é a história? Do autor? Do Contador? Das crianças? -, o papel do tempo e as oportunidades que surgem na forma de imprevistos. “A contação para mim acontece com as pessoas, tentando chegar às últimas consequências”, conta. Ela abre um canal, criando um espaço para que o público também contribua, se coloque, interfira. E, com isso, abre a própria experiência de contar uma história para o risco. Não é à toa, que boa parte da conversa que Kiara teve com o Blog Letrinhas foi contando causos que aconteceram durante as contações, quase sempre de interferências das crianças em forma de perguntas delicadas ou do simples desejo de contar suas próprias histórias naquele espaço que lhes fora aberto.
A gente encontra o acaso, as histórias, as pessoas. E como narrador, não existe uma neutralidade. A gente está vivendo coisas”, Kiara Terra

Kiara pensa na construção coletiva das histórias que conta, a partir de uma metodologia criada por ela mesma, e nomeada de Livro Aberto. “Com essa ideia, eu estou construindo um conhecimento colaborativo, que não se aplica somente à contação de histórias”, reflete. Para ela, o livro pode ser um ponto de partida. Mas não uma rota definida. Um caminho completamente diferente do que é percorrido na mediação.
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Histórias são contadas desde os tempos mais remotos. Muito antes do nascimento da escrita. Talvez, desde o surgimento da linguagem há cerca de 100 mil anos.
Para Mafuane Oliveira, contadora de histórias, pedagoga, mestra em Artes Cênicas pela Unesp e autora de livros infantis, é importante lembrar da importância da oralidade na origem das histórias. “Tem o ditado que diz ‘Quem conta um conto, se coloca no conto. Mas não necessariamente aumenta um ponto, porque você vai seguir uma sequência narrativa. Quando olhamos para sociedades indígenas, há pessoas que são iniciadas nesse momento de tradição oral, na contação de histórias, para que sejam esses mantenedores de memória. Tem alguém que tem essa função, que é formado pela comunidade para exercer esse papel”, destaca.
Histórias são contadas pelo mundo todo. Sempre foram. Nesse sentido, o próprio termo ‘contação’ é um neologismo para dar nome a algo que não é exatamente novo…
No Brasil, o termo “contação de histórias” surgiu pela primeira vez em um artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo por Fanny Abramovich (1940-2017) [pedagoga, arte-educadora, crítica literária e escritora infanto-juvenil brasileira], como lembra Giuliano Tierno, em entrevista ao podcast Livros e Infâncias, das pesquisadoras Ananda Luz e Cristiane Rogerio. Giuliano é doutor e mestre em Artes pelos Instituto de Artes da UNESP, pesquisador da retomada do conto como prática artística em contexto urbano e sócio-fundador d’A Casa Tombada, onde coordena o curso de pós-graduação Narração Artística: Caminhos para contar histórias em contexto urbano. N'A Casa Tombada e em outros espaços, ele desenvolve ações de retomada do ato de narrar de histórias não exclusivamente focado nas crianças mas, também, nos adultos.
Mais tarde, Francisco Gregório Filho [ator, diretor e produtor de peças teatrais, shows musicais e espetáculos de contação de histórias] defendeu o uso do termo “contaçao de histórias”, por ser mais direto do que “‘narração” e conversar mais diretamente com a atividade de contar, como conta Giuliano. “Não foi algo da cabeça dele. Era um neologismo que estava em curso”, observa no podcast.
Já o termo “mediação de livros” surgiu no Brasil dentro de um contexto de mercado, especialmente de demandas para o lançamento e divulgação de livros. Estamos falando em um contexto de Brasil entre as décadas de 1980 e 1990. Posteriomente, nos primeiros anos da década de 2000, com o aumento de livros ilustrados lançados por aqui, um novo mecanismo de narrar ou mediar livros se estabelece, uma vez que há uma indissociável entre texto, imagem e projeto gráfico para construir novos significados. E com isso, passa a existir esta forma híbrida de narrrar em que há uma relação. “O que estava acontecendo com o livro que mudou de formato? Não havia apenas a história escrita, tem uma história que também está na imagem. Que talvez precise de um gesto, que o corpo talvez tenha que trabalhar”, explicou Giuliano. Atores e narradores estavam sendo chamados para fazer essas mediações. Mas não era algo tão simples. “Eles não sabiam bem o que fazer com esse novo objeto. [...] Livros difíceis de segurar na mão, de mostrar para o público”, lembra.
Quando se aborda a leitura na escola, a formação de leitores deve, sim, ser um compromisso. Nesse sentido, a mediação de leitura, que é ancorada no livro e não apenas introduz crianças e jovens aos procedimentos leitores e abre a possibilidade de fruição. De ler por prazer. Com apreciação. Com entrega. É por isso que em termos de formação leitora, a mediação talvez seja a estratégia mais importante.
Mas especialmente no Brasil, é preciso considerar o acesso. De acordo com dados do IBGE de 2024, somos um país com mais de 9 milhões de analfabetos. “A gente tem que ter uma prática que ajude os letrados e os iletrados a seguirem conversa com o seu mundo de coisas. Porque uma pessoa iletrada não é menor do que uma pessoa letrada”, defende Giuliano.
Histórias falam sobre a condição humana. Ajudam a entender o mundo a partir de arcabouços simbólicos. E constroem novos sentidos sobre a nossa realidade e nós mesmos. Histórias são direito e parte da experiência de ser humano.
A contação é um espaço genuíno de apresentarmos o mundo. Todo mundo pode se apresentar a partir das suas histórias, de suas percepções. É um direito”, Giuliano Tierno
Para Mafuane, que atua como professora de Sala de Leitura, incluir toda contação de histórias como parte de programas ou propostas essencialmente literárias tira o espaço para mais diálogos e experiências que não sejam experiências estéticas próprias do livro. Em outras palavras, o desejo dela é que a contação possa ter o seu espaço próprio, coexistindo com a literatura, correndo em paralelo desde cedo, mas não subordinada a ela. “Para que eu forme um leitor experiente e crítico eu tenho um professor ou mediador de leitura. Na contação de histórias, deve acontecer a mesma coisa. Que tipos de histórias contamos? Quais são esses gêneros possíveis? Essas histórias podem ser rimadas? Podem ser decoradas ou contadas livremente?”, questiona.
Eu não quero mais subordinar a oralidade à escrita. Que é o que as políticas públicas fazem. É o que a escola faz. Que é o que o senso comum faz”, Mafuane Oliveira
Se, como dizia Paulo Freire, ler o mundo precede a leitura da palavra, é preciso pensar nas histórias como possibilidades de encontro e fazer do livro ponte, mas jamais esquecer que, por se tratar de um objeto artístico, todos os envolvidos estão produzindo cultura. Juntos.. O exercício é pensar como aproximar pessoas de histórias - não apenas crianças, mas jovens, adultos e velhos também. Histórias são parte de nós - nas memórias, nas contações e nas páginas dos livros.
(texto: Naíma Saleh)
Sim, há muitas dicas que podem ajudar a fazer a mediação de livros para bebês. Mas o principal é estar realmente presente - e conectado com a criança e com o livro
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