Martha Batalha escreve sobre luto para falar de autoconhecimento e coragem
A escritora fala sobre seu primeiro livro infantojuvenil, 'Liz sem medo', sobre infância, finitude e como a escrita a mantém conectada ao Brasil
“Como viemos parar aqui?”
Essa é a pergunta que de vez em quando se fazem as três irmãs lobas. Alma, Pilar e Vida são acrobatas famosas no mundo todo. Mas apesar de serem celebridades, com um público que faz fila para vê-las, a vida das lobas perdia o brilho assim que elas deixavam o picadeiro. As ilustrações dão pistas: o chicote pendurado no bolso do chefe, as grades na janela… As lobas trabalhavam e viviam em um ambiente tóxico, que as explorava de muitas formas. Até que chega o dia em que elas se rebelam e se reencontram com sua própria natureza. Esta é A fabulosa história de uma trupe de acrobatas (Companhia das Letrinhas, 2026), de Maira Chiodi.
No palco, as lobas brilhavam. Mas, fora dele...
“Como viemos parar aqui?” também é a pergunta que se fazem muitas mulheres em relacionamentos abusivos. Que se fazem muitos trabalhadores submetidos a situações precárias e humilhantes. Que se faz muita gente que sofre diversos tipos de abuso - e que não consegue decifrar os caminhos que lhe trouxeram até ali.
A fabulosa história de uma trupe de acrobatas é um livro com muitas camadas. Fruto de um processo longo, com muitas pausas, que parece ter consolidado em suas páginas algumas grandes mudanças no mundo e na vida da autora, que foram acontecendo pelo caminho e sendo incorporadas com delicadeza. A ideia inicial da história é de 2013. Nessa época, Maira, que já ilustrava livros infantis, morava no Canadá.
Na primeira versão, as três lobas da história eram cinco ursos - entre machos e fêmeas. Cinco ursos tristes que trabalhavam para o circo e que surgiram de um esboço aleatório de desenhos que Maira estava fazendo para colocar em seu site. Mas o tempo foi passando e a história não conseguia se desenrolar. “O livro foi muitas vezes para a gaveta. Eu tentava fazer e não conseguia, começava e não engatava. A essência da história continuou, mas muita coisa mudou”, lembra a autora.
Com o tempo, os personagens centrais se tornaram lobas, ficaram em menor número e a história passou a dialogar com questões além do mundo do trabalho, a partir de uma perspectiva feminista e bastante pessoal. “Nesse meio-tempo, eu também me separei. Passei por uma separação de um relacionamento de 13 anos e acho que, com certeza, isso também impactou o caminho do livro que foi mais para um lado do feminino”, reflete Maira.
O que a ajudou a desemperrar o processo foi um curso sobre livro ilustrado com Odilon Moraes e Carolina Moreyra n'A Casa Tombada, em São Paulo (SP), que Maira fez em 2021, quando já havia voltado ao Brasil. Foi ali que ela encontrou a perspectiva que tanto buscava. “Quando retomei o projeto, já tinha novas ideias, mudei a ilustração, o texto, pensei em coisas diferentes”, conta. As ilustrações, feitas em aquarela e lápis de cor, também marcam o retorno da autora a um trabalho de ilustração mais manual, que a levou por novos caminhos.
Em entrevista ao Blog Letrinhas, Maira resgatou todo o processo de costura da história, que continuou, pausou, se transformou e que consegue mostrar como transformar o desconforto em ação - mesmo que leve tempo - pode nos levar a lugares incríveis.
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Maira Chiodi: O mote inicial era fazer uma história sobre ursos acrobatas deprimidos. Acho que o título era “A fabulosa história de uma trupe de ursos acrobatas tristes” - um título enorme (risos). Tinha essa mesma ideia, de que eles trabalhavam no circo, eram famosos, mas no fundo não eram felizes porque eram explorados.
Quando resolvi mudar os personagens, eu tinha lido Mulheres que correm com lobos (de Clarissa Pinkola Estés, Rocco, 1999) e achei que tinha mais a ver colocar lobas como personagens, porque eu poderia falar de feminismo também, que é um assunto importante para mim. Com personagens femininas, eu poderia falar de opressão, de como mulheres ficam muitas vezes em lugares desconfortáveis e como podem sair para buscar algo melhor. Nesse meio-tempo, eu também me separei. Passei por uma separação de um relacionamento de 13 anos e acho que, com certeza, isso também impactou o caminho do livro que foi mais para um lado do feminino.
O lobo transmite liberdade. Pode até tentar ser domesticado, mas é selvagem. O dia em que pensei nisso, decidi: vão ser lobas. Na literatura infantil, há muitos lobos, normalmente lobos maus. Mas ser uma loba muda tudo.
O Jardim lá fora (Editora Jujuba, 2024), meu primeiro livro, fala um pouco disso também, de uma questão de estar em uma zona de conforto, mas não conseguir sair, mesmo sabendo que você não cabe mais ali. Foi a decisão mais difícil que eu tomei na minha vida, mas foi algo que eu precisava fazer.
Maira Chiodi: Sim, o livro já tinha uma ideia inicial de trazer essa questão sobre a exploração do trabalho. Mas acho que a pandemia acentuou essa precarização das relações trabalhistas. Parece que aconteceu uma aceleração da vida, uma uberização do trabalho mesmo. Isso entra também no momento em que o dono do circo fala em reduzir a alimentação e o descanso das lobas para salvar “o nosso circo”. Quando é para dividir o prejuízo, o circo vira nosso. Mas o lucro é só dele.
Maira Chiodi: Eu sentia que as lobas estavam ali, mas eu precisava falar um pouco sobre a história delas, para não parecer que elas estavam ali por livre e espontânea vontade. Queria deixar subentendido que elas foram parar ali muito novas e não sabiam exatamente como. Essa frase puxa um pouco para essa ideia de que já fazia tanto tempo que elas estavam ali, mas que elas nem lembravam como tinham chegado. Será que elas foram tiradas da mãe? Será que elas foram compradas? Elas estavam domesticadas. É uma frase também que faz questionar essa sensação de desconforto.

As lobas não sabiam como elas tinham ido parar ali... mas estavam decididas a botar um fim naquele desconforto
Maira Chiodi: Quando a gente só ilustra, parece que a história já vem mais bem resolvida com o texto. Mas quando é a gente que escreve e ilustra, na nossa cabeça parece que está tudo muito bem resolvidinho, tudo bem costurado. Mas, quando a gente se debruça sobre o livro, percebe os furos de narrativa e precisa ir encontrando outras formas de escrever ou de ilustrar que possam ir resolvendo esses buracos.
No início, eu me dei conta de que, apesar das lobas serem as personagens principais, elas ainda não pareciam realmente as protagonistas da história. Foi aí que eu resolvi dar nomes a elas, para que criassem mais personalidade.
Maira Chiodi: Eu queria que os nomes dessem uma ideia da força das personagens, apesar de elas estarem vivendo uma situação de opressão. Com a Pilar, me veio a própria questão da acrobacia, de ter alguém que dá suporte, que é a base. Com Alma e Vida, queria mostrar a essência, esse sentimento de estar viva, de querer mais apesar das dificuldades.
Na primeira versão da história, o circo falia e o dono do circo mandava as lobas embora. Mas não podia ser assim, elas precisavam ser mais ativas para sair dali. Pensei que precisava acontecer algo para elas se revoltassem e fossem embora por conta própria…
Para mim o mais forte é as lobas conseguirem se libertar daquilo que fazia tão mal para elas e se encontrarem de novo como lobas, como selvagens. Acho que o livro fala de feminismo, mas de uma forma não tão explícita, traz mais os sentimentos das lobas. Espero que as meninas se identifiquem.
Para mim, o livro estar publicado, depois de um processo tão longo, é algo muito significativo.
(Texto: Naíma Saleh)
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