O que aprendemos com a arte

27/04/2026

Mei Mei é uma coelhinha que vive com seus pais e com sua abelha, Beethoven, em uma casinha de atmosfera musical. O pai assovia, a mãe cantarola e Beethoven, como todas as abelhas, zumbe. E Mei Mei vai acompanhando a melodia com seu violino. 


Ela é uma violinista. Uma violinista que tem um sonho: tocar em um grande recital. Esse sonho faz com que ela sinta uma grande excitação, mas também provoca uma revoada de borboletas no estômago… Mei Mei não quer apenas tocar. Ela quer ser per-fei-ta. 

A coelhinha Mei Mei

A mãe ajuda a coelhinha Mei Mei a encontrar seu próprio caminho para tocar 


Em A coelhinha Mei Mei (Companhia das Letrinhas, 2026), escrito pela compositora, cantora, produtora e multi-instrumentalista Laufey, com ilustrações delicadas de Lauren O'Hara e tradução de Larissa Stocco, essa ansiedade de Mei Mei em subir ao palco é compartilhada com os leitores. 

A coelhinha se vê entre o saber e o sentir - um dilema comum aos artistas. Ao mesmo tempo em que ela quer acertar cada nota, para fluir, a arte pressupõe abrir mão de um certo controle e se deixar levar… E é exatamente esse o conselho da mãe de Mei Mei: que ela se deixe sentir para tocar. “Se a música vier do seu coraçãozinho, você não precisa ser perfeita”, diz a mãe coelha.


Pense em uma orquestra como um oceano. As ondas se levantam… A mãe diz, levantando as mãos com uma batuta imaginária. – e quebram. Você sabe por que elas fizeram isso?

Mei Mei balança as orelhinhas dizendo que não. 

– A lua. Ela é a regente. E as ondas vêm e vão ao seu comando.E o vento… você consegue ver o vento? – a mãe pergunta e Mei Mei novamente balança as orelhinhas.

– Mas você consegue sentir o vento. Isso é a música.


O que a arte pode ensinar


Mesmo assim, no grande dia… a coelhinha desafina. 

A coelhinha Mei Mei

Ops... as notas saem erradas e ecoam pelo salão... e agora?

As escalas são mais difíceis do que Mei Mei pensava… e ela solta uma nota errada, que ecoa e ecoa. Nessa hora, a coelhinha respira fundo, fecha os olhos e sente. E, assim, as notas erradas, se tornam certas.

Faz parte. Na Arte, muitas vezes o processo em si importa mais do que o resultado. Isso quer dizer que o caminho percorrido no fazer artístico vale mais do que o objeto que foi produzido - seja ele um quadro, uma canção, uma escultura, uma performance. “Acreditamos na arte como ferramenta de sensibilização, de leitura crítica do mundo e de expressão de si. Ela não aparece apenas como produto final, mas como caminho para que o estudante se conecte com o que vê, sente e pensa”, explica a professora Gabriela Piernikarz, do colégio Bakhita de São Paulo (SP).

Para ela, a abertura para o erro como parte do processo é uma das aprendizagens que o contato com a arte pode trazer para as crianças. E há muitas outras. “Observamos o desenvolvimento de criatividade, autonomia, escuta, sensibilidade estética e capacidade de expressão. Além disso, a arte favorece a persistência, já que nem sempre o resultado vem de imediato”, observa. Ela também destaca que há avanços importantes quando se fala em comunicação. “Muitas crianças conseguem expressar ideias complexas por meio de desenhos, construções ou performances, antes mesmo de conseguirem verbalizar com clareza”, conta.

Mas não é só isso. Em um mundo tão guiado por aquilo que é lógico e racional, por metas e prazos, a arte pode ser um respiro. Uma possibilidade de entrar em contato com a própria subjetividade, de abrir espaço para a criação sem utilitarismo. Criar por criar. Não criar para resolver um problema. Nem para aprender algo novo. Apenas criar. Ou apreciar arte por puro prazer. 

LEIA MAIS: Afinal, o que é arte?


Aprender sobre arte ou aprender através da arte 

Há muito o que se aprender sobre arte. Desde as pinturas rupestres, o homem vem produzindo arte. Em artefatos de uso cotidiano, mosaicos, esculturas, concertos, peças de teatro, novelas, romances, filmes, projeções, grafites sobre o concreto. Explorando diferentes materiais e técnicas, criando movimentos artísticos e produzindo obras que acompanham o nosso percurso como humanidade – e que carregam subjetividades que livros de História não conseguem registrar.

A BNCC, Base Nacional Comum Curricular, estipula que as artes visuais, a música, a dança e o teatro façam parte do ensino da Arte como disciplina. “Essas linguagens articulam saberes referentes a produtos e fenômenos artísticos e envolvem as práticas de criar, ler, produzir, construir, exteriorizar e refletir sobre formas artísticas. A sensibilidade, a intuição, o pensamento, as emoções e as subjetividades se manifestam como formas de expressão no processo de aprendizagem em Arte”, estabelece o texto da BNCC. 

“Aprender sobre arte envolve conhecer referências, artistas, movimentos e técnicas. Isso é importante e faz parte do repertório cultural. Mas aprender através da arte significa usar a arte como meio de investigação e expressão do pensamento. Nesse sentido, a criança não está apenas reproduzindo algo, mas construindo hipóteses, organizando ideias, elaborando emoções e criando sentidos. A arte passa a ser uma forma de pensar o mundo”, explica Rafael Martins, Diretor Pedagógico do colégio Bakhita. No segundo caso, é possível pensar no ensino da arte como um componente também transversal na formação, em que habilidades artísticas como desenvolver o pensamento criativo e expressar-se por meio de diferentes linguagens podem ser trabalhadas também em outras disciplinas, abordando temas que não se limitam à arte em si. “A criatividade, por exemplo, aparece na resolução de problemas em matemática, na elaboração de hipóteses em ciências e na produção de textos. A colaboração, tão presente em projetos artísticos coletivos, fortalece a capacidade de trabalhar em grupo, negociar ideias e construir soluções conjuntas: habilidades fundamentais para a vida em sociedade”, explica o diretor.

A professora Gabriela cita como exemplo o projeto Cicatrizes Urbanas, que foi desenvolvido por turmas do 8º ano e que buscou sensibilizar o olhar dos estudantes para a cidade, despertando-os para marcas, ausências, contrastes e histórias presentes nos espaços urbanos. 


O que nos orienta é tratar a arte de verdade como linguagem, com referências, repertório e intencionalidade. Não como atividade, mas como forma de ampliar o olhar e a experiência de estar no mundo”, Gabriela Piernikarz, professora 


Foi a partir de registros fotográficos da cidade que os alunos passaram a investigar essas “cicatrizes" - que podiam ser físicas, sociais ou simbólicas, e a refletir sobre o que elas revelavam sobre o território. “A cidade, nesse sentido, deixou de ser apenas cenário e passou a ser objeto de leitura, interpretação e posicionamento. A arte entrou como meio de elaboração desse olhar: os estudantes transformaram suas percepções em produções visuais e narrativas, utilizando diferentes linguagens para expressar suas leituras da cidade. Esse movimento ampliou não só a capacidade de observação, mas também o senso de pertencimento, porque, ao nomear e representar esses espaços, eles também se reconhecem como sujeitos que fazem parte e podem intervir nesse território”, conclui a professora.

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Arte como uma possibilidade de olhar para si


Criar ou apreciar arte pode abrir uma porta não apenas para olhar de outra forma para o mundo mas principalmente para si mesmo.


Criar imagens e contar histórias sempre foi uma forma de simbolizar o mundo, de elaborar medos, falar sobre morte, vida, buscar sentido. Através da simbolização, a arte torna visível o que está oculto. Por isso, ela pode ser esse laboratório simbólico de desejos, conflitos, fantasias, que ganha um significado e uma linguagem específica”, explica Thais Bambozzi, psicanalista, coordenadora de conteúdo sobre arte, escritora e pesquisadora.


Para a psicanálise, a arte tem esse poder de criar símbolos e, assim, fazer uma mediação entre o mundo interno e externo. A arte, aliás, foi parte importante do nascimento do pensamento psicanalítico. Sigmund Freud, considerado o pai da psicanálise, era um grande admirador de arte. Lacan, outro grande psicanalista, era amigo de muitos artistas e colecionava obras. 

A criação, assim como a psicanálise, também pressupõe a livre-associação. A ideia, tanto em uma sessão de psicanálise, quanto em um processo artístico, é ser o mais espontâneo possível. Se expressar sem censura, sem moral, sem razão. Nesse exercício, é possível fazer emergir questões que estão no nosso inconsciente - dores, fantasias, medos. Nesse sentido, a arte também pode exercer um papel de organizador desse caos interno, dando contornos para esse mundo interior. “O trabalho de Nise da Silveira talvez seja o exemplo máximo desse papel organizador da arte”, comenta Thais. Nise, inspirada nas teorias psicanalíticas de Carl Jung, possibilitou a pacientes psiquiátricos a exploração por meio da arte, encorajando-os a se expressarem livremente por meio de desenhos, pinturas e esculturas. As obras podem ser visitadas no Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro (RJ).

A psicanálise associa a arte - e os artistas - a um processo chamado de sublimação, que é, de modo muito simplificado, redirecionar nossos impulsos, nossa pulsão, para algo socialmente mais aceitável: uma imagem, um texto, uma música. “A sublimação é um processo psíquico, em que você transforma essa energia, esse algo que te aconteceu em arte, literatura, cinema. A sublimação também pode acontecer com quem não necessariamente produz a arte. Em uma visita a um museu, qualquer pessoa pode se emocionar no contato com uma obra, pode se sentir tocada, pode simbolizar. Mesmo sem ser artista, o contato com a arte pode mobilizar algo em nós, sem que necessariamente saibamos o porquê”, explica Thais. E é exatamente esse o papel da Arte. 


(Texto: Naíma Saleh)

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