Quarenta anos da vida de uma editora em sete mesas de conversa durante quatro dias: estes são os números da Jornada Pedagógica 2026 que a equipe da Companhia na Educação realizou no final de abril. Mas, a gente sabe, números dizem só uma parte do todo. Os encontros entre pessoas que transitam entre temas importantíssimos presentes na escola de hoje promoveram tantas reflexões que... ah, só assistindo para entender a dimensão do que foi.

Mas vamos contar alguns destaques aqui. Com o nome Educação literária: reflexões sobre escola e sociedade, o evento celebrou os 40 anos de existência – e resistência – da Companhia das Letras. Resistência inclusive em mostrar a importância da literatura no ambiente escolar como em diversos aspectos pedagógicos e, por consequência, do desenvolvimento humano de crianças e jovens. Com a presença de autores da casa, educadores e pesquisadores, os diálogos reafirmaram como o livro pode ser um mediador de conversas fundamentais no ambiente escolar e colaborar com o enfrentamento de tantos desafios do nosso tempo.
O tema geral era amplo mas atingiu muitas especificidades. “A ideia é que fosse mesmo um tema ‘guarda-chuva’, de falar das relações entre escola e sociedade. Entram as grandes temáticas sociais que justamente por fazer parte da sociedade como um todo, entram na escola”, diz Rafaela Deiab, autora literária, cientista social e editora executiva do núcleo de educação Companhia das Letras. Independentemente do foco dos temas, a ideia do evento é reiterar que a escola é lugar de acolher os temas da contemporaneidade. “Não dá mais para dizer que a escola não pode falar de determinados assuntos”, afirma.
Celebração pelo poder de um livro
A abertura foi celebrativa! Com a mediação de Lília Schwarcz, autora (Óculos de cor, Enciclopédia negra para jovens leitores) historiadora e cofundadora da Companhia, a conversa girou em torno de como a presença cuidadosa de uma editora no campo da educação pode ser uma grande contribuição para o país. “É uma edição muito especial. Eu queria aproveitar para destacar nessa ocasião aqui, já que eu sou a espécie de cicerone da noite, o compromisso que a Companhia das Letras fez e assume com uma trajetória marcada, acredito eu, pelo respeito à literatura de qualidade. Essa mesa é um exemplo disso. Nesse sentido, o departamento de educação da editora tem um papel fundamental, justamente por pensar a literatura como uma experiência formativa e não só uma experiência instrumenta. Por encontrar na leitura um espaço de construção de sentido, de sensibilidades, de significados, de repertórios e de pensamento crítico e cidadão. A Companhia na Educação também acredita na escola como um espaço central da formação dos leitores, e também - como não? - dos professores e professoras, bibliotecários e bibliotecárias, como pessoas centrais nessa medição que é educação em um país como o Brasil, infelizmente ainda tão desigual”, disse Lília, abrindo a conversa que viria.

Lília Schwarcz e Carol Fernandes abrindo a primeira mesa da Jornada Pedagógica 2026
Chamando a primeira convidada, a autora de livros ilustrados Carol Fernandes (de Terra e do lançamento Nsamba), Lília provocou que a autora a falar da literatura como direito humano. “Sou uma uma mulher negra que nasci numa família que não teve muitos acessos à literatura, sobretudo as as literaturas voltadas para para as infâncias. Na minha escola eu também não tive acesso à literatura, como eu deveria ter tido, pensando na literatura enquanto um direito humano, um direito constituinte processo educativo.” Fazendo uma relação também com a formação de educadores no Brasil, narrou que foi justamente na universidade que o livro tomou a dimensão que hoje é em sua vida. “Eu começo a me aproximar da literatura na universidade, na Faculdade de Educação da UFMG, por meio de algumas disciplinas que têm relação com a educação para as relações étnico-raciais. Fui aluna, com muito orgulho, da professora Nilma Lino Gomes e, a partir daí, tudo foi diferente”, conta ela que começa a publicar seus livros em 2019. Então Carol narra o acesso a obras com temáticas da cultura afro-brasileira e africana, afirmando até sobre a primeira versão de Omo-Obá – Histórias de Princesas, livro da escritora paulista Kiusam de Oliveira que à época tinha ilustrações do rondoniense Josias Marinho (autor de Bateção e Tudo É Mar). Hoje editada pelo selo da Companhia das Letrinhas, a obra foi um marco na vida da Carol Fernandes professora, leitora e que viria a se tornar autora. “Eu me lembro de ter um impacto muito profundo de estar tendo acesso ali a histórias da mitologia iorubá. As narrativas iorubanas fazem muito sentido para nós brasileiros, que estamos em constante relação com as naturezas e como aquelas narrativas fazem muito sentido para as infâncias. Eu pensava assim, gente, como que isso não não chegou para mim antes?”, conta ela, sem deixar de reverenciar o chão da escola. “Preciso dizer que eu só sou autora de livros ilustrados porque eu fui professora. O meu primeiro exercício de criação imaginativa foi na sala de aula, ao lado das crianças da educação infantil. O professor é um criador, ele é um autor. Ele precisa criar ali horizontalmente com o seu coletivo, se integrar”, diz comovida. “Vivi muitas experiências artísticas ao lado das crianças. Então, eu chego como professora muito enrijecida pela vida adulta, pelo academicismo, que eu tinha acabado de ,e formar e, junto com elas, vou voltando a aprender a brincar, a aprender a fabular, a aprender a imaginar, porque não não é possível aprender e construir conhecimento sem esse processo afetivo mesmo.”
O segundo a chegar foi Roger Mello (de Carvoeirinhos e Inês), que tem mais de 30 anos de carreira se emocionou ao recordar o início da editora e principalmente do primeiro selo infantil, Companhia das Letrinhas, que se cruza com o começo de carreira dele também. Os dois recordaram histórias de quem o cuidado da editora com as obras para as infâncias. “De muitas maneiras a gente sabe que no nosso país e em muitos outros países - estou acabando de voltar de Bolonha (Feira do Livro Infantil de Bolonha, na Itália)! - a literatura infantil e juvenil, ela não só forma visceralmente crianças, adultos e adolescentes, ela forma também os pais, as pessoas que envolvem, porque é uma leitura sempre é compartilhada. Ela também é um exercício de introspecção, mas normalmente ela é compartilhada, e quantos pais e mães e tios e adultos começaram a ler por causa da criança ter acesso ao livro?“, diz o artista. A festa de abertura contou também com a presença da escritora Flávia Lins e Silva, que presenteou o Brasil com a aventureira Pilar e seus diários, uma das personagens mais marcantes das infâncias por aqui. Puxando para o tema educação e sociedade, elas conversaram: será que Pilar, que já tem 25 anos desde o primeiro livro, muda conforme nossos pensamentos mudam? “Acho que sim. Agora, por exemplo, eu fiz a adaptação do Diário de Pilar na Amazônia pro cinema e, ali, a Pilar já pareceu muito mais ativista. Então, acho que agora estamos todos nesse momento de uma preocupação tão grande com o planeta, com a ecologia, que isso vem aumentando na minha obra. Até vai sair aqui pela companhia em junho a nova personagem, Maia e a Turma da Terra, que é bem ativista, está muito furiosa com esse aquecimento e quer que a escola tem aula de horta, porque como é que a gente vai falar de reflorestamento sem aprender a plantar? Eu sou de uma geração que a gente cresceu plantando aquele feijão no algodão!”, enfatiza.
Emocionante ainda mais foi a presença de Milton Hatoum (de Cinzas do Norte, Dois Irmãos, Órfãos de Eldorado), que havia acabado de ser empossado como imortal na Academia Brasileira de Letras. “Não importa o tipo de convite que ele receba de instituição educacional, ele faz questão de participar. Educação popular, cursinho, popular, escola pública. Ele fala: eu só consigo escrever porque os leitores se renovam e eu só tenho leitores graças aos educadores que levam as minhas obras para dentro das escolas”, destaca Rafaela Deiab. Entre tantas belezas, os dois conversaram sobre memórias pessoais e compartilhadas. “Essa distância temporal é muito rica para quem escreve ficção, porque a lembrança ela já não é mais nítida, ela se torna um pouco nebulosa. Então, essa memória se transforma também numa imaginação. E a imaginação é o pilar central da ficção, do romance. Quer dizer, ela tem também um poder de conhecimento”, diz. E destacou a potência de estar em sala de aula. “Quando eu fui professor 14, quase 15 anos, eu aprendia muito com os alunos. Porque eu percebia que as indagações, as observações dos alunos, eles abordavam relações temáticas, formais e simbólicas que enriqueciam minha leitura, a minha leitura do texto que eu estava apresentando, e que eu não tinha percebido antes. Quer dizer, eles estavam sendo críticos literários.”
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Novos tempos, novos livros?
Os novos tempos trazem novas formas de fazer livros? Sim! A mesa A geração incrível: protagonismo juvenil tecnologias e saúde mental comoveu quem assistia ao vivo pelo Youtube. Impulsionado pela obra Geração incrível - Um guia para ser livre e se divertir num mundo cheio de telas (Companhia das Letrinhas, 2026), de Jonathan Haidt, Catherine Price e Cynthia Yuan Cheng (com tradução de Lígia Azevedo), que acaba de ser lançada, o debate foi potente, nos deixando muito a refletir. O assunto era complexo: como conversar com pré-adolescentes e adolescentes não apenas sobre o tempo nas telas, mas sobre o uso responsável e saudável delas.

Gabi Tonelli, Claudia Alaminos, Damião Silva e Keka Reis debateram os caminhos para uma relação mais saudável com as telas - e como a literatura pode ser parte disso
Mediado pela editora Gabriela Tonelli, a conversa começou com a psicopedagoga Claudia Alaminos confessando que ter uma obra de Haidt (que sacudiu o mundo com o seu Geração Ansiosa) voltada ao público jovem a assustou a princípio. “Ele é um companheiro de viagem meu. Tem me ajudado muito nos meus aconselhamentos, nas minhas palestras. E quando eu vi a um livro para pré-adolescentes e adolescentes, confesso que me deu muito medo. Porque às vezes um livro para essa faixa etária é extremamente infantil e eles têm ‘alergia’ quando abrem. ‘Eu não vou ler isso aqui, né?’ (risos). Lido com adolescentes e eu sei bem. É muito a cara deles, é a linguagem deles. E eu acho que o o ponto que mais me chama atenção no livro, ao lê-lo e pensar na utilização dele pelos adolescentes e suas famílias, é que ele desloca a conversa do ponto “o adolescente é um problema, ou tem um grave problema no uso de telas” e ele passa dessa correção possível que se tem para um problema para colocar como o adolescente como parte da solução”, salientou a profissional.
A autora Keka Reis (de O dia em que minha vida mudou), outra convidada do debate, adorou o título da obra e da mesa, pois ela se identifica com essa perspectiva potente da adolescência. “Sinto que existe uma certa estigmatização quando a gente fala dessas gerações, né? A gente vê nas redes sociais ‘a geração Z isso, a geração alfa aquilo’. E aí o nome ‘incrível’ já chegou chegando (risos). Já chegou trazendo um certo brilho para eles. Sou escritora e roteirista, mas eu estudei psicanálise e sou muito da palavra, presto muita atenção nesses significados”, compartilha a artista.
Fez parte também da conversa o neuropsicólogo Damião Silva, que destacou o conceito de autonomia e tocou na questão polêmica da atitude de apenas proibir. “Geração Incrível, particularmente que eu acho muito relevante, é que ele desloca o foco da discussão de um campo moral ,centrado em proibir ou permitir, que eu acho que a gente vê o tempo todo bem polarizado, para um campo do desenvolvimento. Ou seja, a questão deixa de ser ‘pode ou não pode usar’ e passa a ser como esse jovem está se construindo na relação com a tecnologia”, pontuou.
Diversidade no centro de tudo
Outra questão central dos debates entre livro, leitura, educação e escola é a diversidade. Para além dos cuidados por uma educação antirracista, o preconceito em relação às questões de gênero e sexualidade estão entrando cada vez mais cedo e de forma mais ampla no dia a dia escolar. É preciso cuidar, é preciso conversar. Ä gente vê que os livros para jovens com a temática das descobertas dos primeiros amores e da própria sexualidade são praticamente o tema dos principais livros para jovens no mundo todo”, lembra Rafaela Deiab. “Só que são assuntos que não entram dentro da escola, que acabam sendo um tabu, ao mesmo tempo que a gente escuta o relato dos educadores, que esse é o principal foco de violência dentro da escola.” Esta contradição está no cerne e é imensa a importância de encontrar formas de abordar o assunto. “Quanto a literatura é um caminho para a gente conseguir tratar do assunto, conversar sobre mediar posicionamentos e descobertas”, diz Rafaela e apontando também a confirmação da linguagem em quadrinhos para o público jovem ou em transição da infância.
Na mesa Leitura literária e projeto de vida: conexões possíveis, o debate juntou as discussões fundamentais que perpassam até pela BNCC, traçando relações de leitura entre forma e conteúdo. Já na conversa Literatura nos vestibulares: disputa de narrativa e questões sociais, tanto a pesquisadora de literatura indígena e autora Trudruá Dorrico (de Originárias, Lago Pri-pri), quanto a professora Márcia Mendonça, responsável pelas bancas elaboradoras do vestibular da Unicamp, ressaltaram algo básico que nos damos conta melhor hoje: o Brasil é plural. “Eu também concordo com a Márcia: quando você não insere, nesses grupos, a literatura desses outros grupos, você não desloca uma ideia de Brasil. É preciso deslocar essa ideia de Brasil. É só a gente olhar pro lado e ver como o nosso Brasil é muito plural e durante muito tempo a gente consumiu uma literatura muito singular”, lamenta Trudruá. “Eu como mulher indígena, ler livros que falam da minha Amazônia, da minha manga, do meu açaí, do meu cupuaçu, do meu rio.”
Para conferir tudo no detalhe, todas os links para as conversas no Youtube estão reunidas aqui
(texto: Cristiane Rogerio)