Coleção lançada por Esther Duflo e Emicida mostra a pobreza e a infância como experiências compartilhadas ao redor do mundo

25/05/2026

“Desde que eu era criança, queria escrever livros infantis. Esta é a verdadeira razão pela qual escrevi esses livros. Outra é que os livros foram tão importantes para moldar a pessoa que sou hoje… Em particular, livros sobre a pobreza, que me fizeram descobrir que há pessoas que vivem vidas totalmente diferentes da minha. Por outro lado, há poucos bons livros sobre a pobreza. A maioria retrata os pobres de forma caricaturada, como heróis ou como vítimas completamente incompetentes. E eu achei importante mudar isso”. 

Volta por cima

Em Volta por cima (Companhia das Letrinhas, 2026), a jovem Imeuni recebe um microcrédito para abrir seu próprio negócio. Mas vai precisar de mais ajuda para fazer sua ideia dar certo

Esta foi a primeira resposta da autora e economista franco-americana Esther Duflo quando questionada sobre por que escrever para crianças a respeito de um tema tão complexo - e necessário - quanto a pobreza. Esther recebeu em 2019 o prêmio Nobel de Economia por seus estudos experimentais sobre a redução da pobreza, ao lado dos economistas Abhijit V. Banerjee e Michael Kremer. Ela é professora de economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, e co-fundadora do Laboratório de Ação Contra a Pobreza Abdul Latif Jameel (J-Pal). E acaba de lançar no Brasil, junto com o rapper e escritor Emicida e com a ilustradora francesa Cheyenne Olivier, os dois primeiros livros de uma série que se propõe a olhar para a pobreza de uma forma propositiva, engajadora, conectada com desafios reias. Conta comigo (Companhia das Letrinhas, 2026) e Volta por cima (Companhia das Letrinhas, 2026), ambas com tradução de Mariana Delfini. 

Conta comigo retrata a relação entre o menino Bibir e a velha Konwu. Os dois são habitantes de uma comunidade. A velha passa o dia resmungando sozinha… e Bibir e seus amigos temem aproximarem-se do casebre dela… Será que ela era uma bruxa? Mas um dia, quando Bibir se achega, vê o teto do casebre desmoronado sobre Konwu. E é aí que tudo muda e o menino passa a se aproximar da senhora. 

Já em Volta por cima, acompanhamos a jornada da jovem Imeuni ao se tornar empreendedora. Sem dinheiro para cursar uma faculdade, ela decide se arriscar em abrir seu próprio negócio quando tem a oportunidade de receber um microcrédito - “pequeno empréstimo oferecido a famílias pobres, geralmente para as mulheres”, como explica o livro. Ela é uma garota com muitas ideias. Mas para prosperar,  isso não basta. E a história vai mostrando como é importante receber a ajuda e a orientação para empreender.

São livros que mostram situações que fazem parte do cotidiano afetado pela pobreza - como a dificuldade de acesso ao estudo, a falta de recursos e repertório para empreender, e a vulnerabilidade ainda maior de algumas populações, como os idosos, nessas configurações. As histórias inspiram soluções ativas para melhorar a qualidade de vida e ampliar perspectivas para o presente e para o futuro – mas deixam claro que não há mágica. É preciso ter oportunidade, com políticas públicas, ações coletivas, criatividade, para que essas mudanças se concretizem. Os textos de Esther, que seguem as histórias trazendo esclarecimentos mais amplos sobre a pobreza, ajudam a trazer mais contexto, permitindo a construção de camadas de sentido mais profundas. Em Conta comigo, ela explica, por exemplo que em alguns lugares, idosos são estigmatizados como bruxos, como bodes expiatórios para justificar a pobreza, o aparecimento de pragas e outras catástrofes.

Para a autora, é importante fazer essa exposição da pobreza, tanto para as crianças que vivem imersas nessa realidade quanto para as que estão completamente distantes. “Crianças pobres podem se reconhecer nos livros, porque não são normalmente representadas em toda sua humanidade. E as outras crianças podem perceber que as crianças pobres também são crianças, assim como elas”, defende Esther. 

Emicida está presente nas páginas como uma espécie de facilitador. Isso acontece por meio de um personagem dele próprio ilustrado por Cheyenne, cujo papel é trazer mais contexto às histórias pensando no cenário do Brasil e convidando leitores e pais a refletirem sobre as questões apresentadas – como quando o negócio que Imeuni abre não dá certo. “É mais divertido usar a imaginação do que apenas copiar os outros. Pense na sua realidade: se Imeuni morasse perto de você, em que ela poderia investir?” questiona o Emicida estampado nas páginas de Volta por cima. 

Esther conta que outros países onde os livros já circularam desde 2022, como França e Índia, se apropriaram das obras de formas diferentes - seja escrevendo uma introdução, ou pedindo para que a autora escrevesse um novo posfácio para as crianças. Mas a participação de Emicida marca um formato inédito. “É a primeira vez que temos uma figura, alguém que é autor de livros, que é importante para as crianças e que é artista dizendo: ‘olha, eu penso assim, você pode pensar também’. É como trazer uma nova vida para os livros”, comenta a autora.

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A pobreza como uma questão universal

Conta Comigo

Em Conta comigo (Conta Comigo, 2026), o menino Bibir a princípio tem medo da velha Konwu, porque todos dizem que ela é uma bruxa...


 “Esse povoado poderia ser na África, na Ásia, na América do Sul ou no hemisfério Norte. Ou seja, em qualquer lugar onde, mesmo com características e impactos diferentes, a pobreza persiste. Sabia que 1% da população dos Estados Unidos está em condição de extrema pobreza?”, escreve Emicida sobre o povoado imaginário onde se passam as histórias. Criar um ambiente e narrativas que pudessem fazer sentido em qualquer lugar do mundo assolado pela pobreza foi um objetivo - e também um dos desafios - na produção dos livros. 

“O que a Esther queria trazer desde o princípio é que existe essa experiência da pobreza que é compartilhada. E que há uma experiência da infância que também é compartilhada. Então, as ilustrações e a história precisavam expressar esse senso de unidade”, conta Cheyenne. A partir dessa premissa, o trabalho dela como ilustradora foi criar esse universo inventado, mas que pudesse estar localizado em qualquer lugar do planeta em que a pobreza e a infância marcam seus pés no chão. 

Nas ilustrações, há personagens com muitas cores de peles, mas não são mostradas referências culturais de nenhum país ou região específicos. Ainda assim, a pobreza é facilmente identificada - na fogueira improvisada com tijolos no chão, na lâmpada sem lustre pendurada no teto por um fio. A ilustradora optou por utilizar ícones e referências visuais presentes nos gráficos de economia - uma sacada que reforça todo o sentido e propósito das histórias. Um detalhe em particular chama atenção: a linha que desenha o chão e que sobe e desce página a página é uma referência à curva LC, como é chamada a Curva de Lorenz, um gráfico usado para medir a desigualdade de renda ou riqueza em uma população.

Cheyenne também contou que passou muito tempo com Esther discutindo sobre os personagens, refletindo sobre suas ações e escolhas. “Durante os quatro anos em que esse projeto se desenvolveu, esses personagens se tornaram reais para nós. E é isso que queremos: que as crianças brasileiras sintam que eles de alguma forma fazem parte da realidade delas”, conta a ilustradora.

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Colocar a pobreza em pauta - no Brasil e no mundo


Para Emicida, um dos grandes méritos do projeto é tratar de um tema que a maioria das pessoas não busca voluntariamente por meio de uma linguagem simples e eficiente tanto no texto como nas imagens de Cheyenne. Quando olha para a realidade brasileira, nesse papel de “facilitador” da obra,  Emicida destaca que percebe que há uma grande preocupação com esse tema por aqui, mas que nem todos têm as ferramentas para elaborá-lo. “Esses livros ajudam a expandir esse espectro e a fazer com que essa conversa ganhe mais naturalidade, para assim produzir a transformação com que a gente sonha”.

 


Livros como esses abrem portas, conversas. E dessas portas, a compreensão a respeito de como é viver nesse mundo que compartilhamos se expande muito. E faz com que a gente observe a nossa própria realidade.” Emicida


A ideia é criar caminhos para que a coleção chegue às escolas, a centros comunitários e coloque a pobreza em pauta como uma questão coletiva. As histórias mostram que há caminhos possíveis para construir um mundo com mais igualdade de oportunidades, com mais qualidade de vida para todos, com mais dignidade. E que cada vida que se transforma de alguma forma também é capaz de transformar seu entorno, abrindo novos campos de possibilidades para todos.


(Texto Naíma Saleh)

 

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