Zebrina andava um tanto desanimada. E olha que o aniversário dela estava próximo – mas nem isso a motivava. Ela não tinha mais vontade de sair de casa. Era uma zebrinha borocoxô.

Um guarda-roupa mágico devolve a Zebrina o ânimo para sair de casa e voltar a fazer o que gosta em Feliz aniversário (Companhia das Letrinhas, 2026)
Até o dia em que a tia de Zebrina, preocupada com a situação, resolve mandar para ela de presente um guarda-roupas. Mas não um tipo comum: um guarda-roupas mágico!
Em Feliz aniversário (Companhia das Letrinhas, 2026), da autora sul-coreana Heena Baek, com tradução da ARA Cultural, são os looks incríveis que a cada novo dia aparecem no armário que ajudam a pequena zebra a se animar. A cada manhã, Zebrina encontra peças diferentes - que são descritas minuciosamente, como nas coberturas jornalísticas de desfiles de moda. E com elas, se inspira a fazer diferentes atividades. Com o vestido de linho cinza-escuro e um colete longo de musselina, por exemplo, ela pega suas tintas e o cavalete e se põe a pintar.
Mas será que as roupas podem ter todo esse poder?
Para a psicóloga Maiara Alves Silva Maciel, do Serviço de Psicologia do Hospital Pequeno Príncipe, de Curitiba, as roupas podem, sim, influenciar a forma como nos sentimos. Inclusive no caso das crianças. “Algo de que se gosta ou que faz a criança se sentir bonita, confortável ou ‘divertida’ pode aumentar a confiança para se expressar e interagir. Além disso, a forma como os outros reagem também conta: um elogio, um olhar de aprovação ou até o sentimento de pertencimento a um grupo podem fazer diferença”, explica.
Para a consultora de imagem e moda Marina Cassoli, a forma como nos vestimos comunica quem somos e por isso pode nos ajudar a construir nosso papel social no mundo. “Ao longo da vida é natural usar a moda para pertencer a um ‘grupo’ ou comunicar um desejo de ser ‘alguém’ novo”, explica. Um sentimento parecido ao que Zebrina descobriu com o guarda-roupa mágico: uma nova versão (ou talvez uma versão mais feliz) de si mesma.
O problema está quando a aparência vira uma das principais fontes de aprovação e pode acabar se tornando central na autoestima. “Por isso, é importante que a criança tenha outras formas de se sentir reconhecida”, ressalta a psicóloga.
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Mas por que a roupa importa tanto?

A cada manhã, Zebrina encontrou dentro do guarda-roupa um novo look...
Não dá para negar que vivemos em uma sociedade em que a aparência é um fator fundamental. Parecer - e performar - às vezes é mais importante do que ser de fato. E as crianças estão inseridas nesse mundo. Elas percebem essa preocupação nas fotos que postamos - incluindo os filtros que usamos -, na maneira como nos arrumamos para diferentes ocasiões, nos comentários que fazemos sobre nosso corpo e aparência e sobre o corpo e a aparência de outras pessoas. “As crianças não vivem isoladas, elas percebem, desde cedo, o que é valorizado socialmente”, observa a psicóloga.
Para as meninas, especialmente, as expectativas sobre como se vestir pesam mais. Que o diga Diana, a Didi, da Faísca (Companhia das Letrinhas, 2026), lançamento de Ilustralu. Pensem em uma menina que adora festa junina: a quadrilha, as comidas, os rojões. A única coisa que ela não gosta são aqueles vestidos cheeeeeios de babado e que, convenhamos, não são realmente muito confortáveis. Quando a mãe de Didi insiste para que a menina coloque um vestido desses, ela se recusa categoricamente. Mas a mãe insiste: “Todas meninas tão com vestido junino, Didi!”
E a menina responde:
“Eu não quero escolher as roupas das outras meninas, não. Só a minha”.
Didi defende seu querer. Mas em uma sociedade onde meninas e mulheres ainda sofrem uma grande pressão estética, que muitas vezes se ancora em padrões pouco realistas, é difícil não corresponder a ideais de beleza, de feminilidade, de performance. Não há como fugir dessa realidade. Por isso, é importante apresentar às crianças outros caminhos possíveis, outras maneiras de ser e estar no mundo. “Isso significa mostrar, na prática, que existem muitas formas de ser admirado, reconhecido e elogiado: pela forma de brincar, pela criatividade, pelo cuidado com o outro, pelo esforço em aprender algo novo”, recomenda Maiara. E reforçar que, sim, existem padrões, mas que não são eles que definem o valor de uma pessoa. “Esse tipo de conversa ajuda a criança a desenvolver um olhar mais crítico, sem precisar se sentir inadequada por não corresponder a tudo”, aconselha.
Algumas vezes, a própria moda pode trazer boas referências de personalidades que ajudaram a quebrar certos padrões. Coco Chanel talvez seja o maior símbolo de como a moda pode ajudar a revolucionar papéis. Nascida Gabrielle Bonheur Chanel, em 19 de agosto de 1883, a estilista francesa foi, talvez, a primeira a criar roupas que colocaram as mulheres em um lugar de poder e de decidirem se vestir para si mesmas. No lugar de espartilhos, modelagens mais soltas. Tecidos antes considerados masculinos, como o jérsei, passaram a ser usados em peças femininas mais confortáveis e elegantes, que permitiam mais movimento e conforto.
A moda deve ser ferramenta de autoconstrução para a liberdade de sermos quem quisermos ser, e acima de tudo, peça chave da nossa comunicação, Marina Cassoli, consultora de imagem e moda
“Acho que é fundamental sabermos o que queremos comunicar através das roupas. Isso está completamente ligado com nossa sensação de bem estar e pertencimento”, explica Marina. Para ela, para que a moda não seja vista como uma prisão, o autoconhecimento é primordial. “Não adianta seguir uma tendência que não combina com sua essência nem com sua rotina, por exemplo. Isso trará sofrimento”, observa.
A autoestima está além do que se vê

Para a psicóloga Maiara, as roupas importam, mas são apenas uma porta de entrada para explorar e construir a própria imagem. “Elas podem ajudar a criança a se soltar, a experimentar, a se mostrar, mas a construção de uma autoestima mais sólida depende de muitas outras experiências”, alerta. Para ela, a autoestima pode ser entendida como a forma como a criança passa a se perceber e se valorizar ao longo do desenvolvimento. “Vai sendo construída ao longo das experiências de vida dessa criança, principalmente nas relações com outras pessoas”, explica.
No começo, a autoestima da criança se apoia muito no tipo de relação que ela nutre com pais e principais cuidadores. E, mais tarde, quando começa a frequentar outros espaços, como a escola, as opiniões e relações com os colegas também entram nessa conta. E, assim, os elogios e críticas que a criança recebe no dia a dia, as comparações – mesmo as mais sutis - entre ela e os irmãos ou amigos também vão construindo essa imagem sobre si.
“A autoimagem, ou seja, a forma como a criança vê o próprio corpo e aparência, tem um peso importante nesse processo. Isso porque, desde cedo, o corpo costuma ser um dos primeiros aspectos que recebem comentários, sejam elogios, brincadeiras ou críticas”, explica Maiara. É por isso que a aparência física pesa tanto. Porém, se vira uma fonte de aprovação e de valor, pode ser bastante prejudicial ao longo do desenvolvimento. Especialmente na adolescência, quando o corpo passa por muitas mudanças.
A grande dica é fazer com que a criança se sinta reconhecida e valorizada para além da forma como ela está vestida, para além do seu peso, para além de estar usando uma roupa nova ou um penteado diferente. É elogiar o jeito que ela resolveu algum problema; o jeito que ela pensa, ou falar das coisas que ela gosta: música, livros, filmes etc.
A ideia é ajudar a criança a construir uma relação consigo mesma que não dependa apenas do espelho, mas também das experiências, dos vínculos e do que ela descobre que é capaz de fazer.”, Maiara Alves Silva Maciel, psicóloga
Para isso, Maiara dá algumas dicas:
- reconhecer o esforço da criança, não só o resultado
- valorizar qualidades diversas, como criatividade, gentileza e persistência
- oferecer oportunidades para que ela experimente, erre e aprenda
- evitar comparações frequentes com outras crianças
- fazer elogios que não estejam apenas atrelados à aparência física.
- cuidar da forma como os adultos falam sobre o próprio corpo e aparência, principalmente perto da criança