Todo torcedor sabe que assistir a uma partida no estádio é muito mais do que apenas estar no estádio. A experiência começa bem antes. Na gente uniformizada que se reconhece no metrô. Nos hinos cantados na cadência dos passos. Nos ambulantes espalhados pelas calçadas vendendo cornetas, camisetas e outros badulaques. No cheirinho da salsicha que exala do carrinho de cachorro-quente. É um pouco dessa imersão que sentimos em É dia de futebol (Brinque-Book, 2026), quarto livro que nasce da parceria entre Leo Cunha e Tino Freitas, ilustrado por Priscila de Paula, a PriWi.
Leo conta que a inspiração para a história surgiu a partir de um princípio do livro ilustrado de criar uma narrativa em que texto e ilustrações apresentassem um certo descompasso. “Eu trouxe uma ideia de que era um livro para crianças em que o texto estivesse dizendo uma coisa, mas que a imagem estivesse em outro tempo, contando algo que já tinha acontecido ou que ainda estava para acontecer”, explica.

O brilho no olhar que imprime a experiência que é estar um estádio em dia de jogo
A dupla começou a brincar com esse jogo entre palavras e imagem, mas o livro ainda não tinha um tema. Foi aí que surgiu a ideia de falar sobre futebol, uma paixão compartilhada pelos dois autores, assim como as histórias. “Começamos a pensar no tempo do jogo e no tempo de ir até o jogo. Sobre o momento fantástico, emocionante, surpreendente que é chegar a um estádio e ver o campo, as bandeiras, a torcida. Esse seria o momento-chave”, conta o autor. Nas páginas de É dia de futebol, o leitor lê no texto o que a personagem, que até o fim do livro não conhecemos, viu no jogo. Mas as imagens vão mostrando o percurso dela até ali, até chegar a esse momento epifânico que é se deparar com o estádio vibrando e as arquibancadas lotadas e sentir o coração disparar. Nas ilustrações, eles imaginaram os olhos da personagem brilhando, com o deslumbramento de viver essa experiência. E foi a partir dessa imagem que veio a ideia de construir a narrativa sob um outro ponto de vista específico: o das Pessoas com Deficiência (PcD). “Nesse momento, lembramos da Clarice, que é enteada do filho do Tino, e é uma ‘neta’ para ele. A Clarice é cadeirante, adora futebol, vai ao estádio. Ficamos pensando que seria uma personagem muito legal de trazer para o livro”, conta Leo.

Ver um jogo acontecendo no estádio é algo que se estende muito além dos portões de entrada....
Assim como Clarice, o advogado Claudio Bazoli também é um apaixonado por futebol. Ele cresceu frequentando estádios, sobretudo o Maracanã e o estádio de São Januário, ambos no Rio de Janeiro. “Desde o final dos anos 80 eu vou aos jogos de futebol. Lembro daquela Copa América de 1989 que o meu falecido pai levou eu e o meu irmão para assistir ao jogo entre Brasil e Paraguai.”, conta. Ele viu a experiência de chegar e estar no estádio se transformar quando se tornou cadeirante, há 25 anos. E desde 2013, junto com a esposa, a advogada Karla Bazoli, eles criaram o projeto Caçadores de Estádios. A ideia é avaliar a acessibilidade de estádios no Brasil e no mundo, oferecendo um verdadeiro serviço ao público com mobilidade reduzida. “As nossas experiências vividas nos estádios têm o intuito justamente de mapear os locais para que outros PCDs quando forem, não se sintam perdidos ao frequentar os palcos esportivos”, conta o casal.
O projeto aproximou o Cláudio e a Karla de diversas pessoas com deficiência. “Viramos referência para eles. Nos procuram para pedir informações de gratuidade de ingressos [o estatuto da Pessoa com Deficiência (PcD) garante o direito ao benefício de meia-entrada em cinemas, teatros, shows e eventos esportivos e de lazer], de locais acessíveis nos estádios, como saber qual é melhor entrada e setor, se há rampas, se há bancos para acompanhantes”, relatam. O casal conta que quando a acessibilidade não funciona em algum estádio, o papel do projeto é justamente relatar as melhorias que precisam ser feitas e isso gera uma certa insatisfação. “Nosso objetivo não é mascarar a realidade para se promover. Só haverá mudanças se buscarmos melhoria. Quando falo em acessibilidade, não é só para o cadeirante, mas também para os autistas, idosos, obesos, grávidas e pessoas com deficiência de uma maneira geral. A inclusão não pode ficar só na teoria, mas na prática também é fundamental que exista”, afirma Claudio.
Como acompanhante, Karla percebe nitidamente a diferença entre assistir a um jogo com e sem o marido. “Muda totalmente a percepção. Uma coisa é você não precisar da acessibilidade para curtir uma partida de futebol e ter uma experiência comum no geral. Outra coisa é você precisar, pensando desde a compra dos ingressos até a chegada ao estádio e o local acessível. Preciso prestar atenção em tudo à nossa volta, ficar atenta tanto aos locais de alimentação próximos, à localização da saída em caso de emergência. Tenho que ficar ligada durante o jogo se a visão do Cláudio está sendo obstruída por pessoas sem deficiência que invadem o espaço, o que não aconteceria se fosse cercado por grades”, relata.
Desde o início do projeto, o casal já visitou 214 estádios e ajudou a promover algumas mudanças. “Aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, o setor da social do Vasco passou a ser cercado com grades. Houve um esforço para que todo cadeirante nesse setor não tenha mais a sua visão obstruída por outras pessoas circulando. No Espírito Santo, o pessoal da Secretaria de Esportes pintou o local acessível no estádio Kleber Andrade. As pessoas ficavam ali em pé pois não havia demarcação. Em Palmas, no Tocantins, após me cobrarem ingresso e não darem gratuidade, isso foi exposto na mídia e a prefeitura se movimentou e passou a dar gratuidade. É muito gratificante saber que por onde passamos deixamos algum legado”, conta Claudio.
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Mas, o que é acessibilidade de verdade?
Dados do Censo de 2022 indicam que há no Brasil 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o que representa 7,3% da população com dois anos ou mais. Entre elas, 7,9 milhões relataram dificuldade de enxergar, 5,2 milhões relataram dificuldade para andar ou subir degraus e 2,6 milhões, dificuldades para ouvir.
A Lei Geral do Esporte (Lei nº 14.597/2023) estabelece o esporte como um direito social, tendo a inclusão e a acessibilidade como princípios fundamentais. Dessa forma, tanto a prática de esportes como acompanhamento dos jogos deve pensar na adequação de espaços e equipamentos para pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida.

Acessibilidade nos estádios é muito mais do que disponibilizar rampas e elevadores
Porém nem sempre é isso o que se vê na prática. “O que mais percebemos é a falta de informação”, relata o casal.
É por isso que falar em acessibilidade implica em pensar em um conceito mais amplo do que apenas colocar rampas e elevadores. Há muitas dificuldades, além da mobilidade, que precisam ser contempladas. Tornar um lugar acessível implica em pensar como eliminar as barreiras para que todas as pessoas possam ter não apenas o acesso, mas uma experiência de qualidade, com autonomia, segurança e igualdade de oportunidade. Na prática, trata-se não apenas pensar nos aspectos estruturais - como garantir rampas, elevadores e pisos táteis, que guiam o trajeto e sinalizam obstáculos para pessoas com deficiência visual. É preciso pensar na comunicação - não só em informar de forma clara a localização de entradas, elevadores, rampas de acesso. Mas no caso de pessoas com deficiência visual e auditiva, disponibilizar informações em Libras, ou por meio de audiodescrição e legendas. E também levar em conta iniciativas para combater preconceitos e sensibilizar a importância de respeitar para incluir. “Há de se ressaltar que o público que não tem deficiência também precisa ser conscientizado a respeitar o espaço acessível, assim como o staff das arenas esportivas também precisa organizar esse espaço para que não seja invadido por quem não faz jus ao direito”, ressalta Claudio.
No caso da experiência em um estádio para uma pessoa cadeirante, por exemplo, não é só chegar até ali e ter uma área reservada. Às vezes, a vida de quem tem mobilidade reduzida já começa a se complicar na retirada dos ingressos, na falta de informação sobre onde está localizada a entrada ou os banheiros acessíveis - o que acarreta deslocamentos desnecessários. Há vezes, por exemplo, em que existe uma área reservada para pessoas com deficiência, mas quando ela não é demarcada ou bem projetada, outras pessoas podem circular e atrapalhar a visão de quem depende desse espaços. Outro ponto fundamental, que muitas vezes passa despercebido, é a falta de assento para o acompanhante. Não adianta ter apenas o espaço reservado para quem está na cadeira de rodas.
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Um espaço próprio para pessoas autistas
Pela primeira vez, o Censo incluiu também o número de pessoas autistas nas estatísticas: são 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas dentro do espectro no Brasil. E pensar em adaptações para que esse público também tenha uma boa experiência nos estádios é importante.
Para a Copa do Mundo de 2026, que tem início dia 11 de junho, a organização anunciou que todos os 16 estádios, distribuídos entre México, Estados Unidos e Canadá, terão salas sensoriais. São espaços com iluminação e sons reduzidos, onde é possível descomprimir quando se experimenta situações de super estímulo. Isso porque pessoas autistas podem ter maior sensibilidade sensorial, reagindo de forma intensa a estímulos de sons, texturas, luzes e cheiros.
A médica Taiane Solin, que é autista, conta que, no caso dela, especialmente a exposição a sons pode desencadear crises “que às vezes podem se estender por dias, ou até semanas”. Para Taiane, esses episódios deixam o raciocínio lentificado, causam dores articulares, musculares e dias de sonolência, além de dificuldade de fazer coisas mínimas como se alimentar ou tomar banho. “Para mim, ter salas sensoriais é algo que faz muita diferença porque nos permite ‘dar um tempo’. Muitos autistas evitam frequentar lugares (como shows, aeroportos, parques de diversão) com medo de ter uma crise. E essas salas podem nos ajudar a nos regularmos, para não ter uma”, explica. O filho de Taiane, Lorenzo, também é autista. E contando com apoio também de outros recursos, como abafadores e terapia de integração sensorial, os dois conseguem frequentar até grandes shows em estádios.
A ideia é que, durante os jogos da Copa, essas salas sejam acessíveis a todos os torcedores com ingressos - o que também pode beneficiar outros públicos, como famílias com crianças pequenas.
Seguindo o mesmo raciocínio, garantir elevadores e rampas não beneficia apenas os cadeirantes, mas também idosos, grávidas e pessoas obesas. Esse é o ponto da acessibilidade: considerar as necessidades de públicos diversos, atendendo a demandas específicas para garantir boas experiências a todos. Com empatia, boa vontade e políticas pensadas para garantir a acessibilidade, o esporte realmente pode exercer um papel de unir pessoas – independente de que lado da torcida cada um esteja.
(Texto: Naíma Saleh)