Festa junina: entenda as origens do festejo mais amado do Brasil

15/06/2026


As festas juninas são tradição no Brasil inteiro. E acabam refletindo a diversidade de costumes e culturas que fazem parte do nosso país. 


Tem forró, xote e arrasta-pé.Tem samba de coco, marchinhas e xote. E tem até country e sertanejo universitário dando o compasso dos arraiás.  


Tem paçoca, pipoca e milho assado na fogueira. Tem bolo de aipim - ou melhor chamar de mandioca ou macaxeira? Tem pastel, tem canjica, tem cachorro quente e munguzá…

Faísca

As comidas são um dos pontos altos da celebração de São João. Diana, a protagonsita de Faísca (Companhia das Letrinhas, 2026), é uma entusiasta dos comes e bebes juninos... 


Mas quais são as origens desse festejo, que faz de junho um dos meses mais esperados pelos brasileiros? Mesmo para aqueles que não têm devoção alguma aos santos celebrados durante o mês. Especialmente no Nordeste do Brasil, as festas juninas viraram simplesmente “o São João”. Mas além dele, festejado em 24 de junho, são celebrados também outros dois santos neste mês: Santo Antônio, no dia 13, e São Pedro, no dia 29.


Então, talvez a primeira pergunta a ser feita seja: por que São João é que ganhou protagonismo nos festejos?


Para Rafael Afonso Gonçalves, Ana Carolina Viotti e Gabriel Ferreira Gurian, os três historiadores doutores por trás do projeto Comer História, que se dedica à pesquisa histórica e à produção escrita partindo da comida para acessar memórias e saberes, é difícil apontar para uma causa única que explique o porquê de São João ter se tornado a grande estrela dos arraiás. “Vale dizer que no decorrer do tempo e em diferentes lugares, esses festejos adquiriram características e ritualísticas próprias – por isso é tão acertado falarmos de festas juninas, no plural. De todo modo, o protagonismo do santo se traduz na própria denominação das festas: ‘juninas’ é uma corruptela linguística de ‘joanina’, que vem de João – e não de junho, o mês, como muita gente acredita”.


Embora seja difícil localizar com precisão as origens dessa celebração, o marco zero, há um elemento que conecta o nosso São João a tantas outras celebrações deste e de outros tempos: o fogo. É em volta da fogueira que a festança acontece. E a centralidade desse elemento na festa tem um motivo: a relação com o calendário astronômico e as estações do ano. “Se ampliarmos esse sentido, podemos dizer que as festas estão ligadas ao movimento do Sol e, sim, de algum modo, com o fogo. Dia 24 de junho, dia de São João, é muito próximo da data do solstício de verão no hemisfério norte, que pode mudar de ano para ano, mas que ocorre geralmente no dia 21 de junho, quando se experimenta o dia mais longo do ano (com a maior incidência do sol). Em razão da vivência de um dia com mais luz – e mais longo –, a época se tornou objeto de diferentes manifestações culturais, simbólicas, agrícolas, em diferentes culturas”, explicam os especialistas do Comer História. Eles citam, por exemplo, o festival de Midsommar, uma celebração popular nos países nórdicos, especialmente na Suécia e na Escandinávia, com origens pré-cristãs. Nessa festa, as fogueiras também desempenham um papel primordial. Não é à toa que Didi, a personagem de Faísca (Companhia das Letrinhas, 2026), é fascinada pela fogueira - e também pelos rojões que fazem parte do São João.


A tradição cristã conta que Santa Isabel, depois de anos tentando ter um filho, e já idosa, finalmente engravidou. Quando o pequeno João nasceu, ela acendeu uma fogueira no alto de uma colina para contar à sua prima Maria, que viria a ser mãe de Jesus. 

Faísca

A festa junina acontece ao redor da fogueira - e faz os olhos de crianças e adultos brilharem


Para os especialistas do Comer História, o fato de os festejos de São João na Europa estarem vinculados ao fogo, “desempenhou um papel relevante para a adesão de comunidades indígenas que passaram a viver nos territórios dominados pelos portugueses, em especial, pelos jesuítas”. A chegada das festas juninas ao Brasil fez com que a celebração fosse se nacionalizando e incorporando outros elementos das culturas que já se encontravam por aqui. “No caso dos indígenas, temos registros já da segunda metade do século XVI dessa participação e adesão às festas de São João, com ritualísticas – muitas vezes entendidas como brincadeiras – em torno das fogueiras. E, claro, essas pessoas não apenas participavam, mas também ajudaram a dar forma a esses festejos no Brasil”, contam os especialistas.


Quando se olha para a influência da cultura africana e afrobrasileira nos festejos juninos, é possível identificar comidas típicas, como a pipoca e o munguzá (cozido de milho no leite de côco também conhecido como canjica na região Sudeste), que também são comidas de santos no Candomblé. E embora muita gente associe São João a Xangô, orixá originário da cultura iorubá, para os especialistas não é possível fazer exatamente uma correspondência entre os dois porque são sistemas religiosos diferentes. “O que ocorre é uma aproximação estabelecida também pela simbologia do fogo. Ainda que nos rituais do Benin, região predominante de origem do Candomblé do Brasil, a representação de Xangô esteja ligada ao fogo - e também ao trovão e justiça – , por lá a fogueira não faz parte da ritualística, como por aqui. Ao que parece, foi aqui no Brasil, que os ritos em torno da entidade passaram a se manifestar também por meio de fogueiras”, explicam. 

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Tá bom, mas por que as festas juninas são as favoritas de tanta gente?


Tudo bem que escolher uma festa popular favorita no Brasil não é uma tarefa tão simples. 


O Carnaval movimenta cada canto do país com cores e ritmos próprios. Seja nos exuberantes desfiles de escolas de samba, seja nos bloquinhos de rua que pipocam nas capitais e no interior, seja no trio elétrico que arrasta multidões em Salvador, seja no Galo da Madrugada de Recife. O Boi Bumbá desperta a paixão e a rivalidade entre as torcidas do Boi Garantido (vermelho) e o Boi Caprichoso (azul). O Círio de Nazaré, maior manifestação religiosa de origem católica no Brasil, reúne mais de 2 milhões de fiéis unidos pela devoção à Nossa Senhora de Nazaré. 


Mas as festas juninas… Ah, as festas juninas!


A autora Mariane Bigio, autora da primeira leva de livros da Coleção Canoa, que também é cantora, contadora de histórias, radialista e videasta, além de defensora da cultura nordestina e do cordel, é uma apaixonada pelos festejos desde sempre. (Aliás, nesta conversa com o Blog Letrinhas, ela estava vestida a caráter, com vestido junino e brinco de bandeirinhas, porque tinha acabado de gravar um video sobre… festa junina!)  Para ela, o São João faz tanto sucesso porque tem um “pacote sensorial” completo. “Tem as músicas, tem os trajes, tem a dança com a quadrilha e tem as comidas. Eu também amo carnaval… mas não tem uma comida típica!”, argumenta.


E nem precisamos explicar muito que talvez o grande diferencial da festa junina seja ela: a comida. Com um cardápio típico vasto e próprio, que varia um bocado de região para região, as festas juninas conquistam pelo estômago até quem não quer dançar quadrilha, quem não quer botar traje junino, quem não gosta de jogar bingo nem de soltar rojão. 

 

“Eu adoro o São João

Uma festa tão bonita

Bandeirinhas e balão

Moça com laço de fita

Chapéu de Palha, rapaz

Tudo isso e muito mais

Que você nem acredita!

 

Mas o que eu mais gosto mesmo

É a danada da comida!

É cada coisa gostosa

Como eu nunca vi na vida!

Um cheiro bom na cozinha

Sempre peço uma provinha

Pois sou muito atrevida!

(...)”

Confissões de uma menina que adora comida junina!, de Mari Bigio, 2013


Quando os festejos juninos chegaram ao Brasil, foi a disponibilidade dos alimentos que redefiniu o que se entendia como comida típica para a ocasião. E há um ingrediente que se sobressai tanto nas festanças do Nordeste como mais ao sul: o milho. Do munguzá (ou canjica) ao bolo de fubá, do curau à pamonha, passando pelo cuscuz de milho e pelo próprio milho cozido ou assado, não é difícil notar a importância que esse alimento adquiriu. “Como a época coincide com a colheita do milho, a celebração adquiriu outras camadas de significado ao também incorporar as celebrações em torno desse cereal tão importante para as culturas brasileiras, inclusive as indígenas, cuja alimentação se baseava no milho muito antes da presença dos portugueses”, explicam os especialistas do Comer história. 


“Tem bolo pé-de-moleque

Tem pamonha, mungunzá

e a canjica, que delícia

eu como até enjoar!

no intervalo da quadrilha

pra recarregar a pilha

vou correndo me fartar!!!

 

Tem bolo de macaxeira

Mandioca e fubá

O bolo Souza Leão

Paçoca pra completar

De milho também tem broa!

É tanta comida boa

Que não dá nem pra contar!

 

Milho assado na fogueira

Ou cozido na panela!

Com manteiga de garrafa

Lambuzado na tigela!

Viva, viva São João!

Viva o milho, a plantação

A roça toda amarela!”

Continuação de Confissões de uma menina que adora comida junina!, de Mari Bigio, 2013

 

Além do milho, também reinam a mandioca - e o amendoim - no pé de moleque, no pé de moça, na paçoca, no bolo de amendoim . Vale mencionar também o pinhão no sul do Brasil e a maniçoba e o tacacá no Amazonas – onde, aliás, as festas juninas têm como figura central o Boi-Bumbá. “Há outros alimentos muito comuns em festas juninas, não necessariamente de origem nativa ou americana, que acabam incorporadas pelo festejo, e isso ligado à lógica da abundância: os vinhos quentes e quentões, as maçãs do amor, os morangos, chocolate, cachorro quente, pastel, enfim. Se come muito bem nas festas juninas e a ideia é esta!”, explicam os especialistas.

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Uma festa de todos feita por todos

Mari Bigio

A autora, cantora, contadora de histórias, radialista, videasta e amante de festa junina, Mari Bigio

 

A comida também contribui para outro ponto que torna as festas juninas tão populares: o caráter colaborativo desse festejo. Ao contrário do Natal, que é uma festa celebrada em caráter mais íntimo, dentro de casa, priorizando a família, as festas juninas estão para fora, na rua - em praças, em terreiros, em quintais. “Nesses dois pólos, Natal sendo uma celebração íntima e a festa junina tendo um caráter mais público, a comida desempenha papel importante como essa ´cola´ social. Em torno da comida, essa sociabilidade pública se torna mais fluida e a comunidade se conhece em meios aos festejos e, junto com isso, se auto reconhece. Ao lado do carnaval, é a festa mais importante para a construção desse sentimento de pertencimento comunitário”, explicam os especialistas.

“Minha ex-sogra, por exemplo, faz um bolo de macaxeira todo à mão - não usa nada elétrico. Rala tudo na mão, mistura tudo na mão e chama um monte de gente para ajudar, claro”, conta a autora, ilustrando como o preparo de toda a comida já é um fator de socialização. Mas não para por aí. “Não é uma festa para poucas pessoas porque precisa de pelo menos umas 20 para dançar a quadrilha”, conta Mari. Vale lembrar que, especialmente no Nordeste, a quadrilha têm um caráter ainda mais importante. Nas grandes celebrações de São João, principalmente em Campina Grande (PB) e em Caruaru (PE), dançar quadrilha é coisa séria. Os ensaios duram meses, os trajes elaborados nos mínimos detalhes, e há uma intensa pesquisa histórica e cultural por trás das apresentações, que duram cerca de 30 minutos. “E cada um tem a sua ‘quadrilha de estimação'”, conta. 

Para Mari, viver plenamente o São João – que também representa uma época intensa de trabalho para ela, com muitas apresentações musicais e literárias – é também a realização de um sonho de criança. “Na minha infância, minha família foi evangélica. E existe um certo preconceito por ser uma festa de santos católicos e também relacionada de alguma forma aos orixás. Viver o São João foi algo que eu sempre desejei fazer.  E não podia porque a religião me travava. Hoje estar tão próxima do São João, trabalhando com o cordel e com a música pela infância, é um afago pro meu coração”. 


Talvez esta estrofe do cordel São João na minha terra! – Literatura de Cordel, de  Mari, resuma bem esse espírito mágico do São João:


"A gente não se acomoda
co’as memórias, nostalgias
Zabumba ecoa no peito
lembrando das alegrias
pro povo do meu rincão
era bom se o São João
tivesse uns 90 dias!"

 

(texto Naíma Saleh)

 

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