O futuro das crianças (e da humanidade) é ancestral e acontece agora
Olhar para a sabedoria dos povos originários e se inspirar nesse entendimento de pertencer à natureza, vendo a Terra como um organismo vivo, pode frear o colapso ambiental
“Cientista”, “definição”. Digitando estas duas palavras para o modo IA do buscador Google o que vem é: “ser cientista é investigar o desconhecido de forma sistemática para expandir o conhecimento humano”. Ayodele, uma das protagonistas do livro Oriki (Companhia das Letrinhas, 2026), escapa um tantinho deste significado: embora tenha a curiosidade pelo que ainda não sabe, está de olhos, mente e coração bastante interessados em tudo que veio antes. A personagem cientista desta obra de Henrique André e Rafael Calça tem uma neta, Anayo, que está em busca de entender que interesse todo é esse da avó no passado.
Passado e futuro, antigo e novo: Oriki (Companhia das Letrinhas, 2026) mostra que a ancestralidade está no horizonte
Oriki é o primeiro livro da Companhia das Letrinhas a abordar a temática do afrofuturismo. Este termo está associado à estética, às histórias, às artes. Mas, acima de tudo, trata-se de uma perspectiva de futuro para pessoas negras, e que une movimentos artísticos e movimentos políticos. O escritor e ilustrador Henrique André, paulistano que viveu dos 3 aos 18 anos em Petrolina (PE), já escreveu histórias com o tema em livros anteriores. Ele conta que o encontro com o termo e conceito aconteceu a partir do contato com quadrinistas e editores, como os companheiros artistas Régis Rocha, Israel Neto, Anderson Maximino e Aisameque Nguengue. Em Afrofuturo: o ancestral do amanhã (lançado numa primeira versão independente e depois no catálogo da Kitembo, 2022), seu primeiro livro para as infâncias, Henrique narra um momento de aula com a professora Amara que conversa com alunas e alunos sobre o que desejam para o futuro. Na conversa, fazem a ponte entre passado, presente e futuro, partindo para a compreensão, então, que o futuro é ancestral.
“É o cerne do Oriki. Ele traz como pano de fundo maior essa disputa de narrativa do jovem e do antigo, do ancestral e do presente”, conta Henrique André que, na Bienal de são Paulo de 2022, teve um encontro com a editora dos selos infantis da Companhia das Letras, Débora Alves, quando começou a nascer o projeto. A história se concentra na relação de uma neta e sua avó, na aldeia Akintoye, no ano de 2978. “Eu acredito que no futuro, lá em 2978, muitas das mazelas que a gente tem hoje já vão ser vencidas. Mas essa é uma que vai se manter, porque sempre tem essa coisa do olhar do agora, querendo construir o futuro sem muitas vezes a ancestralidade, que com aqueles erros a gente constrói muita coisa, faz diferente, vê as evoluções”, completa o autor. O livro é sobre a pessoa mais velha ter a serenidade de quem tem a experiência de vida, com a vontade da mais jovem de arriscar, de voar nas ideias e nas possibilidades. Mas, sobretudo, sobre o respeito mútuo nestas relações.
“O que eu gostei muito do Oriki é dar para a criança aquilo que é algo muito forte das histórias negras: quando a gente fala de passado, a gente fala sobre conhecimento; quando a gente fala de futuro, a gente fala de fé”, diz o autor Rafael Calça, também paulistano e vencedor de prêmios como Jabuti, o HQ Mix e o Troféu Angelo Agostini. “O futuro é um lugar onde a gente está vivo ainda, e muitos dos nossos não têm futuro, não chegam lá, não sobrevivem. Então não é só a morte física, mas uma morte espiritual. Uma morte emocional de desistir dos seus sonhos de não acreditar em si mesmo, de desistir daquele ímpeto infantil ou juvenil”, completa. E é justamente esse “ímpeto” que Anayo demonstra na história – e é isso que a avó está esperando.
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As ilustrações de Rafael Calça ajudam a desenhar o retrato do encontro entra passado e presente
Entre tantos afetos que pensar sobre afrofuturismo pode provocar em todas e todos nós, um dos mais comoventes é ampliar as possibilidades das conversas intergeracionais. Ayodele é uma cientista experiente de profissão, de vida e de consciência de sua ancestralidade. Anayo é interessada em novas tecnologias e no que o futuro pode ainda trazer. Enquanto a menina vive “como um rio que corria livre, com pés ligeiros e sonhos mais velozes que estrelas cadentes”, a avó era “como uma raiz antiga, carregando em suas mãos a experiência do tempo e da ciência.”
Enquanto os desenhos do Rafael Calça vão nos envolvendo em cores, traços fortes, recortes que lembram as HQs e detalhes repletos de afrorreferências com temáticas cósmicas e científicas, vamos compreendendo que as duas personagens enfrentam um dilema: “o vento das gerações soprava forte, afastando os mais jovens das vozes antigas”. Isso preocupava a avó e a menina tinha suas dúvidas:
Vovó, por que a maior cientista da aldeia se apega tanto ao passado?
Nosso tempo é uma espiral que não se desconecta. Anayo, minha neta, o ontem, o hoje e o amanhã estão sempre de mãos dadas.
Mas, vovó, como seguir em frente olhando para trás? Isso não é possível!
Veja as raízes da grande mãe que interligam toda a nossa aldeia, como o sistema neural. Nossa paz está na ancestralidade, minha pequena.
E de quem são essas raízes? Do imenso baobá que não só faz parte da narrativa como guarda o miolo do livro, detalhe ainda mais poético do design da obra.
A palavra afrofuturismo não aparece na história, mas permeia tudo: para a avó, se o passado foi futuro, as raízes sustentam o amanhã; para a menina, se o papo é “inovação”, ela está, sim, muitíssimo interessada. A figura da avó é central, não apenas como personagem. “É aquilo de pensar que minha avó, além de ser passado, também é futuro. Minha avó está nos livros que eu estou escrevendo, a Dona Florência era personagem no livro Futuro Ancestral de Acauã (Pulo do Gato, 2025). Ela é essa avó aqui em Oriki. Ela tem essa sapiência também de não segregar, de não romper com o jovem. Ela traz o jovem pra perto, sabe?”, conta Henrique. “Essa vó tem fé no futuro”, retoma Rafael. “A avó é aquela, especialmente nas famílias negras, aquela que segura todas as pontas. É aquela mulher mais velha que não dá para dizer que alguém da minha geração, do Henrique, estaria vivo se não fosse ela.”
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Quando a avó é convocada pelo conselho de Akintoye a criar algo que reaproxime os jovens das heranças ancestrais, elas criam o Oriki, um aparelho que permite conectar o passado, o presente e o futuro.
Henrique e Rafael criaram um universo entrelaçando as questões do conteúdo da história à forma. Entre palavras e imagens, vamos enriquecendo nosso vocabulário como se a própria leitora ou leitor vivesse a experiência com o Oriki, palavra da língua iorubá que significa cântico de louvor aos ancestrais. Mas há coisas que podemos até não perceber à primeira vista: “Eu fui pensando com cuidado no visual, sabe? Um lilás para a avó em referência a Nanã. Para mim, foi a primeira coisa que pensei em termos de cor, pensei na sabedoria dessa avó, que está ali para te falar sobre passado, presente e futuro. E também em elementos, como os brincos da avó, que é um adinkra de sabedoria, o nó da sabedoria, e no cinto da neta, que tem uma flor de lótus, que significa renascimento”, detalha Rafael.
O projeto gráfico e o jogo com as imagens produzidas por Rafael Calça vão compondo para o leitor uma atmosfera de sentidos diversos e que, ao mesmo tempo, se conectam. Tem uma sequência de três duplas de páginas que são especialmente impressionantes: na primeira, uma espécie de manual aparelho Oriki mostra como ele é “por dentro”, e ficamos sabendo que ele é feito de “metais vivos, fibras de carbono e interconexões ancestrais” e que tem o tamanho de um globo ocular humano. Mas ainda nesta mesma dupla, compõem o significado do que está acontecendo na história uma série de símbolos adinkras relacionados à força e humildade, resistência, progresso e crescimento, visão de futuro e proteção e, sim, o pássaro sankofa – aquele está andando para frente, mas com a cabeça olhando para trás - ligado à sabedoria de aprender com o passado para construir o futuro. A gente percebe que tem mais que elementos físico-químicos ali. Quando viramos a página, a avó está conectando o aparelho na neta e o impacto visual é forte se completa na dupla seguinte, quando vemos o “encontro” de Anayo com figuras como Luiz Gama, João Cândido, Lélia González e Dona Ivone Lara.
Ela cai no choro. Nós também.
(texto Cristiane Rogerio)
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