"Esteja à escuta": André Gravatá fala sobre poesia e natureza
O autor fala sobre o processo criativo de 'Converseiro da Natureza', reflete sobre sua relação com a poesia e sua admiração por Manoel de Barros
A poesia virou dobradinha na 24ª edição da FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty, que acontece entre 22 e 26 de julho na cidade colonial fluminense. Depois de Paulo Leminski ser o autor homenageado na edição de 2025, este ano é a vez de outra poeta: Orides Fontela (1940-1998).

A poeta Orides Fontela, homenageada da 24ª edição da FLIP
LEIA MAIS: FLIP 2026: Confira a agenda com autores e atividades com os selos infantis da Companhia das Letras
Nascida em São João da Boa Vista (SP) como Orides de Lourdes Teixeira Fontela, Orides foi poeta, professora e se formou em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Seu primeiro poema foi escrito aos sete anos de idade e seu primeiro livro, Transposições, foi publicado em 1969.
Orides não dava longas entrevistas a jornalistas, se mantinha longe das mídias e, talvez, por isso, possa à primeira vista ser encarada como uma desconhecida – mas não era. Apesar de não ter sido devidamente reconhecida pelo grande público, suas obras faziam parte de círculos de acadêmicos e de poetas. Ela foi elogiada por vários críticos e intelectuais, entre eles Antonio Candido (1918-2017), Décio de Almeida Prado (1917-2000) e a filósofa Marilena Chauí.
Candido escreveu: “Orides Fontela tem um dos dons essenciais da modernidade: dizer densamente muita coisa por meio de poucas, quase nenhumas palavras, organizadas numa sintaxe que parece fechar a comunicação, mas na verdade multiplica as suas possibilidades”.
O terceiro livro da autora, Alba (1983), foi vencedor do prêmio Jabuti de Poesia. E Teia (1996) foi contemplado com o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Apesar dos reconhecimentos, a trajetória pessoal de Orides parece em muitos momentos ter se sobreposto à potência de sua poesia. Ela teve uma infância pobre, filha de um pai marceneiro que não chegou a se alfabetizar. Ela parece ter carregado consigo um certo sentimento de não-pertencimento por toda a vida, sendo lembrada com uma figura genial e isolada. E como tantas mulheres, era considerada “difícil”, o que ofuscou sua produção literária.
Ainda que fosse conhecida e respeitada pela crítica, morreu endividada. Foi despejada de seu apartamento em São Paulo e aos 58 anos morreu em um sanatório em Campos do Jordão, vítima de tuberculose.
Poema
Saber de cor o silêncio
diamante e/ou espelho
o silêncio além
do branco.
Saber seu peso
seu signo
— habitar sua estrela
impiedosa.
Saber seu centro: vazio
esplendor além
da vida
e vida além
da memória.
Saber de cor o silêncio
— e profaná-lo, dissolvê-lo
em palavras.
[Do livro Alba]
Apesar da aridez que experimentou em sua existência, a poesia de Orides traz uma espécie de esperança. Convida a olhar com o frescor que olham as crianças. E faz brotar nas palavras frestas que abrem dimensões outras para os significados de seus versos.
LEIA MAIS: Escrever para adultos é também escrever para crianças?
Odilon Moraes, autor de Lá e Aqui (Pequena Zahar, 2015), com Carolina Moreyra, já admirava o trabalho de Orides havia anos, quando foi convidado pela professor e editor Augusto Massi, a escrever a orelha de um livro de poemas de Fontela que será lançado para o público infantil. Massi está colaborando com a editora Hedra, que detém os direitos de Orides, na conservação das obras da autora. “Eu já tinha comentado com o Massi, enquanto ele era meu editor, que eu gostava muito da Orides. Eu tinha um livro dela só, o Teia (1996). E fiquei apaixonado por ela. Não conhecia os outros livros, mas fiquei fascinado com a escrita dela”, conta Odilon.
“Embora ela fosse uma poeta marginal, no sentido de não ser muito conhecida, ela não era uma poeta marginal, ao contrário: ela tem uma poesia que foge dessa coisa mundana. Ou melhor: é como se ela trouxesse outra camada para esse mundano”, explica o autor. Ele conta que foi o pai de Orides, que era analfabeto, quem a levou para a poesia. “Para ela, a poesia estava antes da literatura, antes da palavra. Para ela, saber observar uma coisa a partir de um certo lugar poético já é esse estado da poesia. A poesia vem no encontro com a palavra”, explica.
Os poemas de Orides podem aparentar uma certa economia de palavras, uma precisão entre combinar significados e sons. Mas há sempre algo oculto nessa simplicidade, que abre uma janela para amplificar entendimentos. É por esse caminho que a poesia de Orides pode também conversar com as crianças. “Os poemas dela tocam nesse ponto em que ao mesmo tempo há presença e transcendência. É a palavra que diz e que se abre”, define Odilon.
Cartilha
Foi de poesia
lição
primeira:
“A arara morreu
na aroeira”
O autor e poeta André Gravatá, de Converseiro da Natureza (Companhia das Letrinhas, 2025) e Floresta de perguntas (Companhia das Letrinhas, 2026), também já conhecia o trabalho de Orides de longa data. “Fiquei encantado com a voz da Orides! Ela tem uma precisão tão aguda na escrita de cada palavra. Talvez por isso ao lê-la eu escrevi o verso: ´A poesia é um arco que nos leva diretamente ao coração do presente.’”
A escolha de uma poeta que sabe manejar tão bem a língua, que demonstra esse cuidado com a palavra abrindo diferentes camadas vem em um momento de elogio e potência da própria Língua Portuguesa. O monólogo "O Céu da Língua", escrito e interpretado por Gregório Duvivier, venceu importantes prêmios no cenário teatral brasileiro, com um texto que reúne humor, poesia e reflexões que brincam com os sotaques, afetos e memórias que a nossa língua carrega.
Para Gravatá, o fato de ter mais uma vez uma poeta como homenageada na Flip também contribui para quebrar um certo estigma sobre a poesia. “A questão é que se difundiu muito uma ideia elitista que aponta que os livros de poesia são difíceis, pra poucos, como quando uma diretora de escola me disse que poesia era só pra almas elevadas. Mas é hora de alargar nossa percepção! De partilhar diferentes poesias coletivamente. De criar poesia coletivamente. De lembrar que tem muitas maneiras de criar poesia. De lembrar que a obra de cada poeta é cheia de surpresas e se apaixonar por um verso que seja já é um acontecimento imenso!”, defende.
Para ele, homenagear a Orides é convidar mais gente a provar da poesia dela. “É celebrar a poesia que ousa, que revela uma palavra selvagem, nascente, vertiginosa!”
(Texto Naíma Saleh)
O autor fala sobre o processo criativo de 'Converseiro da Natureza', reflete sobre sua relação com a poesia e sua admiração por Manoel de Barros
Edição voltada ao público infantil lançada em 2014 com desenhos de Ziraldo, ganha espaço especial na feira que este anos homenageia o poeta Paulo Leminski
No lançamento de "Lá longe", Odilon Moraes e Carolina Moreyra falam sobre a linguagem no livro ilustrado e a parceria dentro e fora da literatura