Como materializar as férias e eternizar lembranças na volta às aulas

07/08/2026

Para as crianças, o tempo é diferente do calendário. Elas contam o tempo vivido. Por isso, as férias são tão esperadas e lembradas. Há liberdade de tempo para brincar, viajar, estar em família. Por isso, na hora de pensar na volta às aulas, tão importante quanto adaptar a rotina é criar memórias deste período vivido. Dividir essas experiências de formas criativas instiga um retorno positivo à escola. Quando estas lembranças se materializam, em forma de histórias, desenhos, álbuns, sacolas e até malas, as crianças entendem que as férias continuam existindo, só que nas recordações. 

Sacolas de ferias

Quando elas percebem que as férias não foram embora, mas ficaram guardadas dentro delas, como boas lembranças, a volta às aulas deixa de representar um fim e passa a ser o início de novas experiências que, no futuro, também se tornarão boas memórias.

Quem avalia é a psicóloga Fernanda Napoli Martins, especialista em neuropsicologia e psicomotricidade. Ela destaca que o retorno não precisa significar o fim da diversão. Assim, pais e professores devem evitar expressões negativas, como “acabou a moleza” ou “agora começa o sofrimento”. 

É preciso demonstrar acolhimento e segurança, instigando a troca de memórias e a inclusão. “Isso ajuda o cérebro a consolidar essas experiências como memórias afetivas positivas, em vez de associar o fim das férias a uma sensação de perda.”

Em casa, é importante encarar a volta às aulas com muita conversa e respeito ao tempo de adaptação de cada filho. É um momento que pode gerar ansiedade, irritação e alterações no sono, assim como aumento de crises, no caso de crianças neurodivergentes. Fernanda traz algumas dicas que podem ajudar: 


•⁠  ⁠Retorne à rotina alguns dias antes, ajustando horários de sono, atividades e alimentação.

•⁠  ⁠Antecipe o que vai acontecer, porém não com muita antecedência, para não gerar ansiedade. Explique como será o primeiro dia, quem estará na escola e quais atividades são esperadas. Se possível, utilize apoio visual (calendário, fotos ou sequência de rotina).

•⁠  ⁠Valide os sentimentos da criança. Em vez de dizer: "Não precisa ter medo", experimente: "Eu sei o que está sentindo e sei que mudanças podem ser difíceis, mas vamos passar por isso juntos". 

•⁠  ⁠Evite mudanças desnecessárias nas primeiras semanas, para gerar menos adaptações ao mesmo tempo.

•⁠  ⁠Respeite o tempo de readaptação. Algumas crianças precisam de alguns dias ou semanas para voltar ao ritmo, e isso não significa falta de capacidade.

•⁠  ⁠Observe sinais de sobrecarga, como maior irritabilidade, cansaço, alterações no sono, aumento de estereotipias ou crises. Esses comportamentos podem ser uma forma do cérebro comunicar que está trabalhando intensamente para se adaptar.

•⁠  ⁠Celebre pequenas conquistas. Comemore o esforço, não apenas o resultado. Reconhecer cada passo — como acordar no horário, entrar na escola com mais tranquilidade ou completar o primeiro dia — fortalece a confiança da criança.


Planeje um momento especial após o primeiro dia. Pode ser, preparar a comida preferida, brincar juntos ou fazer um passeio curto. Assim, a criança associa o retorno escolar a uma experiência agradável.

Na escola, vale o lúdico e a escuta ativa para eternizar as memórias das férias. A pedagoga Marianna Canova, especialista em psicopedagogia e mestre em Educação, conta que na escola onde é diretora, a Peixinho Dourado, cada criança levou uma sacola para casa antes das férias. Ela deveria ser personalizada e guardar elementos que representassem esse período para, na volta, compartilhar com os amigos. “Está sendo incrível como eles estão felizes em compartilhar tudo o que viveram. Nesse momento, conseguimos perceber também como está a linguagem da criança, o nível emocional que ela traz, então, são maneiras de escuta ativa que facilitam esse processo.”

As lembranças vividas nas últimas semanas podem ser tantas que precisem de uma mala toda para guardar. É o que propõe a artista-educadora Juliana Carnasciali, a JulliPop, da Mala Ateliê (@malaatelie). “A mala é um objeto que nos propõe escolher e organizar coisas dentro. E que serve para ir e para voltar. Propor construir ou desenhar essa mala com memórias das férias é uma proposta deliciosa e instigante para todas as idades.”

Uma mala para materializar as lembranças das férias

 

A mala pode ser desenhada, mas pode ser também uma mala de verdade. O fundamental, diz Juliana, é como o convite para organizar essas memórias é feito. As frases que abrem os encontros podem ser:


•⁠  ⁠Se fôssemos fazer uma mala das férias da nossa turma, organizando as melhores memórias, o que não poderia faltar?

•⁠  ⁠⁠Quais cores fizeram das suas férias um momento inesquecível? (E propõe uma pintura).

•⁠  ⁠Qual vista (imagem/local/pessoa) das férias você gostaria que morasse aqui na escola com a gente e por quê?

•⁠  ⁠⁠Construa óculos especiais, sendo que suas lentes são seus momentos inesquecíveis das férias. O que estes óculos mostram?

•⁠  ⁠⁠Com sua família, crie um álbum de fotos impressas com registros escritos dos melhores momentos vividos. Quais fotos vão para a capa?

Juliana pontua a necessidade da escola trabalhar o olhar amoroso e sensível, com espaço para o brincar, deixando memórias e ideias arejadas, de modo leve e calmo, sem pressa, “como estar de férias convoca”.


(Texto: Mauren Luc)

 

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