Com uma prosa que transita entre a franqueza, a raiva e a ternura, Filho é um livro de memórias que narra a busca pelo direito de existir sem medo -- da fome, da pobreza, da violência e da homofobia -- e as inevitáveis marcas que se ganha durante a rota de fuga.
Thallys Braga percorreu um caminho similar ao de outros trânsfugas de classe, ascendendo social e financeiramente por meio dos estudos. Mas, como ele narra neste Filho, a distância entre o subúrbio de Inhoaíba, onde nasceu, e a Zona Sul carioca é muito maior do que os sessenta quilômetros que separam os dois lugares.
Thallys cresce com a família materna. A mãe, Luciana, passa a vida se desdobrando para sustentá-los e encontra na Igreja evangélica apoio emocional e material nos momentos mais difíceis. Fio condutor do relato, a relação com a mãe -- complexa, conturbada, amorosa, incondicional -- marca toda a vida de Thallys e ganha novos contornos quando Luciana descobre que o filho é gay. Num ambiente de homofobia arraigada e de poucas expectativas para o futuro, deixar Inhoaíba parece ser a única saída para o autor. Mas, afinal, é realmente possível se afastar da pessoa que mais nos ama, daquela que mais amamos? Até que ponto essa liberdade é permitida para quem tem a obrigação de cuidar dos que ficam para trás?
Com voz própria, Thallys Braga se inscreve na tradição de narrar em primeira pessoa a complexidade das trajetórias de mobilidade social, percorrendo, à sua maneira, um caminho aberto por nomes como Annie Ernaux, Didier Eribon e Édouard Louis. Ao tratar de uma realidade ainda pouco abordada na literatura brasileira, Filho é um ensaio autobiográfico duro e honesto sobre o preço de partir.
"Tão poético quanto político, a estreia de Thallys Braga na literatura já se lê como a obra de um escritor totalmente maduro." -- Édouard Louis
"Em Filho, Thallys tem a coragem de olhar para a própria vida, para a história de sua mãe e de outras pessoas próximas -- e faz isso com honestidade incomum, cruzando as planícies áridas da pobreza e da homofobia, em busca de respostas à indagação incontornável sobre o que é ser filho." -- José Henrique Bortoluci
"A originalidade maior de Thallys Braga está no modo como declama os fatos relacionados à vida cotidiana nos bairros populares das metrópoles. Os acontecimentos são os únicos responsáveis pela formação educacional de um 'si mesmo', um self original. Adulto, ele é filho órfão de pai e mãe. O órfão declama. Não se entrega à introspecção. Declama para o leitor o dia a dia de uma família brasileira remediada, a de todas as escuridões -- e de uma só faísca de astúcia e de saber. A faísca tem nome próprio, anônimo e coletivo, Filho." -- Silviano Santiago