Trecho do livro OS VENDILHÕES DO TEMPLO

JERUSALÉM, 33 D. C. Nunca pensei em me tornar vendilhão do Templo, dizia ele, alto e bom som, aos que quisessem ouvir. E os que queriam ouvir (nem tantos, mas nem tão poucos: algum sucesso alcançara, em termos de vendas e de ouvintes) não tinham razão nenhuma para duvidar de suas palavras. Nascido e criado no campo, estava destinado a ser um agricultor - como o pai e o avô. Como eles, trabalharia a sáfara terra de uma pequena propriedade. Como eles, gastaria a vida em dura rotina: acordar, sondar os céus (o que trariam as nuvens que se acumulavam no horizonte, a chuva tão esperada ou o maldito granizo que destruiria a plantação?), ir para o campo, arar, semear, colher. Como eles, teria poucas alegrias; como eles, morreria cedo, pedindo aos filhos, no leito de morte, que continuassem o seu trabalho. E isso, para uma pessoa de alta linhagem, para um descendente do patriarca Judá, era uma humilhação. Um sofrimento. Apesar de tudo, gostava de cultivar a terra; desse trabalho falava - a quem quisesse ouvir - com minúcias que seriam até enfadonhas, não fosse a emoção que coloria suas palavras: as lágrimas vinham-lhe aos olhos quando lembrava, por exemplo, a junta de bois que puxavam o seu arado e que tivera de vender para pagar dívidas. "Onde estarão agora, os meus bois? Será que já não os mataram?" Dedicado ele era, porém mal conseguia sustentar a família com o produto das magras colheitas. Era trigo, o que plantava, e trigo teria plantado a vida toda, não fosse a concorrência do barato grão trazido do Egito e de outras partes do Império romano, e que estava arruinando muitos pequenos proprietários. Para alguns, tratava-se de uma inexorável decorrência do progresso: afinal, o que o Império estava fazendo, ainda que pela força das armas, era apagar fronteiras, era criar - sob sua égide, claro - um mundo só. Mas a ele, homem simples, pouco informado, tal explicação não convencia. Nada sabia a respeito do tal Império, entidade distante, misteriosa, sinistra. Conhecia, sim - e odiava -, os soldados romanos, de cujas arbitrariedades fora, como muitos, vítima; mas da política de grandes potências não entendia, nem queria entender, só queria viver em paz na sua terra, com sua gente. O que, para sua amargura, tornara-se agora impossível. Revoltava-o ainda mais o fato de que muita gente conhecida comia, sem qualquer problema, pão feito do trigo estrangeiro. Era o caso de um pastorzinho que apascentava suas ovelhas ali perto. Não poucas vezes censurara o rapaz: se teu pai fosse vivo, não permitiria isso, essa traição. O jovem limitava-se a sorrir, debochado: o pão é bom, meu caro senhor, se não foi feito com nosso trigo, a mim pouco importa, o que importa é aproveitar as coisas boas e baratas, venham de onde vierem: - Temos de aceitar a realidade: os tempos são outros. Os tempos eram outros? Não para ele. Para ele, tudo o que dizia respeito a tempos resumia-se na cíclica sucessão dos dias e das noites, das estações do ano, no plantio e na colheita. Sempre fora assim - para seu pai, seu avô, seus antepassados. Agora vinha um pastor, um mero pastorzinho, dizer que os tempos tinham mudado. Pouca-vergonha. Em breve, porém, teve de admitir que, desgraçadamente, o arrogante rapaz tinha razão: os tempos eram, mesmo, outros. Os preceitos morais do passado, aí incluído o respeito aos mais velhos, rapidamente desapareciam. Ele não fazia questão de ser respeitado pelo pastorzinho, não lhe importava. Mas a pobreza e a fome desmoralizavam-no, abatiam-no por completo. Não se lembrava de tempos como aqueles; os mais velhos falavam de secas que tinham durado anos, de gente comendo casca de árvore; nunca acreditara, ou, se acreditara, não achava que tais catástrofes pudessem acontecer de novo: apesar de tudo, procurava manter-se otimista. Mas agora a desgraça tinha caído sobre ele e sua família como ave de rapina; além da escassa colheita, os impostos: o fisco tinha levado o pouco que sobrara. Resistiu enquanto pôde, vendendo inclusive objetos da casa; por fim, não lhe restando alternativa, reuniu a mulher e os dois filhos (dois outros tinham morrido, um de febres, outro - o mais velho, o primogênito em quem via o seu sucessor - assassinado: bandidos não faltavam, naqueles tempos tenebrosos) e disse-lhes: é inútil, não podemos mais ficar aqui, temos de partir. Choraram muito, os familiares; não queriam abandonar aquele lugar, a terra que amavam. Mas a verdade é que estavam todos cansados de sofrer. A mulher, coitada, não se habituava às privações; filha única do próspero dono de uma vinha, deixara o conforto da casa paterna para repartir com o marido o pão da pobreza. Fazia milagres para que a comida rendesse, remendava as roupas para que durassem mais. Mas suas forças haviam chegado ao limite; tão doente estava que mal caminhava, arrastava-se dentro da casa (casa? A palavra era até irônica, em verdade moravam num tugúrio) tentando dar conta das tarefas domésticas. Ele olhava o seu rosto fanado e perguntava-se: é essa a linda jovem cujos lábios um dia eu beijei com ternura e paixão? Essa é a moça cujo porte eu comparava ao de uma princesa? A angústia traduzia-se em pesadelos: não raro acordava à noite gritando. Sim, tinham de partir. E, já que iriam viver longe da terra, que o fizessem não numa aldeia ou numa pequena cidade, mas na capital, que, apesar de ocupada pelas tropas do Império (ou justamente por isso), oferecia melhores oportunidades de trabalho. A primeira coisa a fazer era vender a propriedade. Que, a rigor, não lhe pertencia; de acordo com a tradição, as terras eram de Deus, os homens só podiam dispor delas para seu sustento. Mas, como dizia o irônico pastorzinho, os tempos eram outros, e ele precisava de dinheiro para começar vida nova. Procurou o rico proprietário que já adquirira as terras de vários de seus vizinhos. Foi uma penosa negociação. O homem, indiferente a seu sofrimento, tratou de tirar proveito da situação, oferecendo muito menos do que as terras valiam. Sem alternativa, ele acabou aceitando a oferta. Recebeu o dinheiro, pagou as dívidas; com o pouco que restava, partiram. [...]