Preso no aeroporto de Pittsburgh em razão de uma tempestade de neve, um professor espanhol de literatura aguarda o embarque para Buenos Aires, onde fará uma palestra sobre a obra de Jorge Luis Borges. Embora tente, não consegue se desvencilhar do importuno Marcelo Abengoa, um negociante que, pelo simples fato de reconhecer nele um compatriota, chama-o num canto e começa a lhe fazer as mais íntimas confissões. Os casos que Abengoa relata giram em torno de Carlota Fainberg, ex-atriz com quem ele teria passado noites inesquecíveis num hotel decadente de Buenos Aires. Chegando à capital argentina, o professor decide conhecer o hotel e, por uma série de indícios, percebe que a história contada por seu conterrâneo tinha implicações inimagináveis. Molina explora a fundo a oposição entre Abengoa, tipo inconveniente mas sedutor, e o professor universitário, sujeito metódico que assimilou por completo certa assepsia moral dos norte-americanos. A partir do contraste entre a sexualidade expansiva de um e o ascetismo do outro, ironiza com mão de mestre os "pensadores" que precisam sempre de uma teoria para se relacionar com o mundo.
Opinião do leitor
Uma bela incursão crítica, em termos ficcionais, pelas malhas da teoria multiculturalista. O autor é impiedoso com seus adeptos e também com o protagonista de sua novela, um ingênuo professor universitário. Os estudos culturais são tratados no livro como uma ameaça opressiva, capaz de lançar mão de qualquer meio para subjugar o sujeito ou aliciá-lo. Nesse aspecto, não diferem em nada das fantasias norte-americanas de dominação comunista, durante a Guerra Fria, que geraram tantos livros e filmes. Eis um dos méritos de Molina, mostrar que o multiculturalismo é o reverso de uma alucinação, um desejo.