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O GATO MALHADO E A ANDORINHA SINHÁ
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A história de amor do gato malhado e da andorinha Sinhá eu a escrevi em 1948, em Paris, onde então residia com minha mulher e meu filho João Jorge, quando este completou um ano de idade, presente de aniversário; para que um dia ele a lesse. Colocado junto aos pertences da criança, o texto se perdeu e somente em 1976 João, bulindo em velhos guardados, o reencontrou, dele tomando finalmente conhecimento.
Nunca pensei em publicá-lo. Mas tendo sido dado a ler a Carybé por João Jorge, o mestre baiano, por gosto e amizade, sobre as páginas datilografadas desenhou as mais belas ilustrações, tão belas que todos as desejam admirar. Diante do quê, não tive mais condições para recusar-me à publicação por tantos reclamada: se o texto não paga a pena, em troca não tem preço que possa pagar as aquarelas de Carybé.

Londres, agosto de 1976
J. A.

Ao concordar, em agosto de 1976, com a publicação desta velha fábula, ao nome de meu filho João Jorge, a melhor pessoa que eu conheço, quero acrescentar nesta página de dedicatória os de meu afilhado Nicolas Bay, dito Nikili e Niki, tão belo quanto inteligente, e os dos meus netos Bruno, Mariana, Maria João Pinóquio Leão e Cecília, que não a podem ainda ler e por isso mesmo; como não a podia ler João quando eu a escrevi. Os nomes dos netos e o nome da avó, dona Zélia, que sempre obtém o que quer quando assim decide.
Quero dedicá-la ademais a alguém que não conheço pessoalmente; imagino seja homem e não mulher mas em verdade não sei. Trata-se de leitor que há muitos anos, talvez uns vinte, me envia a cada dois ou três meses, regularmente, álbuns de recortes sobre as mais diferentes matérias, tudo quanto lhe pareça de interesse a meu ofício de romancista. Assina-se com diversos nomes e se atribui variadas profissões; um de seus múltiplos pseudônimos é Jarbas Carvalhal, do clã dos Carvalhal. Além de mim, conquistou ele outros admiradores: Mirabeau Sampaio é seu fã incondicional e, quanto a João Jorge, desde menino devora os grossos álbuns de recortes. Dedicando este livro, iluminado por Carybé, ao amigo numeroso e anônimo, quero nele simbolizar meus leitores brasileiros e estrangeiros, de tantos países e idiomas, agradecendo-lhes a fiel estima, honra e orgulho de minha vida de escritor.

O mundo só vai prestar
para nele se viver
no dia em que a gente ver
um gato maltês casar
com uma alegre andorinha
saindo os dois a voar
o noivo e sua noivinha
dom gato e dona andorinha.

Trova e filosofia de Estêvão da Escuna,
poeta popular estabelecido no Mercado das Sete Portas, na Bahia



Era uma vez antigamente, mas muito antigamente, nas profundas do passado, quando os bichos falavam, os cachorros eram amarrados com lingüiça, alfaiates casavam com princesas e as crianças chegavam no bico das cegonhas. Hoje meninos e meninas já nascem sabendo tudo, aprendem no ventre materno, onde se fazem psicanalisar para escolher cada qual o complexo preferido, a angústia, a solidão, a violência. Aconteceu naquele então uma história de amor.


MADRUGADA

A manhã vem chegando devagar, sonolenta; três quartos de hora de atraso, funcionária relapsa. Demora-se entre as nuvens, preguiçosa, abre a custo os olhos sobre o campo, ai que vontade de dormir sem despertador, dormir até não ter mais sono! Se lhe acontecer arranjar marido rico, a manhã não mais acordará antes das onze e olhe lá. Cortinas nas janelas para evitar a luz violenta, café servido na cama. Sonhos de donzela casadoira, outra a realidade da vida, de uma funcionária subalterna, de rígidos horários. Obrigada a acordar cedíssimo para apagar as estrelas que a noite acende com medo do escuro. A noite é uma apavorada, tem horror às trevas.
Com um beijo, a manhã apaga cada estrela enquanto prossegue a caminhada em direção ao horizonte. Semi-adormecida, bocejando, acontece-lhe esquecer algumas sem apagar. Ficam as pobres acesas na claridade, tentando inutilmente brilhar durante o dia, uma tristeza. Depois a manhã esquenta o sol, trabalho cansativo, tarefa para gigantes e não para tão delicada rapariga. É necessário soprar as brasas consumidas ao passar da noite, obter uma primeira, vacilante chama, mantê-la viva até crescer em fogaréu. Sozinha, a manhã levaria horas para iluminar o sol, mas quase sempre o vento, soprador de fama, vem ajudá-la. Por que o bobo faz questão de dizer que estava passando ali por acaso quando todos sabem não existir tal casualidade e sim propósito deliberado? Quem não se dá conta da secreta paixão do vento pela manhã? Secreta? Anda na boca do mundo.
A respeito do vento circulam rumores, murmuram-se suspeitas, dizem-no velhaco e atrevido, capadócio a quem é perigoso dar ousadia. Citam-se as brincadeiras habituais do irresponsável: apagar lanternas, lamparinas, candeeiros, fifós para assombrar a noite; despir as árvores dos belos vestidos de folhagens, deixando-as nuinhas. Pilhérias de evidente mau gosto; no entanto, por incrível que pareça, a noite suspira ao vê-lo e as árvores do bosque rebolam-se contentes à sua passagem, umas desavergonhadas.
A caçoada predileta do vento é meter-se por baixo da saia das mulheres, suspendendo-as com malévola intenção exibicionista. Truque de seguríssimo efeito nos tempos de antanho, traduzindo-se em risos, olhares oblíquos e cobiçosos, contidas exclamações de gula, ahs! e ohs! entusiásticos. Antigamente, porque hoje o vento não obtém o menor sucesso com tão gasta demonstração: exibir o quê, se tudo anda à mostra e quanto mais se mostra menos se quer ver? Quem sabe, as gerações futuras lutarão contra o visível e o fácil, exigindo, em passeatas e comícios, o escondido e o difícil.
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