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Depois de Reinações de Narizinho, a Companhia das Letrinhas lança mais uma edição especial do universo lobatiano: O Saci, uma das primeiras narrativas de Monteiro Lobato, que insere e consagra esse personagem traquinas da cultura popular na literatura infantil. Em coleção organizada por Marisa Lajolo e com ilustrações de Lole, a obra traz uma introdução especial de Cilza Bignotto, também professora e pesquisadora do escritor paulista, além de notas de rodapé que explicam o vocabulário e os costumes do Brasil da década de 1920.

Um pouco sobre o Saci
Antes de ser um clássico do Sítio, claro, o Saci Pererê é um clássico do folclore brasileiro. Segundo o folclorista Câmara Cascudo, que tratou dessa e de outras criaturas na obra Dicionário do folclore brasileiro (Editora Global), os primeiros relatos sobre o Saci são do século 19. Sua origem, no entanto, é extremamente diversa, com componentes de diferentes culturas que auxiliaram na construção desse personagem. Cascudo especula, por exemplo, que o gorro vermelho do Saci possa ser uma herança romana, enquanto sua personalidade gozadora e zombeteira possivelmente seja uma influência do folclore português.
O Saci também é um ente lendário de algumas culturas indígenas, como a Guarani. No início, era uma espécie de deus da floresta no corpo de um curumim, um menino índio. Tinha duas pernas e não usava gorrinho nem pitava. Ficava protegendo a mata, ajudando aqueles que se perdiam. Os guaranis que o criaram moravam na região Sul do Brasil e também numa parte do Paraguai e da Argentina. Nessas regiões ainda existe um primo dele, o Yacy Yateré, que tem uma varinha mágica, como as fadas europeias. O que se supõe em estudos como o de Cascudo é que, no período da escravidão brasileira, as mulheres escravizadas, habilidosas contadoras de histórias, transformaram o Saci indígena em Saci negro. Principalmente no Norte do país, as narrativas africanas o transformaram em um menino negro que perdeu uma perna lutando capoeira, imagem que prevalece nos dias de hoje. Da cultura africana herdou também o pito, uma espécie de cachimbo.

Ilustrações do Inventário de Sacys, parte do projeto #OCUPASACY organizado em abril de 2018 no Sesc Interlagos
A pesquisadora Carla Maria Anastásia, em seu artigo Saci-pererê: uma alegoria mestiça do sertão, comenta essa mistura de culturas no Saci, que reúne características de entidades africanas (Ossaim), de lendas indígenas (Yací Yaterê) e portuguesas (Fradinho), além de narrativas cheias de duendes europeus.
Isso explicaria também os diversos nomes que a criatura encantada recebe no Brasil: para algumas fontes, o nome Saci Pererê deriva do tupi: çaa-cy (“olho ruim”) + perereg (“saltitante”); para outras, seria uma derivação de hang-h-açã (“almas”) + cy (“mãe”), e o Pererê sendo uma variação de tape pe (“no caminho”, “estrada”) + he (“sair”), que, por eufonia, originou Tapeperê. A difícil compreensão para outros povos da pronúncia indígena também ajudou na variação do nome conforme a região, fazendo surgir Saci-Cererê, Saci-Taperê, Saci-Perê, Saci-Saderê, Saci-Jerê, Sererê, Saperê, Siriri, Saci-Mofera e até mesmo Matin-Taperê ou Matinta-Pereira.
Com essas várias convergências de lendas populares do mundo todo, no universo das narrativas o Saci, constitui-se um mito brasileiro com características únicas, produto do processo de miscigenação pelo qual passou o país.
O Saci literário de Lobato
Antes de publicar O Saci, Lobato foi o escritor que se debruçou sobre a figura do personagem de gorro e cachimbo. Em 1917, ao realizar uma pesquisa entre os leitores do jornal O Estado de S. Paulo, colheu diversas descrições e histórias sobre as mais diferentes versões da criaturinha, reunindo-as na obra O Sacy-Pererê: resultado de um inquérito, primeiro livro do escritor, publicado no ano seguinte. “O resultado surpreendeu. Choveram cartas de Minas Gerais, do Estado do Rio e, sobretudo, de regiões paulistas”, descreve o autor na introdução.
Munido de diversos depoimentos, o autor identifica a miscelânea de elementos das culturas negras, indígenas e europeias e comenta no seu inquérito: “Se retirarmos a figura do negrinho, que lhe dá a tradição mais comum, e o nome indígena ou, como querem os outros, de pura formação onomatopeica, daremos de rosto com Puck, também chamado de Robin Bom-Diabo, de Shakespeare”, comparando o Saci com o personagem do dramaturgo enquanto um espírito “velhaco e maligno, compraz-se em assustar as raparigas nas aldeias; desnata o leite, toca o moinho, atormenta as caseiras, que cansam de bater em vão a manteiga”.
Mais tarde, em 1921, o autor voltaria a recorrer ao personagem no livro O Saci, já em um trabalho dedicado às crianças. Na obra, fica visível um traço característico do Saci de Lobato: seu comportamento jocoso, curioso e espoleta, como o de uma criança. O Saci que entra no universo do Sítio do Picapau Amarelo carrega os elementos do Bom-Diabo, como exalar odor de enxofre e ser combatido com orações e símbolos cristãos. Porém suas travessuras na mata e nas casas não têm o mal como motivação, como descreve Tio Barnabé, um dos personagens da obra: “não faz maldade grande, mas não há pequenina que não faça”.

“Apesar das brincadeiras, o Saci ‘transformado’ não pratica atitudes com o objetivo de prejudicar alguém ou fazer o mal, mas apenas se divertir. Dessa forma, Lobato ‘aproxima’ o Saci das crianças, já que tem feições de menino e espírito brincalhão”, diz Maressa de Freitas Vieira, autora da pesquisa O Saci da tradição local no contexto da mundialização e da diversidade cultural. Em seu estudo, a doutora em Língua Portuguesa aborda a figura do Saci e suas narrativas nacionais e globais.
Este Saci, brincalhão e travesso, foi fixado nas histórias de Lobato. A especialista ainda considera o contexto histórico e cultural do momento em que foram escritas as narrativas lobatianas, que podem ser interpretadas como uma busca por uma identidade nacional e pelo reconhecimento da cultura popular do brasileiro. “Ao divulgar a imagem do Saci, Lobato, talvez levado pela necessidade de afirmação da nação brasileira após o período imperial, busca características reveladoras da identidade nacional. Assim, o Saci acaba adquirindo uma nova imagem: os brasileiros veem nele uma mistura de elementos africanos, indígenas e europeus”.
O Saci de hoje e suas discussões
Para analisar as diferentes narrativas, Vieira classifica suas buscas em “Saci oral”, “Saci escrito” e “Saci globalizado”. O “Saci oral” seria o resultado folclórico das histórias passadas de geração em geração, um personagem que faz parte da memória coletiva de todos esses, que a autora chama de “monumento”. Por outro lado, o “Saci escrito” é o “documento”: trata-se de narrativas escritas, perpetuadas por autores como Monteiro Lobato nas suas obras do Sítio do Picapau Amarelo e Olívio Jekupé, escritor indígena do povo Guarani que escreve sobre o Saci indígena em suas obras de literatura infantil. Já o “Saci globalizado” abrange as histórias modernas, transformadas, em que se percebem modificações de significado do mito do Saci, como ocorre em ações relacionadas ao personagem – por exemplo, a criação da Associação Nacional dos Criadores de Saci, o Festival do Saci em Botucatu, a Sociedade dos Observadores de Saci, e a tentativa de fazê-lo ser mascote da Copa do Mundo no Brasil em 2014.
Um questionamento que a autora traz é: “As narrativas do Saci continuam a servir como suporte de manutenção das tradições culturais, mesmo com a globalização?”. Para entender esse processo, ela investiga se o Saci globalizado e “bonzinho” continua a preservar as características do seu meio cultural e significação simbólica, mesmo com todas as “transformações” da figura. Para Vieira, é possível reconhecer que o Saci têm raízes na cultura do povo brasileiro, mas nem sempre apresentado do mesmo modo. Para Lobato, a figura é um símbolo da identidade do brasileiro.
A figura do Saci funciona muitas vezes como uma “bandeira” para “vender” ao mundo um símbolo nacional, ao mesmo tempo em que se configura como uma forma de resistência à cultura estrangeira. Assim, o Saci é defendido como mascote da Copa do Mundo de 2014 ou é instituído o Dia do Saci na mesma data em que se comemora o Halloween americano (31 de outubro). E essas situações têm como referência a narrativa escrita pelo escritor paulista. “Para eles, assim como para Lobato, o Saci é a síntese do povo brasileiro”, explica em sua tese.

Cartaz do cartunista Ohi para a campanha pró-Saci na Copa do Mundo em 2014
De acordo com algumas narrativas, para conseguir capturar o Saci, é preciso ir até os redemoinhos de vento e lançar uma peneira sobre ele. A primeira coisa a fazer depois da captura é retirar seu capuz. Isso garantiria a obediência do personagem. O próximo passo é prendê-lo em uma garrafa. Dessa maneira, seria possível usufruir de seus poderes mágicos e de sua submissão. Mesmo nos episódios de transformação do personagem que exaltam uma identidade nacional, como no Saci de Monteiro Lobato e no Saci globalizado, ainda existe na história uma relação de domínio que revela uma cultura que carrega uma marca racial forte e elementos de captura e submissão característicos do período escravocrata.
A questão do racismo na obra lobatiana também é abordada na nova edição de O Saci. Cilza Bignotto, na introdução, contextualiza o cenário em que a obra foi lançada. No começo do século XX não era comum haver personagens negros com a autonomia e a importância de Tia Nastácia, Tio Barnabé e o Saci, herói do livro – e por isso seria novidade para os leitores da época que estes participassem da educação de um menino branco como Pedrinho. Na atualidade, em que se discute o racismo estrutural na sociedade, o modo como o narrador e alguns personagens se dirigem aos personagens negros é ofensivo. “Essas são heranças pesadas da escravidão, que perdurou por mais de três séculos no Brasil. Mesmo hoje em dia, persistem tratamentos diferentes que todos nós precisamos combater. E, para combatê-los, o primeiro passo é reconhecê-los”, diz a pesquisadora, que convida a promover essas e outras discussões a partir de uma leitura completa.
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