Afinal, o que é arte?
Arte não é coisa só de museu: está nas ruas, em objetos cotidianos. Pode ser divertida e contribuir com o desenvolvimento das crianças - e o livro ilustrado tem papel nesse contato
Que lugar é esse onde moram livros incríveis? Que espaço habita a criatividade? E a arte? Foram perguntas assim que dispararam o desejo da arte-educadora Liana Yuri e da designer Maria Carolina Sampaio a criarem uma casa onde reside a exploração da matéria-livro. Assim nasceu o Ateliê Libélula, um espaço na zona oeste de São Paulo onde crianças (e também os adultos) podem explorar o processo das artes gráficas.
No coração do ateliê está o desejo de atingir a inteireza do ser por meio da arte, contam as idealizadoras. Localizado no andar térreo de uma casa, no bairro paulistano da Vila Madalena, o espaço é contínuo, com divisões marcadas apenas pelos móveis, todos adaptados às crianças. Os objetos artísticos são muitos e variados, e um canto é reservado à biblioteca, os “livros incríveis” com que as duas tanto sonharam.


Em oficinas que abordam a aura do livro, meninas e meninos são respeitados como seres autônomos. Assim, tudo está ao alcance das crianças no espaço, livre para experimentações em seu próprio tempo e de modo bem livre. Os livros são também livremente escolhidos pelos participantes das oficinas – a próxima está prevista para o dia 25/6.
No processo de criação das oficinas, as duas fazem a curadoria das obras de acordo com os conceitos a serem trabalhados. Criam ferramentas, técnicas e materiais específicos. Se o tema é movimento, por exemplo, a seleção é de livros que tragam isso de alguma maneira, seja no conteúdo – temas cíclicos, que abordem a questão do tempo –, seja na forma, como fazem os flipbooks, livros em que as imagens são dispostas sequencialmente e movimentam-se ao passar das páginas.


O tema da oficina surge de um disparador, da exploração de uma técnica. “Eu vou fazer um motoscópio. Qual é a base desse movimento? A gente vai à etapa anterior e então brinca com as coisas que giram, as rodas que giram. Se eu ponho um adesivo em uma roda que gira, aquilo me gera um efeito óptico. Não é uma técnica, é explorar essa técnica. É você ter essas experimentações, sendo sensitivas, sendo poéticas”, explica Liana. Nos encontros, mais vale o processo e suas investigações do que o produto final, o fazer o livro especificamente.
Tudo ali está na dimensão das crianças. Mas se engana quem achar que essa casa é limitada aos pequenos. Os adultos também participam, observando seus filhos ou até mesmo fazendo junto. “Nascem novas possibilidades nesse encontro”, conta Maria Carolina. “É um descobrimento junto, é um ler junto, é uma relação”, completa Liana.


A dupla, que se conheceu em 1999 durante um intercâmbio na Turquia, fez uma longa pesquisa antes do início do projeto. Elas viajaram para a Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha em 2014. Como inspirações para a criação do Libélula, citam a biblioteca Ópla, na cidade de Merano, e a editora francesa Les trois ourses (Os três ursos), que é vinculada a uma escola, com cursos e oficinas para adultos e crianças.
“Um ponto que achamos muito legal é de que as oficinas da editora não necessariamente eram para fazer livros, mas eram desse universo que esse livro trazia, muito mais expandido”, conta Liana. “Os artistas interagiam com as crianças a partir das pesquisas que eles faziam do livro, de como chegaram no livro, então era sempre o livro nesse sentido, só que de forma expandida.”
E elas seguem expandindo essas ideias para outros espaços. Participaram em março da Feira Plana, evento voltado a editoras independentes. A proposta era trabalhar com a temática da feira: o fim do mundo. O espaço era composto por uma estrutura de andaime, com um lugar reservado para as crianças menores. A biblioteca era complementada com obras disponibilizadas pelos próprios expositores do evento.


Uma feira de publicações independentes não costuma ser um “lugar de criança”. Ali, no entanto, tudo era reservado a elas. As bancadas e mesas eram baixas. Assim que chegavam, os pequenos logo entendiam a lógica do que era proposto. “A conexão do que é o artista e do que é a criança é forte, ambos têm um processo de pensamento similar”, diz Liana.
A mesma ideia foi desenvolvida na Feira Des.Gráfica, ocorrida em novembro de 2016, no Museu da Imagem e do Som (MIS), onde os artistas sentaram com as crianças e produziram juntos, na tentativa de tirar essa hierarquia. “É bem legal essa experiência de preparar o ambiente e permitir que relações bem verdadeiras se estabeleçam. Do fazer junto nascem muitas coisas”, finaliza Maria Carolina.
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