'Vamos falar sobre limite corporal, consentimento e respeito!': por que é tão necessário respeitar os limites corporais das crianças

22/06/2026

Sabe quando um completo desconhecido cruza com você na rua e passa a mão na cabeça da sua criança?


Ou quando um parente puxa seu filho para o colo mesmo quando ele está visivelmente desconfortável?


Ou até quando a coisa vai pelo caminho da chantagem, de “ai, a tia vai choraaaaaar se você não me der um beijinho?”


Esses são só alguns exemplos que poderiam ser usados para debater com as crianças – e também entre adultos – algo importante: o respeito ao corpo e ao desejo do outro. Sendo este “outro”, neste caso, as crianças.

Vamos falar sobre limites corporais, consentimento e respeito?

 

Ensinar desde cedo que o corpo de uma pessoa só pertence a ela parece óbvio, mas nem sempre é. Principalmente com os adultos. Envolve debater consentimento, insistir por respeito e tolerar uma boa dose do desconforto que as conversas difíceis – porém necessárias – costumam despertar. Especialmente com as pessoas que são mais próximas.

Então, se você já viveu algumas situações como as descritas acima com sua filha ou filho, especialmente envolvendo parentes e amigos, talvez este seja um bom texto para ser compartilhado no grupo da família – assim, como quem não quer nada… E, quem sabe, acompanhado do link para o livro que vamos apresentar aqui. Vamos falar sobre limite corporal, consentimento e respeito! (Brinque-Book, 2026), com texto de Jayneen Sanders, ilustrações de Sarah Jennings e tradução de Lígia Azevedo apresenta de forma muito acessível a crianças pequenas conceitos importantes para que elas tenham soberania sobre o próprio corpo e confiança para aprender a colocar limites.

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Para debater, é preciso conhecer alguns conceitos


A ideia de um “limite corporal”, por exemplo, é explicada logo nas primeiras páginas como “o espaço em volta do seu corpo. Que pode ser invisível, mas não significa que não exista”. A partir daí, a narrativa vai trazendo exemplos de como é possível lidar com situações familiares: quando um menino abraça a menina sem pedir, quando a avó pede a ela um beijo. Aos poucos, o texto vai apresentando outros conceitos importantes como consentimento, percepção do limite dos outros – sim, até bebês demonstram desconforto! – e rede de apoio – para a criança saber para quem correr quando alguma situação desconfortável se apresente. 

O livro vai mostrando diversas situações em que existe algum tipo de conflito e convida as crianças a refletirem sobre o que poderia ser feito em cada caso. Seja quando um menino empurra uma menina (e invade o limite corporal dela) porque queria descer primeiro no escorregador, por exemplo, seja quando o primo mais velho quer andar com o mais novo de bicicleta, mas o pequeno não quer. E, no final, há um guia com sugestões de perguntas, organizadas por páginas, para que pais, mães e educadores abram o diálogo com as crianças sobre as questões abordadas no livro.

 

Quando crescem sabendo que têm direito a um espaço pessoal, as crianças se apropriam de seu corpo e sentem que têm poder de decisão sobre o que acontece com ele. É igualmente importante entender que, desde bem novas, elas precisam respeitar o limite do corpo alheio e pedir consentimento para entrar em esferas pessoais”,  Vamos falar sobre limite corporal, consentimento e respeito! (Brinque-Book, 2026)

 

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Falar sobre limites também é refletir sobre pequenas – e grandes – violências

Vamos falar sobre limite corporal, consentimento e respeito?

 


Para a psicóloga e psicanalista Elisa Motta Iungano, da Entrelaces Psicologia (SP), há um embate entre gerações que dificulta, principalmente para pessoas mais velhas, entender a importância de preparar as crianças para temas como este. “Muitas vezes, as pessoas respondem ‘mas é só um carinho’ ou ‘estou apenas cumprimentando’ porque realmente a intenção é essa. Mas não é só sobre abuso sexual, estamos falando do corpo da criança. Você não passa a mão na cabeça de alguém que você acabou de conhecer, você não toca no corpo do outro. Um adulto não se aproxima dessa forma de outro adulto, mas de uma criança, sim“, argumenta. 

Para ela, especialmente nas grandes cidades brasileiras, em que o cuidado com as crianças não é mais tão compartilhado, saímos de uma cultura em que as crianças eram mais coletivas para serem mais individualizadas. O cuidado coletivo por um lado tinha uma coisa boa: de poder contar mais com ajuda dos avós, dos pais terem mais apoio [falamos sobre isso nesta matéria]. Por outro lado, o cuidado mais individualizado também trouxe cuidados mais especializados. E com isso há uma mudança de cultura. Se antes a criança era mais pública e todo mundo cuidava, também havia mais situações invasivas e até abusivas”, observa.

 


Dizer “Não sei” ou ficar em silêncio não é o mesmo que dizer “sim”. A pessoa não está dando seu consentimento. Consentimento é outra palavra importante. Significa que você disse “sim” e concordou por vontade própria com algo como receber um beijo ou um abraço.” Vamos falar sobre limite corporal, consentimento e respeito! (Brinque-Book, 2026)


Elisa acha importante nesse debate sobre limites também refletir sobre o que é que se considera uma violência. Nesse sentido, quando falamos do corpo de uma criança, até mesmo um hábito como furar as orelhas de um bebê recém-nascido para colocar brinco pode ser considerado uma violência – uma vez que se trata de uma decisão estética que não tem um consentimento e que é normalizada. “A violência é relativa. E muitas vezes, a forma como os pais lidam com uma situação também pode fazer com que a criança se sinta violentada”, explica. 

Para ilustrar, ela traz um exemplo: se um adulto faz carinho na cabeça de uma criança sem pedir permissão, talvez a criança se incomode. Mas talvez, não. E talvez os pais se incomodem até mais do que a criança com essa aproximação. E pela forma como eles reagem é que a criança pode entender que esse carinho não era apropriado e, a partir dessa constatação, interpretar isso como uma violência. “É difícil saber o que vai afetar uma criança, o que vai ser traumático, o que ela vai sentir como pertencimento e o que ela vai sentir como invasão. Tem um tanto que é individual, mas também tem um tanto da cultura”, explica. 

A partir desse viés, é necessário olhar para discursos que se conversam e se reafirmam. A mesma voz que diz que “criança não tem querer” é a que acha que pedir o consentimento de uma criança para fazer um carinho – invadir sua “bolha corporal” [que é outro termo para se referir a limite corporal, como explica o livro] – é mimimi. Dizer “criança não tem que querer”, nestes casos, é não levar em consideração o direito de ela consentir, é invadir sua “bolha corporal"[que é outro termo para se referir a limite corporal, como explica o livro]. Dá margem para, quando ela crescer, ouvir que violência é “mimimi”. É não considerar a criança uma pessoa. “Quando a gente considera que a criança é menos, que ela ainda não tem um estado de sujeito, que ela não tem um status de pessoa, de indivíduo, ela fica muito mais sujeita a ser tratada como um objeto”, alerta Elisa. E isso abre precedentes perigosos. “Nesse sentido, essa cultura de cuidado mais individualizado contribui para esse olhar para a criança como um sujeito, assim como fazem legislações importantes como o Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA”, explica Elisa.

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Falar sobre limite extrapola a prevenção de abusos


Falar sobre limites  é uma conversa necessária não apenas para ajudar na identificação e na prevenção de abusos, mas para preservar a soberania da criança sobre o próprio corpo. E para que ela se entenda como um sujeito: alguém digno, que tem desejos, tem vontade, tem incômodos e que precisa ser respeitado. E também para que ela aprenda a se cuidar, até mesmo na questão da saúde física. E isso pode começar desde muito cedo: pedir licença para o bebê na hora de trocar a fralda ou de tirar a roupa para o banho; ir narrando para ele aquilo que você está fazendo na rotina de cuidado, como “agora eu vou te colocar no carrinho”, “agora a gente vai dar um passeio”. Em respeitar a fome da criança quando ela fica satisfeita – independentemente de ter sobrado ou não comida no prato. Há muitas formas de ajudar a criança a se ver como um sujeito. 

“A gente está ensinando às crianças que elas têm o direito de dizer ‘não’. A gente está valorizando o saber da criança sobre si mesma, o que ela tem a dizer sobre ela mesma”, reforça Elisa. Ao mesmo tempo, a criança ainda está em uma fase de aprender, ela precisa de auxílio para entender o que pode e o que não pode. Por isso, nesse processo é importante ensinar a criança, a partir dos cuidados que ela recebe, que ela tem o direito de saber sobre o próprio corpo. 

Apresentar às crianças esse direito sobre o próprio corpo, ensiná-las a expressar seus limites e também a pedir ajuda quando necessário, pode ecoar em outras áreas da vida muito além do corpo. “Se uma criança sente que tem o direito de falar sobre o que sente, ela pode reconhecer o incômodo e reagir”, explica Elisa. E há muitas, muitas situações da vida em que é preciso dizer: “NÃO QUERO”. “NÃO VOU”. “NÃO GOSTEI”. 


“NÃO”. 


É bom demais praticar isto desde cedo. 


(Texto: Naíma Saleh)

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