
Heloisa Pires de Lima: “Uma história bem contada desafia a contar outra”
Com "Histórias da Preta", a autora Heloisa Pires de Lima ajudou a quebrar estereótipos da referência negra, em um livro voltado para as crianças, ainda na década de 1990
Se você foi criança (ou teve uma criança) entre os anos 1990 e 2000, certamente presenciou um boom na produção cultural infantil, sobretudo na TV. Programas como O Mundo da Lua e Castelo Rá-Tim-Bum atraíam o “pequeno grande” público, com histórias cativantes, criativas e um capricho de fazer cair o queixo. Um dos grandes responsáveis pelas principais produções, entre as quais estas citadas, é Flavio de Souza. Mas os roteiros e a criação para a telinha não foram os únicos campos nos quais ele liberou sua criatividade para conversar com os jovens e ávidos consumidores de arte. Os livros também acabaram conquistando um lugar importante na carreira do escritor, criador, roteirista, desenhista, ilustrador, diretor…
“Depois da coleção do Castelo Rá-Tim-Bum, começou uma história de amor entre a Companhia das Letrinhas e eu, que deu mais de dez filhos queridos”
(Flavio de Souza, autor)
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A história de Flavio com a Companhia das Letrinhas se entrelaça com a história do Castelo Rá-Tim-Bum. Ele conheceu a editora por meio de Cao Hamburger, criador do programa. Então, escreveu os três primeiros livros que falavam de personagens do Castelo, mas ultrapassavam aquelas paredes mágicas: O álbum do Nino, As experiências de Tíbio e Perônio e Os enigmas do Mau. Tudo em tempo recorde! Aqui, ele conta essa história e algumas outras que envolvem sua relação com a literatura infantil brasileira.
*Para comemorar os 30 anos da Companhia das Letrinhas (em 2022), você confere uma série de entrevistas exclusivas com grandes autores e ilustradores brasileiros que fazem parte dessa história, sejam nossos primeiros parceiros, sejam aqueles que ganharam os maiores prêmios de literatura infantil. Acompanhe tudo no Blog da Letrinhas, no site criado especialmente para essa festa e nas nossas redes sociais.
Flavio de Souza (Foto: @tatitakiyama)
Foram três, os primeiros que escrevi para a coleção do Castelo Rá-Tim-Bum. Com certeza, o principal foi o primeiro que escrevi e que foi o mais vendido, por motivo óbvio: O álbum do Nino, com várias partes biográficas do “Mickey do Castelo”. Quem fez o contato com a Companhia foi o Cao [Cao Hamburger, criador do Castelo Rá-Tim-Bum] e, aí, eu conheci a Lili e o Luiz [Lilia e Luiz Schwarcz, fundadores da Companhia das Letras] na Rua Tupi [primeiro endereço da Letrinhas, em São Paulo]. Uma outra pessoa que trabalhava lá ficou muito espantada quando eu disse que podia escrever em pouco tempo esses três livros e foi uma delícia chegar com os três prontos, num prazo realmente absurdo, se fossem livros normais. Mas eu criei todo aquele universo junto com o Cao e me diverti demais inventando os outros membros da família do Nino e as aventuras fora do Castelo.
O que mais me marcou mesmo foi uma conversa que eu tive com a Lili depois que eu ofereci para a Companhia das Letras dois livros para “adultos”, que foram rejeitados. Ela me contou o que mudou minha visão a respeito do mercado editorial brasileiro e me levou a ser um escritor quase que só de livros infanto-juvenis. Ela me disse que a grande maioria dos livros “normais” “ficam em cartaz” por três anos, no máximo, e depois desaparecem, e poucos vendem mais de três mil exemplares. Muitos não chegam nem perto disso. Os livros infantis e juvenis, no entanto, se são bem recebidos, vendem para sempre.
Eu me conformei imediatamente de meus livros “normais” não terem sido aceitos para publicação e, depois da coleção do Castelo, começou uma história de amor entre a Companhia das Letrinhas e eu, que deu mais de dez filhos queridos. Além do orgulho de ser autor de livros tão bem cuidados, editados e ilustrados, os direitos que desde a segunda década deste século recebo da Companhia (junto com uma outra editora) me rendem o suficiente para que eu pague todas as minhas contas e me permitem ser só artista num país em que esse tipo de cidadão tem pouca razão de ser.
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As cores. Trinta anos atrás, existiam muitos livros para crianças e adolescentes com ilustrações em preto e branco, com exceção da capa. Hoje, existem poucos livros para este público sem cor em seu miolo.
Como eu passei 40 anos escrevendo sem parar, além de livros, peças de teatro e criação, argumentos e roteiros para TV e cinema, minhas leituras foram quase sempre específicas para o que estava trabalhando. Só me lembro da obra da minha escritora preferida em atividade, que é a Eva Furnari. Um inesquecível é o Amarílis, maravilhosa combinação de pintura e texto, a coisa mais linda e emocionante que li neste século. Dos livros publicados pela Letrinhas, virei fã de carteirinha do Mo Willems. Li e, sinto muito pela falta de modéstia e alienação, meu preferido é Desenhos de Guerra e de Amor, de minha autoria, texto e ilustrações (risos).
O programa PNLD [Programa Nacional do Livro e do Material Didático] literário, um verdadeiro milagre, um oásis de interesse e efetivação no deserto que é a educação e a cultura pública em nosso país. A parte positiva dispensa comentários. A parte negativa foi uma mudança que foi acontecendo aos poucos nos critérios das editoras para a escolha do que seria ou não publicado. Posso estar errado, mas sinto que uma sutil censura prévia foi se formando pela necessidade de se publicar candidatos que tenham o perfil do programa.
Acho que o nível de qualidade na direção de arte, escolha do papel, edição, ilustrações, etc. da Companhia foi uma das razões para que o nível de toda a produção de livros infanto-juvenis do Brasil subisse.
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Acho que se as escolas continuarem usando livros e a literatura, as crianças vão continuar conhecendo e usando os livros. Nem todas as crianças vão ler mais livros do que os adotados, mas isso sempre aconteceu. O grande desafio dos autores continuará a ser o mesmo: escrever de maneira inovadora e inventiva, na forma e no conteúdo para concorrer com todas as outras fontes de entretenimento – porque a leitura pode ser entretenimento também! Porque, de qualquer maneira, acho que os seres humanos continuarão precisando ouvir histórias.
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