Eco-ancestralidade, literatura e infâncias
A natureza na literatura esteve no centro dos debates do último dia de Jornada Pedagógica 2023, em uma mesa com os escritores Kiusam de Oliveira e Lalau e a educadora indígena Márcia Mura
O terceiro dia de reflexões da Jornada Pedagógica 2023 trouxe para a discussão da primeira mesa a ancestralidade e de que forma ela está presente nos processos de formação literária e do leitor. Com mediação da mestra e doutora em Estudos Linguísticos e Literários, Ana Fátima, o encontro teve a participação da poeta e geógrafa Márcia Kambeba e da professora da rede municipal de São Paulo Ana Gilda Leocádio.

Entre os assuntos abordados estiveram a forma como a ancestralidade indígena está presente na formação de leitores e o quanto hoje se entende a necessidade de povos indígenas contarem suas histórias. Para isso, segundo Kambeba, é preciso estruturar a língua para que ela chegue na ancestralidade. “A escrita não é nossa. Nós aprendemos recentemente a arte da escrita. A nossa forma de comunicação foi, sempre foi, é e precisa continuar sendo a oralidade. Mas, com o tempo, percebemos que era preciso trazer as narrativas, documentá-las, trazer a nossa leitura de mundo”.
E aí entra a literatura, que, segundo ela, é a ferramenta que pode contribuir com o conhecimento das pessoas sobre a cultura indígena, mas também com o conhecimento dos próprios indígenas. “A gente escreve pra contribuir. Mas só o fato de um professor leitor dizer pra mim que compreendeu tal coisa que não compreendia pela minha escrita, isso já vale um Jabuti pra mim”, brincou.
Já a professora e autora Ana Gilda Leocádio trouxe a necessidade de se recontar a história da nossa nação por meio de uma busca à ancestralidade. Para isso, segundo ela, celebrar e relembrar todas as datas possíveis é fundamental, pois é por meio dessa celebração que se propõe ações antirracistas. Ainda, ao reafirmar a importância da ancestralidade nos processos de mediação de leitura, Ana trouxe diversas obras que têm esse olhar para uma história que foi e ainda é apagada por uma sociedade que tem o racismo na sua estrutura.
“Ancestralidade pra mim é recorrer sempre a um saber que veio antes, modificá-lo, mas sem perder a essência”, disse Ana. Ainda, reforçou a luta constante de se pensar uma educação antirracista, e citou a importância de projetos como o currículo antirracista da cidade de São Paulo, lançado recentemente e que ainda prevê a distribuição de bonecos negros e bolivianos destinados às escolas de educação infantil.
A mesa que trouxe o livro ilustrado para o debate, teve início com Dani Gutfreund, que realiza pesquisa sobre o assunto, falando sobre as particularidades desse formato, que oferece uma leitura mais fluida. “No meu entendimento, o livro-álbum não é um gênero literário, mas uma forma de expressão, uma linguagem que tem sua própria gramática”, disse ela.

Dentro dessa discussão, Dani lembrou ainda que o livro-álbum não se dá como um todo, de uma vez só, ele se dá em fragmentos. “O texto se dá em três linguagens: o texto, a imagem e o projeto gráfico. Ao ler uma página dupla, o leitor vai construindo sua narrativa, assim como ao virar a página ele encontra outro fragmento. E é juntando esses fragmentos que ele gera um significado”, disse ela. Ainda, falou sobre os espaços deixados pelos autores e a forma de criação desses materiais, outro fator importante na construção do leitor de livros ilustrados e na construção de leitores ativos.
O livro-álbum é uma linguagem híbrida, que desafia os limites da literatura, da arte e do design, em que todos os elementos constitutivos, até mesmo os menores indícios, significam. Seu significado é tecido na composição de palavra, imagem e design, convidando assim a outro modo de ler, em que a compreensão se vale de sentidos que vão além da visão. (Dani Gutfreund, pesquisadora sobre o livro ilustrado)
Durante sua apresentação, a pesquisadora ainda leu o texto do livro Lulu e o Urso (Pequena Zahar), de Carolina Moreyra e Odilon Moraes, e questionou ao público a impressão que somente a leitura traz.
Na sequência, a mesa propôs uma dinâmica de mediação, em conjunto com a pedagoga Laís Froes. Durante a mediação, a educadora foi trazendo questionamentos por meio da percepção dos participantes e mostrando o quanto, em um livro ilustrado, a imagem complementa a narrativa, oferecendo elementos fragmentados que vão construindo uma história. Também foi realizada a mediação de leitura do livro Bárbaro (Companhia das Letrinhas), de Renato Moriconi.
Para finalizar, a mesa chamou para o debate Aline Abreu, autora de Achou? (Companhia das Letrinhas) para falar sobre a narrativa visual de um livro. A artista visual falou sobre a relação que o leitor vai construindo com o livro-álbum ou ilustrado ao folhear as páginas. Segundo ela, o leitor constrói uma expectativa de uma imagem futura. “Quando a gente está lendo uma página é o presente, e quando você vira a página, vem um novo presente”, disse ela. Fazendo o link com a leitura de Lulu e o Urso, Aline mostrou possibilidades de leituras ao ver os diferentes pontos de vista mostrados na história.
A imagem é muito polissêmica. Sem ter a palavra pra guiar a gente, sem direcionar, ela tem a qualidade de abrir mais possibilidades. Por isso um livro sem texto, só com imagens, pode ser mais desafiador pois o leitor pode se sentir mais livre. (Aline Abreu, autora)
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