Uso de telas na infância: o risco de se desconectar do mundo real

29/01/2024

A chuva molhando o asfalto. Um bebê chorando ao longe. Um passarinho que pousa no batente da janela. A vida real acontece - e passa despercebida - enquanto deslizamos os dedos pelo celular, rolando um feed eterno. O que mais deixamos passar quando estamos hipnotizados pelas telas? E quando são as crianças que fazem o uso de TV, celulares e outros gadgets - que partes da infância ficam para trás?

Ilustração do livro Que planeta é este?, de Eduarda Lima

Em Que planeta é este? um apagão convida à conexão com o mundo fora das telas

Em Que planeta é este? (Pequena Zahar, 2024), de Eduarda Lima, um apagão obriga uma cidade inteira a se desconectar - nem que seja por uma noite. E a experiência acaba sendo reveladora: sem energia, sem internet, sem distrações, as pessoas se dão conta de que há um mundo inteiro para além das telas. Desertos, grutas, oceanos, florestas, animais, as luzes mágicas da aurora boreal… todas belezas do mundo real. 

A internet, a tecnologia e os dispositivos eletrônicos fazem parte da vida hoje e seria loucura negar isso. As inovações facilitam nosso dia a dia, encurtam distâncias, fazem parte do lazer. O problema está no uso excessivo, que pode “roubar” o tempo e a atenção - dois bens inegociáveis. No caso das crianças, é ainda mais preocupante: exagero de telas pode prejudicar o desenvolvimento e a maneira como serão moldadas as relações com o mundo e com outras pessoas.

Capa de Que planeta é este?, de Eduarda Lima

Por uma infância com menos telas e mais experiências reais

Quando se trata de crianças e uso de telas, o dilema dos pais sobre permitir ou não o acesso, e as condições em que ele deve acontecer, tem aparecido cada vez mais cedo. Se em 2015, 11% das crianças acessavam a internet pela primeira vez antes dos 6 anos de idade, em 2023, esse número saltou para 24%. Esses dados fazem parte da pesquisa TIC Kids Online, feita pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) e pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), ligado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). 

“Estamos falando de crianças em formação neurológica e emocional, que estão desenvolvendo inúmeras habilidades sociais e neurais. Então, sim, o impacto das telas pode ser muito significativo”, aponta a psicóloga Cristina Marques, especialista em saúde mental infantojuvenil, terapeuta de família e coordenadora de saúde mental da plataforma de saúde escolar Coala. “Quanto mais novas são as crianças, mais significativos podem ser os efeitos, já que as formações neurais estão em desenvolvimento e a vivência das experiências para além das telas ainda foram poucas. Isto é, quanto menor é a criança, menos vivências ao ar livre e contato com outras pessoas ela teve e, dessa forma, o que ela conhecerá será a interação virtual em detrimento das relações reais”, afirma. 

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A parte do cérebro ligada às emoções, conhecida como córtex pré-frontal, só termina de se desenvolver na vida adulta, por volta dos 25 anos. O córtex pré-frontal é justamente o responsável pela tomada de decisões, pelo controle de impulsos da atenção. Isso quer dizer que, nem durante a infância nem durante a adolescência, as crianças estão totalmente prontas para enfrentarem situações às quais o uso de telas pode expô-las, além de serem mais vulneráveis ao vício por não terem a capacidade de controle desenvolvida. 


(Des)Conectados: a história de Que planeta é este? começa com um apagão

Aplicativos, plataformas e redes sociais funcionam com algoritmos, cuja função é prender mesmo a atenção e provocar prazer, com notificações e exibição automática de conteúdos que despertem o interesse do usuário. Se para os adultos é fácil passar horas rolando o feed sem parar, para uma criança, é ainda mais. Além de tornarem-se adictos aos aparelhos - demonstrando irritação, ansiedade e impaciência quando não estão conectados -, os pequenos perdem oportunidades importantes de interação e de conexão com o mundo real, com os amigos, com a família, com a natureza, com as brincadeiras, com a escola. Diversos estudos também já demonstraram que o uso excessivo e descontrolado de telas pode levar a diversos problemas, tanto de aprendizagem, quanto de saúde, desenvolvimento e comportamento, afetando, inclusive, o sono e a alimentação. Por isso, cabe aos adultos, pais, cuidadores e educadores, a orientação, o gerenciamento, a supervisão e a limitação do uso dos dispositivos. 

De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), crianças de até 2 anos não devem ser expostas a telas, nem mesmo passivamente. Crianças de 2 a 5 anos devem ter tempo de tela limitado a uma hora por dia. A faixa etária de 6 a 10 pode ter de 1 a 2 horas por dia, no máximo, de acesso, sempre com supervisão. Para os adolescentes de 11 a 18 anos, o tempo máximo recomendado gira em torno de 2 a 3 horas - e nada de “virar a noite” jogando.

Celular na escola: possibilidade para aprendizagem ou distração?


Vários países e, inclusive, algumas localidades brasileiras, como a cidade do Rio de Janeiro, têm estudado e aplicado medidas para o banimento completo dos celulares nas escolas. Para o pediatra e sanitarista Daniel Becker, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um dos grandes defensores da ideia, o celular zero nas instituições de ensino é uma medida importante, no sentido de proteger a infância em diversos aspectos. “Na sala de aula, obviamente, perturba o aprendizado. Toca notificação, a criança vê vídeo embaixo da carteira, fragmenta completamente a atenção”, enumera. “E o recreio? Por que não pode? Porque o recreio é um momento fundamental da vida da criança, é o espaço público dela, onde ela vai aprender uma série de habilidades absolutamente cruciais, desenvolver bem-estar, brincando, conversando, se autoconhecendo, desenvolvendo habilidades de comunicação, de se movimentar”, aponta. 

Em Que planeta é este? um livro é o passaporte para lembrar do mundo além das telas

No Colégio Pentágono, em São Paulo, o celular não é permitido até o 5° ano do Ensino Fundamental. Depois disso, os alunos podem levar, mas o uso é restrito para antes da aula, no intervalo e na saída. É a estratégia que melhor tem funcionado atualmente, como conta a coordenadora pedagógica Alana Périco. “Até meados de 2022, permitíamos o uso do celular para fins pedagógicos, em sala de aula. Contudo, fora esses momentos intencionais, os professores despendiam precioso tempo de aula ‘vigiando’ se havia algum aluno jogando ou fazendo uso inadequado. A fim de mudar essa realidade, realizamos reflexões e amadurecemos junto aos educadores a ideia de ampliar a restrição do uso dos recursos do celular”, relata. “Paralelo a isso, procuramos ampliar a consciência sobre os impactos negativos, por meio de muito diálogo com aqueles que insistiam em ‘burlar’ a regra”, acrescenta. 

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Ela conta que, na escola, a equipe pedagógica já precisou lidar com inúmeras situações por conta do uso indevido do celular pelos alunos. Em um dos casos, um aluno usava o aparelho várias vezes para jogar durante as aulas. Quando o professor chamava sua atenção, ele guardava o celularno bolso. Porém, assim que a aula era retomada, ele pegava o aparelho e começava a jogar novamente. “Notamos que o desejo de jogar escapava ao controle dele”, conta Alana. “A família foi chamada na escola e abriu a dependência do filho aos jogos eletrônicos. Ao combinarmos as informações, notamos que esse comportamento apontava sinais de vício e, portanto, havia necessidade de intervenção médica e psicológica”, afirma. Depois de receber o apoio adequado, o menino melhorou significativamente. Mas, para isso, foi importante contar com um olhar atento e uma relação de confiança entre a escola, a família e o aluno. 

Segundo a psicóloga Cristina, vivemos um momento de crise, que se estende não só para as crianças e adolescentes, mas também para os adultos. Portanto, são necessárias medidas efetivas de controle em todos os ambientes. “Não acho que a proibição sem nenhuma flexibilidade deva existir, quando falamos de relações saudáveis”, diz ela. “É fundamental que se avalie caso a caso, sempre estimulando a comunicação. Porém, a informação clara sobre os malefícios do uso exagerado das telas e o estímulo a outras formas de interação social precisam ser retomadas. Não acredito na proibição sem contexto, mas é essencial entender que crianças e adolescentes estão demonstrando, em sua grande maioria, comportamentos de compulsão e muitas consequências do uso excessivo dos celulares, redes sociais, jogos eletrônicos, dentre outros”. Ela reforça que cada ambiente escolar tem sua cultura pedagógica e sua diretriz, por isso, os acordos precisam fazer sentido para cada comunidade escolar. Ainda assim, Cristina é a favor da limitação do uso dos aparelhos na escola. “Estabelecer limites claros e objetivos explicando o contexto de cada determinação de acordo com a idade, me parece uma ótima alternativa”, diz a especialista. 

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Um paralelo possível entre o mundo real e o virtual

Como mergulhar em experiências reais? Ilustração do livro Que planeta é este?


No livro Que planeta é este? foi preciso um apagão para que as pessoas começassem a olhar para o mundo além das telas. Na vida real, impor limites às crianças no tempo em frente à TV e a outros dispositivos móveis é essencial para fazer um bom uso da tecnologia sem perder a conexão com o mundo concreto. Porém, tão importante quanto limitar o tempo é supervisionar sempre o que é acessado, estando junto, conversando muito e usando aplicativos de controle parental. Assim, é possível ajudar seu filho a “navegar” por esses mares desconhecidos da internet e a desenvolver uma relação saudável com a tecnologia.

Em paralelo, para a vivência além das telas, é importante oferecer alternativas e estimular outras brincadeiras e atividades - mesmo quando a luz não acaba. “Uma saída muito positiva e sem contraindicações é que crianças e adolescentes possam viver a natureza, conversar pessoalmente, que possam brincar, se sujar, ralar os joelhos e se divertirem com outras crianças. Que essas experiências reais possam se sobressair às vivências virtuais”, sugere Cristina. Sabemos que nem sempre as famílias dispõem de tempo para brincar junto e para levar os filhos a parques, praças, praias, acampamentos e outros ambientes onde a exploração e o contato com a natureza acontecem de forma mais espontânea. Mas acredite no potencial das crianças: se elas estiverem acostumadas ao celular ou à televisão, elas vão reclamar, no início. Mas, diante do tédio, vão começar a descobrir os objetos da casa, os brinquedos e usar a imaginação para inventar o que fazer.

Os livros, é claro, são sempre uma alternativa para inspirar brincadeiras e para apresentar novos mundos - reais ou imaginários - que extrapolam a tela do celular. 


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