Dos "entrudos" ao axé music: veja curiosidades sobre o nosso carnaval

11/02/2026

“De tanto misturar cores e costumes, fizemos da mestiçagem uma espécie de representação nacional. De um lado, a mistura se consolidou a partir de práticas violentas, da entrada forçada de povos, culturas e experiências na realidade nacional. Diferente da ideia de harmonia, por aqui a mistura foi matéria de arbítrio”, dizem as autoras Lilia Schwarcz e Heloisa Starling em Brasil: Uma Biografia (Companhia das Letras, 2015). “De outro lado, no entanto, é inegável que essa mesma mescla, sem igual, gerou uma sociedade definida por uniões, ritmos, artes, esportes, aromas, culinárias e literatura mistas. Talvez por isso a alma do Brasil seja crivada de cores. Nossos vários rostos, nossas diferenciadas feições, nossas muitas maneiras de pensar e sentir o país comprovam a mescla profunda que deu origem a novas culturas, porque híbridas de tantas experiências”, continuam os historiadores. “Construída na fronteira, a alma mestiça do Brasil – resultado de uma mistura original entre ameríndios, africanos e europeus -, é efeito de práticas discriminatórias já centenárias, mas que, ao mesmo tempo, levam à criação de novas saídas.”

Dona Ivone Lara e o sonho de sambar e encantar

Dona Ivone Lara é uma das figuras mais emblemáticas do samba e personagem lendária do carnaval - sua trajetória é contada em Dona Ivone Lara e o sonho de sambar e encantar (Companhia das Letrinhas, 2024)

Pensar Carnaval é pensar a história do Brasil. Gostando ou não da festa, participando presencialmente das folias ou assistindo aos programas de televisão, escolhendo as próprias fantasias ou olhando os looks pelas redes sociais, concordando ou não com sua existência, blocos de rua, bailes nos clubes, matinês, desfiles nos sambódromos, em casa, na escola ou outros espaços comunitários, não tem jeito: o Carnaval faz parte da história de nosso país, revelando costumes, políticas, preconceitos, movimentando economias, identidades e subjetividades do povo brasileiro. 

Preparamos aqui uma pequena série de curiosidades da diversidade carnavalesca brasileira, que está sempre entre a tradição e a invenção, enfrentando seus limites conforme regras da sociedade e do viver coletivo, passando pelos conceitos de infância, de arte e de educação.  


Origens: um Brasil narrado

O Carnaval chegou ao Brasil no período da colonização, entre os séculos 16 e 17. Tinha a ver com o “entrudo”: “uma festinha na qual as pessoas saíam às ruas para lambuzar os colegas queridos com águas perfumadas, e os colegas não tão queridos com líquidos malcheirosos como xixi. Foram momentos de diversão que duraram até meados do século XX. O tempo passou, o cheiro de xixi acabou e a história seguiu. Começaram a surgir os grupos carnavalescos que organizavam festas de rua com carros alegóricos e bloquinhos durante a década de 1930”, diz o texto cheio de humor e emoção de Jacques Fux, para Dona Ivone Lara e o sonho de sambar e encantar (com ilustrações de Flávia Borges, Companhia das Letrinhas, 2024), biografia para crianças sobre esta diva da música brasileira, a primeira mulher a assinar a composição de um samba-enredo. Segundo o site do Bloco Doentes da Sapucaí, que traz as histórias dos sambas-enredos, a Rainha Ivone Lara entrou para o time de compositores da Império Serrano em 1965, em um ano que o carnaval era temático e tinha que falar sobre os 400 anos da cidade do Rio de Janeiro. Ela levou para a avenida “Os Cinco Bailes da História do Rio” que contava em poesia cinco grandes eventos do passado da cidade: 
1) Os 20 anos de fundação da cidade, em 1585
2) A grande festa de mudança de capital do vice-reino do Brasil de Salvador para o Rio de Janeiro, em 1763
3) A aclamação de Dom João VI como Rei de Portugal, Brasil e Algarves, em 1818
4) O grande baile da Independência do Brasil, em 1822
5) O último baile do Império, ocorrido na Ilha Fiscal, em 1889

Começava assim:


Carnaval, doce ilusão
Dê-me um pouco de magia
De perfume e fantasia, e também de sedução
Quero sentir nas asas do infinito 
Minha imaginação


Como o livro Brasil: Uma Biografia nos aponta acima, nosso país é uma mistura de culturas e o samba que aprendemos a amar é resultado de muita coisa. “O samba foi inspiração de quase todos os movimentos musicais desta terra carnavalesca”, afirma o pesquisador André Diniz no livro Almanaque do Samba (Jorge Zahar Editor, 2006, hoje disponível no site andredinizcultura.com.br) “Apesar de um gênero resultante das estruturas musicais europeias e africanas, foi com os símbolos da cultura negra que o samba se alastrou pelo território nacional. No passado, os viajantes denominavam batuque qualquer manifestação que reunisse dança, canto e uso de instrumentos negros”, diz. 

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O termo “escolas de samba”

Jacques Fux narra também que “em 1920, no Rio de Janeiro, havia os ‘ranchos carnavalescos’ - pessoas que saíam fantasiadas dançando marchinhas pelas ruas carregando o estandarte do grupo. Um rancho decidiu inovar em 1928: reuniu um monte de professores, que se organizaram na frente de uma escola no bairro Estácio, no centro da cidade, e resolveram se chamar (obviamente) de ‘Escola’ de Samba Deixa Falar! E essa novidade deu o que falar: outros abraçaram a importância e o respeito desse termo e passaram a se reconhecer como ‘Escola’.”

Quem fazia parte desta turma era o niteroiense Ismael Silva, conhecido de tantas canções como a “Se você jurar/Para me livrar do mal” e que compôs seu primeiro samba aos 15 anos de idade chamado “Já Desisti”.  “No dia 12 de agosto de 1928, Ismael se tornou um dos fundadores da primeira escola de samba do Brasil, a Deixa Falar. A origem da agremiação estava ligada aos encontros de músicos daquele bairro – além do próprio Ismael, lá estavam Nilton Bastos (1899-1931), Marçal (1902-47), Brancura (c. 1908-35), Bide (1902-75) e Balaco (1913-35). Como esses encontros eram realizados num bar localizado bem em frente à Escola Normal, Ismael resolveu inovar e inventou o nome ‘escola de samba’, até para diferenciá-las dos blocos e ranchos. Ou seja, se da escola saíam os professores, do bar saíam os catedráticos do samba”, conta Flávio dos Santos Gomes, Jaime Lauriano e Lilia Moritz Schwarcz em Enciclopédia Negra (Companhia das Letras, 2021), no verbete dedicado ao músico. É possível ouvir na voz dele mesmo parte desta história na faixa Antonico, do disco Ismael Silva - Se você jurar (RCA/BMG, 1973) disponível na plataforma Spotify. 

A inovação “escola de samba” marcava a nossa linha do tempo da música não apenas no nome, mas no ritmo. “Carlos Sandroni (1958-) afirmou que o samba de ‘paradigma do Estácio’ – estilo que se popularizaria em todo o Rio de Janeiro ao longo da década de 1930 – tinha um ritmo muito marcado por tradições africanas, que articulava a melodia de maneira a sempre privilegiar o encadeamento. O trinômio cuíca, surdo e tamborim era também entendido como mais uma inovação dos compositores do Estácio. Outra característica do gênero era a batida do tamborim, conhecida como ‘telecoteco’”, destacam os autores. A Deixa de Falar, no entanto, desfilou pela primeira vez em 1929, na Praça Onze, depois saiu às ruas em 1930 e, pela última vez, em 1931.  

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História da música e do racismo brasileiro 

Em seguida, outras surgiram já se nomeando como escolas de samba, como A Mangueira, em 1929. Em 1930, Carmen Miranda se consagra nacionalmente com a marchinha “Para vocês gostar de mim (Taí)”, de Joubert de Carvalho. Portela surge em 1935. Em 1984, primeiro desfile no Sambódromo do Rio, espaço projetado por Oscar Niemeyer, segundo o pesquisador André Diniz. 

“Sem dúvida alguma o carnaval é o momento de esplendor do samba. Sua organização mobiliza milhões de pessoas pelo Brasil, e ele acabou por tornar-se o maior símbolo cultural brasileiro no exterior. Nem sempre, porém, o carnaval teve como trilha sonora o samba. Espaço aberto para a diversidade musical, o carnaval era festejado com trechos de ópera, chulas, polca, mazurca e valsa. Só depois do lançamento de ‘Pelo telefone’ o samba iria, aos poucos, fazendo seu império”, informa André Diniz em relação à famosa canção nascida no território de Tia Ciata, famoso espaço de encontro de sambistas e lideranças religiosas, repleto de histórias da nossa música. A primeira música de que temos notícia composta especificamente para o carnaval foi feita pelo cordão Flor de São Lourenço em 1885. “Remonta aos cordões – grupamentos de brancos, negros e mestiços que, fantasiados, ao som de instrumentos de percussão, dançavam pelas ruas de forma desorganizada”, continua o autor. 

E de onde vêm as “marchinhas”? “Feitas com o compasso binário da marcha militar, andamento acelerado, melodias simples e comunicativas, com letras cheias de picardia, as marchinhas guardam estreita relação com um espírito tipicamente carioca. São filhas diretas do jeito extrovertido e jocoso com que os compositores populares do final do século XIX compunham suas polcas”, conta Diniz. “Vista como a primeira composição do gênero, ‘Ó abre alas’, de Chiquinha Gonzaga, escrita em 1899 para o cordão Rosa de Ouro, inaugurou uma dinastia de autores do estilo, que contou ainda com Sinhô, Eduardo Souto, Lamartine Babo – o Lalá –, João de Barro, Alberto Ribeiro, Haroldo Lobo, Noel Rosa, Joubert de Carvalho, Nássara e outros. Hoje se canta de tudo durante o carnaval, como era antes dos anos 1930: samba, axé-music, funk, forró, frevo, pagode paulista, sertanejo-music, música pop, hip-hop e outros ritmo”. Você concorda, não?

À inspiração da própria história de Chiquinha – mulher negra por décadas representada na mídia como mulher branca – o  Carnaval marca uma história de resistência repleta de paradoxos. Segundo Josi Souza, historiadora, professora da Educação básica (SEC-BA), Mestra em Educação (PPGE-UEFS), feminista antirracista, “Ao longo do século XX a história do carnaval, em vários momentos, se encontra e se funde à própria trajetória da comunidade negra dos morros e quilombolas, da própria organização dos movimentos sociais em sua luta pela preservação do nosso legado e enfrentamento do racismo, passando pela origem das escolas de samba e presença maciça de músicos pretos nas agremiações e bailes carnavalescos, o surgimento dos blocos afro nas periferias majoritariamente negras de Salvador, além de movimentos culturais, como a Axé music”, diz em texto no site do do Geledés Instituto da Mulher Negra. “O racismo religioso constatado o ano inteiro dá lugar a uma espécie de ‘permissão’ para entoar sambas em honra aos orixás e prestigiar as homenagens feitas às lideranças das religiões de matriz africana, (dis)simulando uma sociedade que respeita a diversidade em suas várias nuances. Sabemos que a Quarta-Feira de Cinzas é o limite e tudo volta ao padrão de violência até o carnaval seguinte”, completa. 

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O século XXI: as novas gerações vão para as ruas

Segundo o site Blocos de Rua, que organiza a mais recente onda da metrópole São Paulo, o Carnaval de Rua nasceu na cidade já em 1914, no bairro da Barra Funda. “Naquele momento, surgiu o primeiro cordão carnavalesco da cidade, que havia sido criado pelo líder negro Dionísio Barbosa. O Cordão Barra Funda, que, mais tarde, foi rebatizado de Camisa Verde e Branco, acabou incentivando a criação de outros cordões em locais ocupados por negros depois do fim da escravidão.”

Foi assim marcando as ruas até os anos 1960. “Momento em que a elite de SP começou a se envolver na onda do Carnaval e, inspirada pelos cariocas, começou a criar escolas de samba. Os investimentos públicos acabaram se voltando para o desfile das escolas e deixando os cordões e blocos de lado”, narra o site. 

O Carnaval de rua paulistano renasce da insistência de moradores apaixonados, começando a lutar por seu espaço especialmente na zona oeste da cidade e hoje toma conta de vários bairros. Porém, todos os anos precisa da coletividade para cuidar dos espaços no que se refere à circulação e segurança dos frequentadores. Foi preciso um Manifesto Carnavalista. “Em janeiro de 2013, o Secretário da Cultura de São Paulo atendeu às reivindicações do manifesto e passou a reconhecer a legitimidade do Carnaval de Rua como importante forma de expressão cultural e ocupação do espaço público da cidade. Desde então, a prefeitura auxilia os blocos e cordões e, em decorrência disso, existe o Carnaval do jeito que conhecemos hoje.”


Multidões de vários lugares do mundo e músicas que duram o ano inteiro

Todos os anos já sabemos que tem música nova para decorar e dançar no Carnaval. E a então novidade dura o ano todo e, por vezes, como certos sambas-enredos dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo, ficam para sempre na história da música brasileira. Os trios elétricos baianos tomam conta de Salvador e acolhem as diversidades. “O Carnaval de Salvador foi reconhecido pelo Guinness Book em 2004 como ‘o maior Carnaval de rua do mundo’. Todos os anos, a folia pelas ruas da capital baiana atrai cerca de 2,5 milhões de pessoas”, informa coluna no tradicional jornal O Povo. Quem inventou esse palco ambulante foram os músicos Dodô e Osmar, em 1950, já com uma trajetória de inovação de instrumentos e de arregimentar gentes ao redor da música. 

Os afoxés também tomam conta do carnaval baiano, como a tradição do bloco Filhos de Gandhy, que nasceu em 1949 e ganha novo fôlego quando Gilberto Gil recém chegado do exílio por conta da ditadura militar, se inscreve no bloco e compõe os versos inesquecíveis “Oh, meu pai do céu, na terra é carnaval/Chama o pessoal/Manda descer pra ver/Filhos de Gandhi”. Hoje é o maior bloco da cidade, com cerca de 10 mil integrantes. 

Cunhado pelo jornalista Hagamenon Brito, a “axé music” ganha força nos anos 1980, mas ainda não é unanimidade entre os artistas para denominar a música atual baiana. Hoje, inclusive, a canção Fricote, que teria começado o boom mercadológico do gênero com Luiz Caldas, está fora do setlist do cantor por hoje assumi-la como uma letra machista e racista. Nos anos 1990, Daniela Mercury e Ivete Sangalo espalham ainda mais o “termo”, Olodum, na regência de Neguinho do Samba, solidifica o samba-reggae e o Brasil conhece Ara Ketu, Chiclete com Banana, de Bel Marques,  e Timbalada, de Carlinhos Brown. 

Em Pernambuco, Recife e Olinda celebram suas identidades também no período do Carnaval. “O frevo é uma tradição de impacto na cultura pernambucana, nordestina e do Brasil. ‘Frevar’ é uma expressão rotineira do carnaval que reúne um conjunto artístico de música, dança, poesia, encontro, tradição e festa. O frevo é mais do que um passo, uma nota ou uma palavra e está presente na história da construção de Pernambuco e no cotidiano da cidade do Recife, Olinda, Paudalho, Vitória Nazaré da Mata e demais, sendo na festa dos carnavais o momento em que se vive a maior efervescência cultural desta tradição”, escreve o antropólogo Miguel Colaço Bittencourt para o site da Fundação Joaquim Nabuco. “O gênero musical surgiu no final do século XIX com a junção dos elementos das matrizes indígenas, africanas e europeias, desenvolvendo com o passar dos anos uma característica de símbolo original de regionalidade e nacionalidade. É na reorganização das estruturas sociais pelas camadas populares, misturando elementos da marcha, maxixe, capoeira, polka, mazurca, dobrado e ritmos binários que surgiu o frevo com metais de ataque e letras líricas. Devido à sua importância sócio-histórica e artística, no ano de 2007, foi considerado Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Depois, no ano de 2012, o frevo foi intitulado como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco)”, completa. O Galo da Madrugada, considerado o maior bloco do mundo, toma conta do Recife no sábado de Carnaval e, agora 2026, espera mais de 2 milhões de pessoas.

Para além do que conseguimos contar aqui, outras expressões de identidades artísticas também são marcadas no período, como os os grupos maracatus, tradição afro-brasileira que tem referência às festas organizadas por grupos de escravizados africanos. Como cultura é a produção de um povo, suas tradições, crenças, costumes, artes, comportamentos, o Carnaval também borra suas fronteiras de origens e permanências. 

(texto Cristiane Rogerio)

 

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