Grandes e pequenas violências contra as mulheres: como a arte literária pode entrar neste combate desde cedo

06/03/2026


A plateia faz fila, o circo está armado. Três lobas-artistas estão se preparando para a apresentação, enquanto uma figura masculina briga com elas, apontando o relógio. 

Elas se chamam Alma, Pilar e Vida. 

 A fabulosa história de uma trupe de acrobatas

No livro A Fabulosa História de uma Trupe de Acrobatas (Companhia das Letrinhas, 2026), com textos e imagens da autora mineira Maira Chiodi (primeiro livro dela na Companhia), lemos na escrita que as três lobas nem se lembram como tudo começou. Já havia muito tempo, eram famosas no mundo todo! Por fora, grandes celebridades talentosas; por dentro, maus tratos generalizados. E então elas ficam sabendo que a situação delas ficará mais difícil ainda. O que os carrascos não sabiam é que elas tinham um limite e uma força que ninguém conhecia. 

Esta “força” do feminino é questionada, subjugada, reprimida, desprezada por tantas sociedades há tanto tempo que parece que não iremos aguentar mais. Mas são, também, tantas histórias de transformação, mudança de destinos, apoio entre si, que a esperança teima e se renova. 

Dureza é continuar a cada baque. O Brasil terminou fevereiro com três histórias bem reais de feminicídio ganhando todas as mídias e inundando de dor as redes sociais. Na semana seguinte, a mesma semana que lembramos 8 de Março como Dia da Mulher, a notícia de um estupro coletivo entre adolescentes, no Rio de Janeiro, todos colegas de uma mesma escola. “A sensação de ‘enxugar gelo’ não pode nos paralisar”, disse para o SP1, da TV Globo, Anderson Almeida da Silva, defensor público e assistente social, que faz trabalhos de educação com homens em alguma situação de denúncia de crimes relacionados à mulher. 

Em 2025, a Ong Serenas publicou a pesquisa “Livres para Sonhar”, um levantamento inédito para compreender como meninas e mulheres vivenciam e – vejam só – percebem diferentes formas de violência. Mas a pesquisa tem um foco: o ambiente escolar. O estudo ouviu não somente as e os estudantes mas, também, professores e lideranças das secretarias de educação. “Acreditamos também que a escola tem um papel central na prevenção dessas violências. É ali que muitas delas se manifestam pela primeira vez — mas é ali, também, que podem nascer cuidado, acolhimento e relações mais saúdáveis”, diz o texto de abertura do documento. “No Brasil, a relação entre violência de gênero e ambiente escolar ainda não é evidente para a maioria dos governos e organizações. Muitas vezes, essa pauta é considerada secundária, já que os indicadores educacionais costumam mostrar que meninas têm desempenho escolar superior ao dos meninos. O que esses dados não revelam é o custo emocional, social e subjetivo que muitas meninas enfrentam para permanecer estudando — e o quanto a violência impacta o bem-estar de toda a comunidade escolar.”

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Os dados nos assustam, mas são precisos

A fabulosa história da trupe de acrobatas

O que acontece quando as lobas começam a mostrar os dentes? Ilustração de A fabulosa história da trupe de acrobatas

 

Entre os dados de violência baseadas em gênero, a cada 10 vítimas de estupro no Brasil, 6 são meninas com menos de 13 anos (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2023). Além disso, diariamente, 26 meninas com menos de 14 anos se tornam mães no Brasil — a maioria delas negras e residentes nas regiões Norte e Nordeste do país (UFMG, 2024). O enfrentamento a estas questões interfere na garantia ao direito à educação de todas elas. 

Só que, no documento, tem-se evidências de que até o termo “Violência Baseada no Gênero (VBG)” causa incômodo entre os ouvidos no ambiente escolar e pouca familiaridade com o termo. Do silêncio a interpretações graves. Os ouvidos “demonstraram uma compreensão restrita do conceito de ‘gênero’, associando-o exclusivamente à orientação sexual e à identidade de gênero. Por fim, houve aqueles que relacionaram o termo diretamente à ‘violência que as mulheres sofrem’”. Entre os números, sete em cada dez professores já presenciaram situações de sexualização e cantadas indesejadas praticadas por meninos, e 42% viram toques sem consentimento. Quanto às miniagressões, “apenas 40% dos professores concordam totalmente que dizer que mulheres têm mais vocação para serem professoras do que homens se refere a uma situação de discriminação e/ou violência por conta de gênero”, e 37% concordam que proibir meninas de usarem short na escola está ligado à discriminação de gênero. Já atitudes como elogiar alunas por serem bonitas ou bem-vestidas (22%) ou tratá-las por apelidos como “linda” e “querida” (22%) são percebidas por poucos professores como situação de discriminação e/ou violência por conta de gênero”.


A contribuição humana da arte e da literatura

A educação e o cultivo da sensibilidade são os caminhos para que a gente não deixe de ficar somente nas discussões e protocolos necessários diante das adversidades. É a maneira para conseguir, de fato, vislumbrar um futuro com relações menos violentas. Isso pode começar com ações desde a primeríssima infância. Em casa, criando meninas ou criando meninos, são muitas as maneiras com as quais devemos nos comprometer para diminuir tantas histórias tristes. E a escola é o ambiente mais fértil para que debates sejam estimulados e acolhidos. Tanto que, em 2024, a Lei 14.986 alterou a Lei de Diretrizes e Bases (Lei nº 9.394/1996) e tornou obrigatória “abordagens fundamentadas nas experiências e nas perspectivas femininas nos conteúdos curriculares do ensino fundamental e médio”. E instituiu a Semana de Valorização de Mulheres que Fizeram História, campanha a ser realizada anualmente na segunda semana do mês de março nas escolas de educação básica do País. A mudança teve origem num projeto de lei sugerido pela deputada Tabata Amaral para atingir diretamente a manutenção de estereótipos que cerceiam sonhos e possibilidades às meninas desde pequenas.

A arte e a literatura, até como “direito humano” que é – segundo nos ensinou o professor Antônio Cândido em “Direito à Literatura” – pode ser uma das chaves para mudanças nestes pensamentos tão endurecidos da sociedade. Assim como A Fabulosa História de um Trupe de Acrobatas que mencionamos na abertura deste texto, os selos infantis da Companhia das Letrinhas têm muitos exemplos de obras que abordam uma perspectiva do feminino, da feminilidade, do que as meninas e as mulheres podem e querem ser. Aqui, alguns deles para vocês ampliarem a lista para mais outros. 


Para que meninas tenham o direito de crescem imaginando - e experimentando - muitas formas de ser

Quando Estela era muito, muito pequena (Brinque-book, 2010), de Marie-Louise Gay

Quando Estela era muito, muito pequena

Esta garotinha que aparece em vários livros da autora canadense não tem limites para viver aventuras em sua rica imaginação. Para se ter uma ideia, quando ela era bem pequena, já achou ser uma tartaruga, um peixe, um cachorro. Depois, expandiu seus horizontes, subindo no sofá, de onde “ela podia ver o mundo inteiro”. Se não sabia ainda amarrar os sapatos, era muito boa em apostar corrida com os patinhos de borracha na banheira. E com estas e outras experiências, ela foi crescendo autoconfiante para continuar – ela mesma – traçando aventuras. 


Para que meninas reconheçam nas mulheres as figuras ancestrais que guardam as memórias

Maqueira de Tucum (Pequena Zahar, 2025), de Márcia Kambeba e Michelle Cunha

Maqueirade tucum

As autoras Márcia Kambeba e Michelle Cunha, ambas da região Norte do país retratam uma história que sempre fez parte do imaginários de Márcia. No povo conhecido como “filhos das águas”, existia uma bela e querida kunhã, filha do cacique e guardiã das memórias. Todos iam até ela para ouvir e aprender sobre a força das matas, os segredos dos rios e por que ela era amiga dos animais. Um dia, quando ela não estava mais entre os seus, uma tradição se fez na ausência: a feitura da maqueira de tucum, uma rede trançada com as fibras desta árvore que se tornou um elo entre o mundo dos humanos e a espiritualidade. Quem nela se deita, sonha e tem inspirações para a vida. 


Para que meninas abracem e alimentem a cumplicidade entre mulheres compartilhada entre geraçoes

O quintal das Irmãs (Pequena Zahar, 2024), de Waldete Tristão e Rodrigo Andrade

O quintal das irmãs

Da memória de infância da escritora Waldete Tristão e de sua irmã, Valquíria, uma sucessão de pequenos segredos, tradições, brincadeiras e amor compartilhados entre elas. Pode ter a ver com aprender a ler ou com fazer bolinhos com o barro; pode ser a imaginação voar como um sabiá ou o ritual do umbigo enterrado na terra. Tudo costurado afetivamente com uma mãe presente que deixa as filhas livres no imaginar, como quem cuida de um futuro que o amor sempre será um lugar para retornar. 


Para que as meninas aprendam a enxergar suas próprias mães como mulheres reais

Mamãe Zangada (Companhia das Letrinhas, 2025), de Jutta Bauer, tradução de Sofia Mariutti

mamae-zangada

O narrador ou narradora é um pinguim, filho ou filha. Não sabemos o que aconteceu mas, quando a autora alemã começa a contar a história, já estamos no acontecimento: “hoje de manhã, minha mãe deu um grito tão forte que me despedacei pelos ares”, e lá seguimos nós, leitoras e leitores, de olhos arregalados, vendo uma mamãe zangada de um lado, e um filho em partes pelo livro todo. Sabe quando sobrecarregadas estamos até que… pois é. É esse o sentimento que Jutta quis nos narrar, mas sem deixar de dizer que sempre é tempo de costurar tudo de novo. 


Para que as meninas saibam que podem pedir - e receber - ajuda. E que isso nao as torna menos incríveis

Celeste, a skatista (Companhia das Letrinhas, 2024), de Rachel Katsyaller, tradução Ligia Azevedo 

Celeste, a skatista

Celeste, uma verdadeira “rata do skate”, já se sentia gigante nas suas manobras pela pequena cidade. Um dia, uma nova pista incrível foi inaugurada e ela se empolgou a superar os limites. Mas o tombo – o literal – veio e ela perdeu a confiança que tinha no seu próprio corpo. Mas uma dupla desconhecida e que a admirava de longe não deixou que a menina desistisse e, muitos tropeços depois, algo muito mas muito importante havia acontecido. A autora de El Salvador fez o livro em celebração à comunidade do skate que ela faz parte e que com ela conheceu pessoas de vários lugares do mundo. 


Para que as meninas aprendam a não romantizar a dor das 'mulheres fortes'

A melhor mãe do mundo (Companhia das Letrinhas, 2022, de Nina Rizzi e Veridiana Scarpelli

A melhor mãe do mundo

É difícil segurar o nó na garganta com esta história. Mas, ao mesmo tempo, é reconfortante que duas mulheres se juntem para narrá-la para nós e para acolher mães e filhos que não podem estar juntos. Se o sistema prisional já é cruel e com pouco espaço para relativizações, imagine quando é uma mulher e mãe. Mas, e se, quem narrasse a história fosse o filho? É assim que nos enternecemos com esta obra, em que o protagonista conta que sua mãe é a melhor mãe do mundo. Tem a ver com o jeito que ela brinca, com o sabor da macarronada; tem a ver as habilidades dela no futebol e com a imensa força que ela tinha para cuidar da casa, dele e até de outras crianças e dar conta. Ele renova todas essas memórias toda vez que vai visitá-la e pensa sobre com o que realmente conta de verdade. 


Para que as meninas encontrem a grande guerreira que há dentro delas

Tanãmak, uma guerreira Mura (Brinque-book, 2025), de Márcia Mura e Raquel Teixeira

Tanamak

Desde criança Tanãmak já demonstrava seu espírito guerreiro. Cresceu ao lado da mãe e da avó em seus afazeres entre os rios, a floresta e uma onça ou outra (!!!) que rondava a casa. “O medo era tanto que meu coração quase saiu pela boca! Mas, ao mesmo tempo fui corajosa e não chorei”. Navegar pelo rio Madeira fazia parte de seu dia de tanto fazer, de aventuras que pareciam sonhos, entre desejar continuar no tempo da infância e se tornar a guerreira Mura que se tornou. 


Para que meninas nao tenham medo de se arriscar na busca por si mesmas - nem de mudar!

Loba (Pequena Zahar, 2023), de Roberta Malta e Paula Schiavon

Loba

Um dia a casa ficou muito pequena para a menina desta história. Algo estava chamando-a para outros caminhos, reparar em outras coisas. E quando bateu aquela vontade de desbravar, a mãe pede que ela vá buscar flores pois a avó irá visitá-las. “Só tome cuidado na floresta”. O que mais uma mulher pode deixar à outra? O mote da escritora Roberta Malta abre um mundo-vermelho delicado para falar sobre determinada fase de transição, com desafios próprios e caminhos que não precisam ser solitários. 

 

Amanhã (Pequena Zahar, 2022), de Lúcia Hiratsuka 

Amanhã

O livro da autora paulista é dividido em três partes. Uma traz as próprias memórias da autora, a segunda memórias da sua mãe e, a terceira, de sua avó. Da imigração japonesa em temos de guerra, aos cuidados de mãe focada nos mínimos detalhes, as três histórias nos apontam a força do estudo e do direito a ir à escola. Junto, uma paisagem entre traços, surpresas, tensões e conquistas, e um aprendizado inesquecível sobre resistir, sobre tomar conta de quem se ama e sobre não deixar de sonhar. 

(Texto Cristiane Rogerio)

 

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