Biblioteca do pequeno ativista ambiental: 12 livros essenciais
A emergência climática é real. Não se trata do mundo que vamos deixar para nossos filhos, mas do mundo em que eles já vivem. Como salvá-lo? Como criar uma geração mais consciente?
Em 1969, o artista visual mineiro Ziraldo publicou a história de um dos personagens mais marcantes da literatura infantil brasileira. Deixou boquiaberto ninguém mais, ninguém menos, que o poeta Carlos Drummond de Andrade e, de alguma forma, inaugurou no Brasil um jeito de, no mesmo livro, unir a potência da narrativa textual com a narrativa visual. Hoje no catálogo da editora Melhoramentos, livro e personagem se chamam Flicts. Flicts era uma cor. Uma cor angustiada que não encontrava seu lugar no mundo e que nos ensinou a pensar sobre o direito de ser quem se é.
Ilustração de Lumina Pirilamus para Cyber PANC e Só Zé – o resgate de um superpoder pifado e outras caraminholas (Escarlate, 2026)
Quase 60 anos depois, a escritora paulista Mariana Brecht criou outro personagem interessantíssimo, extremamente capaz de fazer reflexões sobre a sociedade, fã de HQs, poesia e livros ilustrados e, como Flicts (e seus leitores), repleto de dúvidas sobre si mesmo. Ele se chama Zé, tem 12 anos e vive em um futuro que conseguimos imaginar, embora não queiramos acreditar. Logo no comecinho de Cyber PANC e Só Zé – o resgate de um superpoder pifado e outras caraminholas (Escarlate, 2026), com ilustrações de Lumina Pirilampus e que acaba de chegar às livrarias, vemos Zé lendo o uma edição de Flicts da biblioteca de seu avô Emici. “Flicts é aquele livro que eu leio quando quero me sentir em casa, sabe? Você também deve ter um. Todo mundo deveria ter um”, diz o menino, narrador desta incrível aventura.
Ele divide as nossas atenções com Cyber PANC, uma garota impulsiva, corajosa e que parece saber exatamente o que quer. Embora os dois sejam muito diferentes, estão inseparáveis na obra. O “superpoder pifado” é de Cyber, que tem o dom de fazer plantas brotarem com simples gestos das mãos. Desde a morte de Prima, sua tia, com quem compartilhava a aptidão, ela simplesmente não consegue mais. Num tempo de grande escassez alimentar, este é um problema gigante para a comunidade de Minhoquinha, em São Paulo, numa alusão ao viaduto João Goulart, apelidado de “Minhocão”, via fundamental que liga as zonas oeste e leste da cidade.
Mariana e Lumina nos carregam com muita, mas muita criatividade, para reflexões profundas sobre a nossa relação com a terra, a importância do coletivo e como é fundamental saber o passado para sonhar mudanças. Afinal, como diz o ativista Ailton Krenak, “o futuro é ancestral”.
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Ilustração de Lumina Pirilamus para Cyber PANC e Só Zé – o resgate de um superpoder pifado e outras caraminholas (Escarlate, 2026)
Sabe, fazia uns dias que nossas hortas não davam nada além de chuchu, e as galinhas, morrendo de calor, já não botavam ovos. Era chuchu de tudo que é jeito, mas tudo bem, a gente se acostuma.
Só que agora acabou tudo.
Não tem mais chuchu, nem folha de chuchu, nem casca de chuchu. Comemos o último no café da manhã.
É Zé quem narra tudo para gente. “Se existissem supermercados, como nos tempos dos vovôs, tudo se resolveria, mas não temos. Toda a nossa comida vem da horta, da granja. Parece ruim? Fica pior. Os vizinhos acham que tem uma pessoa que poderia nos salvar. Sim, uma unidade de pessoa, com nome, sobrenome e RG.” A escritora encontrou um jeito irresistível para este narrador, que mistura ironia com ingenuidade para contar para gente uma história cheia de referências que o leitor pode buscar saber mais com os adultos ao seu redor, mas em momento algum ficará perdido nelas. Zé é um narrador que acolhe e confia no leitor, como quem conta um segredo. E o que ele revela não é “apenas” a aventura que ele enfrenta para ajudar sua amiga e sua comunidade. Mas, também, uma luta bem comum na pré-adolescência: a busca por uma identidade, entre respeitar quem veio antes e garantir o direito de ser quem se é.
Ambientando uma luta pela sobrevivência, o livro costura de forma frenética, mas ao mesmo tempo intimista, a complexidade dos personagens com elementos específicos para imaginarmos não só o que está acontecendo mas, também, o que aconteceu com a vida neste planeta. No “caderno de caraminholas”, Zé escreve tudo e divide com o leitor ou a leitora os sentimentos mais densos e os detalhes das peripécias, dos diálogos, das surpresas, das relações de respeito e curiosidade com a vida pregressa dos mais velhos. Quem lê é convidado a prestar atenção e ir montando quase um quebra-cabeça entre emoções e contextos. Exemplo:
Eu adoraria dizer que foi um dia como os outros, só que não foi. Nunca é. Parece que essa coisa de rotina ficou nos tempos dos vovôs, juntos com os supermercados, os hortifrútis, as padarias. Por outro lado, ficaram no passado também a poluição, que deixava o ar com um cheiro horrível e o sol com uma cor esquisita.
Ou quando Zé nos apresenta seu outro avô:
- Bom dia, meu chuchu! Adivinha o que tem pro café hoje?
Todo dia o vô Neto me faz essa pergunta. Todo. Santo. Dia.
Eu sei, é confuso, mas o nome do meu avô é Neto: Gabriel Barbosa Neto. Na época dele, as pessoas faziam isso: colocavam nos filhos o mesmo nome dos pais, ou até dos avós, e então acrescentavam Filho ou Neto depois do sobrenome, para não confundir.
Até aí, vá lá.
Sabe o que acho mais estranho? Na época dos vovôs, eles não podiam escolher o próprio nome depois dos doze anos!
(...)
Se eu já escolhi meu nome? Não quero falar sobre isso...
É também nessa alternância entre subjetividade e contexto que a gente entende que a água é racionada, a cozinha é comunitária e que ninguém vive mais isolado, por exemplo, em apartamentos ou casas com uma família só. A água quente vem quando fez sol no dia anterior e, para Zé, o banho é um momento de tranquilidade que ele tem protegido em sua comunidade. Até que, um dia, ele segue para seu ritual da manhã e vê que o box preferido está ocupado. E é quando ele – e nós – encontramos pela primeira vez a menina Cyber PANC.
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Ilustração de Lumina Pirilamus para Cyber PANC e Só Zé – o resgate de um superpoder pifado e outras caraminholas (Escarlate, 2026)
Lá no futuro do livro, os adultos continuam não entendendo por que algumas crianças preferem ficar sozinhas. A escola é um tormento para o menino, que acha todos muito barulhentos, agitados, descuidados. Cyber PANC volta às páginas do livro justamente numa circunstância angustiante do dia-a-dia escolar: ela é uma “convidada especial” e vira a sua dupla na aula de Gambiarra Avançada.
Aos poucos, vamos conhecendo os adultos e seus nomes – será que são dos tempos antigos ou dos tempos atuais? – o que fazem e, claro, como ninguém entende as ideias mirabolantes de duas crianças/pré-adolescentes. Seu Pierre é o professor das engenhocas, tem um sotaque arranhado, veio do Haiti e “talvez ele seja meu melhor amigo adulto”, compartilha Zé. Seu Arnesto é Ernst, o jardineiro sabe-tudo de plantas. Dona Nise é a médica-curandeira do bairro. “Estudou para ser médica, mas também usa conhecimentos da mãe e da mãe da mãe e da mãe da mãe da mãe.” E a misteriosa menina tem um envolvimento com todo mundo – e isso deixa Zé muito intrigado.
A primeira coisa que eles conflitam é sobre a questão do nome. Cyber tem sua identidade resolvida: “panc” significa “plantas alimentícias não convencionais”, do tipo das que brotam até nas calçadas e que, no tempo deste livro, são comestíveis e bem importantes. “Cyber” ela escolhe por uma, digamos, intuição. Zé não escolheu ainda quem é – ou quem quer ser. E quando a menina ouve um “eu sou Só Zé”, passa a chamá-lo assim e apresentá-lo assim para quem encontra. Mas, o que talvez interesse mais é a descoberta que Zé faz logo de primeira sobre sua nova companheira de vida: o jeito que ela sorri.
... ela abriu um sorriso de um tipo que eu nunca tinha visto. É difícil descrever, porque assim, na teoria, era um sorriso igual aos outros, com lábios abertos e dentes à mostra. Mas, na prática, não era.
Para tentar explicar, vou usar uma coisa que o seu Bispo ensinou pra gente na aula de poesia. Todo mundo achou meio brega, mas eu gostei. É tipo contar uma mentira para chegar numa verdade mais verdadeira. O nome disso é metáfora:
“Um raiozinho de sol saiu do sorriso dela.”
Eu a fiquei encarando por alguns segundos... quem não gosta de ver um raiozinho de sol entrando pela janela e fazendo a poeira brilhar?
Cyber PANC e Só Zé encontram mais uma porção de “gentes”. Mas vamos parando esse texto por aqui, apenas adiantando que a dupla sai de Minhoquinha para encontrar as Yata’is, seres que são meio gente meio abelha, assim como Cyber é meio planta. Elas moravam no “antigo Parque da Água Branca” e, para chegar até lá, ficamos sabendo de matagais por todo lado, fachadas de lojas desativadas, barricadas de pneus, fogueiras vigiadas por cães enormes, uma mulher estilo punk, placas escritas com tinta de urucum e um passado que envolveu experimentos genéticos. E quando conhecemos a versão futurística do parque, vemos que a biodiversidade desapareceu por lá, assim como as relações de troca entre os seres.
Moradora de São Roque em plena Mata Atlântica, envolvida com as questões ambientais, as ameaças por contas das mudanças climáticas e confiante na força da literatura para sensibilizar, Mariana encontrou uma forma muito própria de abordar as disputas de poder, a tática “separar para conquistar” e o convite para uma solução – uma reviravolta! - possível, mas que exige lutas diárias de todos nós.
(texto Cristiane Rogerio)
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