Era uma vez uma família muito muito pobre. A escassez de comida fez com que o próprio pai, persuadido pela madrasta das crianças, abandonasse os filhos em meio à floresta escura e cheia de feras. Ursos e lobos poderiam facilmente devorá-los. E os irmãos, em meio a árvores com galhos retorcidos como garras, de repente, se depararam com uma casa. Uma casa diferente de todas as outras. Uma casa de comer, feita de pães e doces. Mas o que parecia ser a descoberta de um pequeno paraíso era na verdade a porta para o inferno. A casa era uma armadilha de uma bruxa malvada que devorava crianças e que dos irmãos seus prisioneiros.
João e Maria, ou Hänsel und Gretel, publicado pela primeira vez pelos Irmãos Grimm, Jacob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859), em 1812, parece uma história de terror. E é.
Não por acaso, Stephen King, mestre do gênero, tinha que escrever uma nova versão da história, que acaba de ser publicada no Brasil. João e Maria (Companhia das Letrinhas, 2026) reúne o texto potente e sombrio de King, traduzido por Regiane Winarski, a partir de ilustrações feitas por Maurice Sendak, um dos mais celebrados autores infantis de todos os tempos, Sendak produziu as imagens para uma ópera nos anos 1990.

A casa de doces que ganha um rosto com as ilustrações de Maurice Sendak
“Duas de suas imagens, em particular, me chamaram a atenção: uma era da bruxa má em sua vassoura com um saco de crianças raptadas atrás dela; a outra era da infame casa de doces se transformando em um rosto terrível. Eu pensei: ‘É assim que a casa realmente se parece, um demônio doente de pecado, e só mostra essa face quando as crianças viram as costas. Eu queria escrever isso!’”, disse Stephen em declaração que está na introdução do livro.
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João e Maria sempre foi uma história de terror
João e Maria fala sobre abandono, violência com requintes de crueldade e ainda traz como pano de fundo de tudo isso uma floresta tenebrosa, que sabe-se lá quantos perigos mais pode esconder. A floresta costuma aparecer como um dos elementos principais na narrativa dos Irmãos Grimm e também ganha protagonismo nas ilustrações de Sendak. Tanto em Onde vivem os monstros (Companhia das Letrinhas, 2023), dominando o quarto de Max, quanto em João e Maria, se espalhando como organismo vivo que envolve as páginas e os personagens. A autora e pesquisadora Janaina Tokitaka explica que na obra dos Grimm, a floresta é retratada sob uma perspectiva do romantismo. “A floresta é o local onde tudo o que não aconteceria no mundo civilizado pode acontecer. É lá que a Chapeuzinho encontra o Lobo, é lá que as crianças vão se perder e se encontrar com coisas terríveis e também coisas encantadoras. É um lugar onde estão suspensas as regras sociais e que por isso é fonte do medo, do terror”, explica.

A floresta ameaçadora e envolvente de Maurice Sendak
Janaina também destaca que, além de João e Maria, há diversos contos dos Grimm que poderiam facilmente ser classificados como terror, mas que a história dos irmãos largados à própria sorte pelos pais invoca realmente algo que mexe com os medos de todos nós, por falarem do que é mais profundo e básico para a natureza humana. “Para mim, a história de João e Maria é um terror exemplar por tratar de um medo primal de toda criança que é o medo de morrer de fome. E também o medo de ser abandonado pelos pais. O medo do abandono, inclusive, é algo que pode nos acompanhar até a vida adulta. Faz todo sentido juntar esses medos em um trailer de terror”, observa.
Para a artista, escritora e curadora de artes visuais Katia Canton, que tem diversas publicações sobre os contos de fadas, a história fala sobre violência, mas fala também sobre um rito de passagem. “Podemos pensar em João e Maria como uma história que, ainda que psicologicamente, fala de uma separação dos pais, ainda que de forma violenta, quando as crianças são deixadas na floresta. Ali, acontece uma ruptura”, explica. Essa separação dos pais é frequentemente discutida na psicologia e psicanálise, como um processo necessário ao desenvolvimento do indivíduo, mas que não acontece sem dor - e sem um tanto de violência.
Katia também ressalta que é importante lembrar do contexto da época em que esses contos começaram a circular oralmente, ainda durante a Idade Média. “Naquela época, final de 1300, no contexto da Grande Fome [evento que marcou a Europa a partir de uma série de crises sociais em larga escala que provocaram milhares de mortes] era comum que as famílias tivessem mesmo que escolher quem ia viver e quem ia morrer”.
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A magia de contos que resgatam outros contos - e a essência humana
Uma das ilustrações de Sendak que mais chama atenção é a transformação da casa de doces que vai ganhando um rosto. Kátia explica que a casa simboliza a fase de fixação oral. Esta era, para Sigmund Freud (1856-1939), pai da psicanálise, a primeira fase do desenvolvimento psicossocial humano, que acontece dos zero ao dois anos e que se caracterizada pela busca de prazer e exploração do mundo através da boca. A casa de doces não é uma invenção dos irmãos Grimm, ela vem de um manuscrito encontrado no século XIV contando sobre um mito medieval a respeito de um reino de grande prazer e abundância, onde tudo era possível, o amor, a comida, a beleza. Esse reino foi traduzido em mitos, poemas, pinturas medievais”, explica.
João e Maria resgata a ideia do fio - ou de pedrinhas e migalhas - que conduzem a saída de situações difíceis como acontece no mito grego de Ariadne e do Labirinto de Creta. Quando Teseu chega à ilha, se apaixona por Ariadne, que era uma princesa, filha do terrível rei Minos, e ela também se apaixona pelo guerreiro. Para ajudá-lo a matar o Minotauro e escapar do labirinto, ela lhe dá um novelo, o “fio de Ariadne”, que se tornou símbolo de sabedoria e estratégia para driblar situações de caos.
Esses exemplos evidenciam como os contos de fadas estão intimamente ligados aos mitos e como uma só história pode trazer em si referências emprestadas de tantas outras histórias e assim, mantê-las vivas. É dessa forma que os contos continuam reverberando por tantas gerações. “Essas narrativas nos definem como seres humanos justamente porque existem para manter a nossa humanidade, criando padrões morais, reforçando padrões de educação e sociais. São narrativas que nos sustentam como humanos “, explica Kátia. Ela ressalta que a própria estrutura do conto é uma estrutura móvel, que vai adquirindo diferentes versões e se adaptando aos contextos sócio-históricos.
Uma vez que essas narrativas vão se moldando às necessidades de cada época, elas estão sempre vivas. Por exemplo, a partir da quarta versão publicada de João e Maria publicada pelos Grimm, não é mais a mãe quem abandona as crianças na floresta, mas a madrasta. “É um jeito de atenuar essa violência pungente da história, que sem dúvida vai virando uma história mais moralmente adaptada à religião cristã”, conta a especialista.
A criança como protagonista de sua história

Os irmãos perdidos na floresta - e o anjo do sonho de Maria
Nesta nova versão de João e Maria, na véspera de serem abandonados na floresta, as crianças sonham. Mas as ilustrações de Sendak mostram que, enquanto Maria sonha com anjos celestiais, João tinha pesadelos com uma bruxa terrível comedora de crianças – como um presságio. A narrativa traz outras dualidades, como a floresta escura e densa em oposição à casa de pães e doces cheia de cores e prazeres. Para Janaina, essa também é uma leitura romântica, que vem ligada de certa forma a um imaginário cristão, como se fosse uma batalha de forças entre o bem e o mal.
Para mim, essa era a essência dessa história e, na verdade, de todos os contos de fadas: uma aparência ensolarada, um centro sombrio e terrível, e crianças corajosas e cheias de recursos. De certa forma, eu tenho escrito sobre crianças como João e Maria durante grande parte da minha vida”, Stephen King
Em meio a isso, estão as crianças. Abandonadas pelos pais, perdidas, completamente vulneráveis. Mas mesmo assim, elas são realmente as protagonistas e mesmo em meio ao cenário mais desfavorável, elas conseguem se salvar. “São crianças inteligentes, com soluções engenhosas e estratégicas para driblar situações difíceis. Elas foram abandonadas pelos pais, mas marcam o caminho de volta para casa com pedrinhas, depois com migalhas… É quase impossível não torcer por elas”, comenta Janaina.
João e Maria trazem essa natureza selvagem da infância que Sendak exalta em suas obras autorais. As crianças podem até parecer frágeis e desprotegidas, mas encontram na criatividade e na engenhosidade, tão próprias da infância, sua grande força. Elas não querem apenas sobreviver: elas querem viver. Como toda criança.
(texto: Naíma Saleh)