Nossos brasileiros pelo mundo

02/04/2026

A Biblioteca Salaborsa é a principal biblioteca pública da cidade de Bolonha, na Itália. Ela ganha ainda mais visibilidade do mundo durante a Feira do Livro Infantil de Bologna, a mais prestigiada do planeta: quem vai visitar a feira não pode perder a chance de conhecer. É um lugar mágico, principalmente para fãs de literatura para as infâncias, porque historicamente dedica seus espaços a acolher crianças e seus direitos à leitura, desde bebês. Além de uma arquitetura inesquecível, localizada no centro histórico da cidade, é também onde moram por um tempo as indicações ao BolognaRagazzi Awards dos quais 2 livros brasileiros dos nossos selos infantis foram selecionados entre os 150 destaques de 2025: Azul Haiti (Companhia das Letrinhas, 2025), de Paty Wolff, e Nuvem de Areia (Pequena Zahar, 2025), de Otávio Júnior e Anna Cunha. 

Ilustração de Anna Cunha em Nuvem de Areia

Ilustração de Anna Cunha em Nuvem de areia

 

Segundo o site da feira, foram mais de 4.000 títulos submetidos ao júri oriundos de 73 países. Dos 150, são também escolhidos categorias específicas e menções honrosas. Mas como muita obra encanta dos jurados, a feira publica também um listão de indicados. Veja todos aqui.

LEIA MAIS: Azul da cor do mar - do Haiti. Uma conversa com Paty Wolff


Brasileiros olham a movimentação do mundo

Coincidentemente, podemos dizer, tanto Azul Haiti quanto Nuvem de Areia trazem olhares sensíveis sobre questões que vão além do território Brasil. Em Azul Haiti, a rondoniense Paty Wolff criou uma criança-narradora para nos sensibilizar à perspectiva de migrantes haitianos que vieram para o nosso país. Moradora da cidade de Cuiabá, Mato Grosso, ela observa essa movimentação no seu dia-a-dia. “Eu gosto muito de pesquisar o corpo negro no mundo, como diáspora. No caminho para o meu ateliê [em Cuiabá], tem uma comunidade de vendedores ambulantes informais que vieram do Haiti. Cuiabá foi uma das cidades que mais receberam haitianos - muitos só passam, mas muitos ficam. Todos os dias os vejo na luta. Mulheres, crianças, trabalhadores  - cada um com seu carrinho de mão, oferecendo seu produto. Roupas, óculos eletrônicos, trançado de cabelo… Vejo-os falando em francês ou em criollo, um dialeto. E isso tudo foi mexendo comigo. Fui vendo aquelas mulheres e comecei a me dedicar a pinturas de figuras femininas fortes e depois fui pintando homens, algo muito ligado ao corpo do meu pai, trazendo essa afetividade que acho que eu não tive”, conta a autora em entrevista ao Blog Letrinhas. 

Ela, então, pensou nessa narrativa que mostra uma mãe e um carrinho de mão com produtos para vender, num percurso que mistura saudades e direitos em torno da complexa questão da vida de refugiados. Para além do comovente enredo, a forma de narrar é bastante especial: o texto primoroso de Paty se entrelaça às suas ilustrações, tipicamente exploradas a partir da materialidade do papelão e de cores fortes, sendo que o azul pode ser encaraddo como um personagem na obra.

Por outra coincidência, é justamente o escritor Otávio Júnior quem assina a contracapa de Azul Haiti. “Paty Wolff nos convida, com muita sensibilidade, a navegar por um mar de histórias que nos levam a refletir sobre o nosso lugar do mundo.” Sensibilidade? Sensibilidade é sempre a tônica das obras do carioca Otávio, autor também de Da Minha Janela (2019) e de De Passinho em Passinho (2021), ambos pela Companhia das Letrinhas. Em Nuvem de Areia, ao lado da mineira Anna Cunha, Otávio nos venta grãos de uma travessia inspirados numa conexão com as histórias do continente africano. 

Ele chama de “raízes misteriosas da ancestralidade”, de “enigmas” que entrelaçam histórias familiares e arte que o colocam em um tempo próprio, para além de passado, presente e futuro determinados. Na narrativa, um menino lê no jornal “trazido pelos ares”: “Nuvem de areia do Saara deve chegar ao Brasil nos próximos dias”. Onde é que fica esse Saara? Nossa, faltam três dias, segundo a previsão! É no livro de geografia que ele se debruça à curiosidade e começa uma viagem inesquecível. O leitor ou a leitora só quer caminhar junto virando as páginas completamente encantado também com o universo onírico mas ao mesmo tempo reconhecível da pintura de Anna, em detalhes simbólicos que, com o texto de Otávio, marcam essa aventura poética em que nos sentimos todos um só. 

LEIA MAIS: Quantas histórias vemos da nossa janela?

Melhores livros ilustrados

E as celebrações brasileiras nem param por aí. Na mesma semana foram anunciados os 100 Outstanding Picture Books (100 livros ilustrados excepcionais), que o site dPICTUS divulga anualmente. Entre os destaques dos curadores, também com indicações do mundo todo, o livro Antes que eu me esqueça, do brasileiro e estadunidense Victor D. O. Santos e da italiana Anna Forlati, lançado este ano pela Pequena Zahar. Lançado originalmente como Before I Forget, em 2024, nos Estados Unidos. 

 

Ilustração de Antes que eu me esqueça

Ilustrações de Anna Fortali em Antes que eu me esqueça

 

Na obra, um olhar sensível para a questão da demência, a partir da perspectiva de uma menina que reflete sobre a relação do pai com a própria mãe. Todos os sábados é dia de visitar a avó e nem sempre ela se sente disposta. Até que, um dia, ele encontra uma carta: “a letra é da vovó”. 

Três obras que circulam o mundo não somente comovendo leitores com histórias importantes de serem narradas, mas, também, entrelaçando nossos modos de ver. 

(texto Cristiane Rogerio)

 

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