Afinal, o que é arte?
Arte não é coisa só de museu: está nas ruas, em objetos cotidianos. Pode ser divertida e contribuir com o desenvolvimento das crianças - e o livro ilustrado tem papel nesse contato
Lembra daquele carro voador dos Jetsons!? Tinha ainda a TV com tela plana, chamadas de vídeo, relógios inteligentes, dispositivos móveis, câmeras compactas. Tudo em uma casa inteligente, que contava com a ajuda da Robô Rose. O cenário deste desenho da Hanna Barbera que foi ao ar dos 1960 aos 1980, que se tornou real em grande parte, instigou uma geração a imaginar seu futuro. Depois vieram os três filmes da saga De Volta Para o Futuro, de Steven Spielberg (cheio de referências a Julio Verne, o francês considerado o inventor do gênero literário “ficção científica”), e a divulgação científica e as possibilidades foram se entrelaçando entre o possível e o impossível cada vez mais! Hoje, num mundo repleto do uso da tecnologia digital nas mais diversas áreas, a literatura ainda é peça-chave para levar o imaginário infantil a este novo amanhã.
O livro do futuro, de Mac Barnett e Shawn Harris, recém-lançado pela Companhia das Letras, mergulha nesta criação do mundo vindouro, em que vale dar nomes diferentes a tudo. Com o típico humor e ironia da dupla de autores, vamos passeando por um nonsense divertido, bem à linguagem do livro ilustrado, com textos, imagens e design em diálogo na narrativa.
O narrador nos apresenta um futuro em que termos e significados às vezes trocam de lugar, às vezes sugerem outras perspectivas.
Em O livro do futuro (Companhia das Letrinhas, 2026), alguns termos se invertem...
Como aparece nesta dupla do livro, deste jogo de desvendar este “futuro”, pode-se ir no Boli Boli Hu Hu (mercado) e comprar uma bebida de formas de vida mungente (leite de vaca) ou um suco de blaranja (laranja). Em vez de dizer “obrigado”, o costume neste novo tempo é colocar um peixe na cabeça de alguém.
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Ao brincar com a mudança de nomes, que atinge o universo, o corpo humano e as formas de se relacionar, a obra remete à possibilidade de recriar um mundo que parecia pronto e definido, mas que se mostrou possível de transformar. Claro que, em um objeto de arte, os limites são outros, se ampliam. Mas é essa liberdade que nos interessa. “O direito de imaginar é uma condição para transformar o mundo”, aponta a neuropsicopedagoga Priscilla Benedicto, especialista em Neurociências e diretora de escola pública infantil em São Paulo. “A imaginação não é algo leve ou secundário, ela é estruturante. É pela imaginação que a gente consegue não aceitar o mundo como ele é”, diz. Ela lembra que, antes de transformar a realidade, é preciso imaginar que ela pode ser diferente. “Uma criança que imagina está ensaiando futuros. E isso é profundamente político, porque sem imaginação a gente só repete o que já existe.”
A curiosidade é natural da infância, não precisamos ensinar crianças a serem curiosas, precisamos não interromper esta busca pelo novo, observa Priscilla. “Muitas vezes, a gente apresenta um mundo pronto, com respostas rápidas demais e isso vai fechando a curiosidade. Estimular o novo é sustentar o tempo da pergunta. Deixar a criança tentar, errar, investigar. Porque é assim que ela percebe que o mundo não está acabado e que ela pode criar coisas nele.”
Criar e conhecer também estão atrelados e não se deve separar imaginação e conhecimento, especialmente na escola. “Na ciência e na matemática, tudo começa com uma hipótese. E toda hipótese nasce de uma imaginação. Então, o papel da escola não é só transmitir respostas, é criar condições para que as crianças pensem. Isso implica abrir espaço para: perguntas, experimentação e erro. Pensar exige tempo e processo”, ressalta a neuropsicopedagoga.
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Tem sido assim na Carandá Educação, em São Paulo, onde o professor Mathias Dunker, físico e historiador, desenvolve projetos pedagógicos. Um deles com crianças de 7 e 8 anos, com foco nas Ciências Naturais, para o ensino de fenômenos óticos, como luzes e cores. “Buscamos ensinar ciências de uma maneira profunda, ainda durante a infância, sem incorrer em vocabulários e procedimentos incoerentes para esta faixa etária”, conta ele.
Assim, diz Mathias, exercita-se a capacidade infantil de criar uma narrativa que articule aquilo que se quer ensinar (baseando-se em exigências curriculares), com aquilo que os alunos mostram interesse em aprender. “Contudo, não esperávamos que apenas a curiosidade científica pudesse mantê-los curiosos. Criamos então um cenário em que uma figura misteriosa da escola – a Senhorita Luz – manda desafios e questionamentos para a turma, fazendo-os esquecer que são alunos em uma sala de aula e fazendo-os sentir como se fossem detetives, diante de um mistério a resolver.”
A ideia é instigar a imaginação e levar os estudantes a pensarem nos fenômenos visuais, que integram o currículo escolar. “Existe uma narrativa lógica que une esses experimentos, que se ligam uns nos outros tematicamente. A história da Senhorita Luz apareceu em um momento em que paramos de introduzir novos conceitos teóricos e começamos a traçar uma narrativa com ‘começo, meio e fim’, que com o passar do tempo começa a exigir a operação dos conhecimentos adquiridos para avançar na história.”
Toda a construção narrativa da atividade foi baseada num livro lido na infância por uma das professoras envolvidas no projeto. Depois de seguirem diversas pistas instigantes, que os fazem pensar sobre os fenômenos óticos, e os levam a ambientes diferentes da escola, os alunos terminam o semestre escrevendo uma história em um livro da turma, contando como foi a aventura de encontrar a Senhorita Luz. “Tanto em momentos em que pudemos utilizar histórias vindas de livros, como a da fada Clara Luz (Mathias está se referindo ao livro A Fada Que Tinha Ideias, de Fernanda Lopes de Almeira, Editora Ática, de 1971), quanto em momentos em que tiramos uma ‘licença poética’ para contar essa história, emprestando conhecimentos dos romances de mistério, por exemplo, pudemos traçar interessantes paralelos entre Arte e Ciência, que fortaleceram o ensino de ambas”, avalia o professor.
Criaram-se, assim, situações enigmáticas, mistérios e histórias que ajudam a organizar as experiências científicas, para que elas se tornem profundas, formadoras de subjetividade, destaca Mathias. “E a arte, sobretudo a literatura, é a melhor maneira de ofertar experiências formadoras de subjetividade, mesmo para os fins das Ciências Naturais.”
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A literatura, assim, abre possibilidades de mundo, como recorda Priscilla Benedicto. “Ela apresenta outras formas de viver, sentir e existir e isso amplia o repertório da criança. Na infância, a leitura não é só compreensão de texto. É experiência. A criança entra na história, se desloca, cria sentidos. Por isso, a literatura não serve para dar respostas. Ela serve para sustentar perguntas.”
Aos pais, cabe escutar a criança, valorizar suas perguntas e não interromper o brincar. Gestos simples, mas potentes. “Quando a criança sente que sua forma de pensar é respeitada, ela continua imaginando. Pensar começa no direito de não saber ainda”, conclui a neuropsicopedagoga.
(texto: Mauren Luc)
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