Como instigar novos imaginários por meio da literatura? (e o que isso pode provocar de bom no mundo)
‘O livro do futuro’ traz uma visão criativa sobre as possibilidades de recriar o mesmo mundo
Quantas diferenças cabem em um mesmo condomínio? O livro Os melhores vizinhos (Brinque-Book, 2026), de Katerina Gorelik, mesma autora de Olhe pela janela (Brinque-Book, 2022), é uma história infantil ilustrada, mas, se você olhar direitinho, não vai demorar para identificar semelhanças com a vizinhança da vida real. Basta uma breve espiada em uma reunião de condomínio para se dar conta: tem sempre aquele morador mais falastrão, outro mais espaçoso, um que faz barulho, outro que é mais discreto, outros ainda que reclamam de tudo e aqueles que acham graça em tanta diversidade.
Ilustração de 'Os melhores vizinhos' (Brinque-Book, 2026), de Katerina Gorelik
Nas páginas da obra, uma flor e a caixa de correio recebem novos moradores de uma moradia comunitária bem espaçosa e colorida. Elas fazem comentários, a partir de suas diferentes perspectivas, e observam o que acontece com toda essa mistura de personalidades e costumes. Tem bastante diversão, mas também muita confusão – e até uma consequência catastrófica. Será que todo mundo vai conseguir encontrar um lugar para chamar de lar?
Assim como em Os melhores vizinhos, a convivência entre pessoas diferentes, na vida real, envolve barulhos, hábitos curiosos e diferenças gritantes. A harmonia depende justamente da capacidade de aceitar o outro, uma narrativa que dialoga diretamente com uma questão cada vez mais presente nos grandes centros urbanos: crianças que crescem com pouca convivência fora do núcleo familiar.
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Há algumas gerações, vizinhos, pessoas de diferentes idades e famílias faziam parte da rotina. Agora, essa rede passou a ser cada vez menor. Muitas vezes, isso é consequência de insegurança, falta de tempo ou pela vida em ambientes mais isolados. O fato é que era mais raro conviver, crescer, conhecer a vida tão focado na família nuclear ou na escola, como hoje acontece em várias cidades.
“A convivência com vizinhos, pares e amigos é uma das experiências mais completas de desenvolvimento humano porque ela tira a criança do ambiente controlado e a coloca em contato com a vida real. É ali que ela aprende que o mundo não gira em torno dela, que existem outras formas de pensar, outros ritmos, outras regras”, explica a neuropsicopedagoga Isa Minatel. “Sem esse contato, a infância fica artificial, organizada, previsível, mas pobre em experiências humanas profundas. E isso pode fazer com que a musculatura social não se desenvolva”, acrescenta.
Quando as crianças convivem com pessoas diferentes, seja em idade, hábitos ou estilos de vida, elas ampliam o repertório social e emocional. “Elas aprendem a fazer uma refinada leitura de mundo. Aprendem a ajustar comportamentos, a respeitar diferenças, a lidar com frustrações, a negociar espaço, a observar dinâmicas”, afirma Minatel. “Uma criança que convive com diferentes idades desenvolve flexibilidade emocional; ela não espera que o mundo se adapte a ela, ela aprende a se posicionar no mundo”, resume.
Esse contato também contribui para a autonomia. Segundo a educadora e pedagoga Mariana Ruske, o desenvolvimento infantil acontece em camadas, e a vizinhança é parte essencial desse processo. “A convivência com vizinhos, com pessoas de outros lares, com adultos que não são os pais oferece à criança algo que o ambiente doméstico, por mais amoroso que seja, simplesmente não consegue replicar. Chama-se variabilidade”, diz. “Conviver com famílias diferentes expõe a criança a uma diversidade de valores, hábitos e narrativas que alimenta a flexibilidade cognitiva, que é a capacidade de entender que existe mais de uma forma de ver e fazer as coisas. Isso é, literalmente, o substrato do pensamento crítico”, completa.
A diversidade de experiências fortalece habilidades socioemocionais importantes. “A regulação emocional, entendida como a capacidade de lidar com a frustração, esperar e ceder, é treinada intensamente quando a criança convive com pessoas que não têm obrigação afetiva de ceder a ela”, explica Ruske.
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Assim como no livro, em que a convivência entre vzinhos depende de tolerância e adaptação (o que nem sempre acontece), na realidade, as crianças observam como os adultos se relacionam. Cumprimentar, conversar, resolver conflitos com respeito e demonstrar abertura ao diferente são atitudes que ensinam, mesmo sem intenção.
“A confiança não nasce pronta. Ela é construída na repetição de interações. E quando o adulto se conecta, a criança naturalmente se beneficia dessa rede”, destaca Isa Minatel.
Ao mesmo tempo, o receio com a segurança, que é algo muito presente, sobretudo nos grandes centros urbanos, é uma preocupação legítima. O equilíbrio, segundo especialistas, está em ampliar a autonomia gradualmente, dentro de contextos conhecidos. “Não se trata de abrir a porta e dizer para as crianças: ‘se virem’. Trata-se de ampliar progressivamente o raio de experiência da criança”, afirma Mariana Ruske.
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Quando a infância fica restrita apenas à família e a ambientes estruturados, faltam algumas experiências importantes. “Perde-se a espontaneidade das relações. Perde-se o aprendizado do improviso. Perde-se a experiência de resolver conflitos sem roteiro”, resume Isa Minatel.
Assim como os moradores de Os Melhores vizinhos, que precisam aprender a conviver apesar das diferenças, as crianças também se desenvolvem quando têm a oportunidade de encontrar o outro, que é o vizinho, o amigo do prédio, o adulto conhecido do cotidiano. Nessas interações, constroem empatia, flexibilidade e pertencimento. E, sobretudo, descobrem que viver em comunidade é uma habilidade que se aprende e se observa desde cedo.
(texto: Vanessa Lima)
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